O francês Choderlos de Laclos tornou–se famoso como escritor, no final do século 18, ao lançar o romance Relações Perigosas, em 1782. Considerada uma das grandes obras da literatura mundial, teve várias versões cinematográficas, sendo que a mais famosa, de 1988, ganhou três Oscars. Laclos, porém, não se consagrou apenas como escritor, pois foi general do exército francês, tido como um brilhante estrategista. Sua tática, embrião da política que ficou conhecida como “terra arrasada”, consistia em fatigar o inimigo e recuar sempre, destruindo todos os víveres que deixavam atrás de si. Desse modo, os adversários, cansados e famintos, podiam ser aniquilados mais facilmente. Sob às ordens do general Luckner, venceu para a França a Batalha de Valmy. Em 1800, promovido à general–de–brigada por Napoleão, conquistou outras importantes vitórias para o célebre imperador francês.
Resumindo essa apresentação, o general Choderlos de Laclos tinha uma missão, junto ao seu país e ao imperador Napoleão. E a cumpriu.
Choderlos de Laclos morreu em 1803, mas deixou sua estratégia na história. Quem se aproveitou, por ironia do destino, foi o próprio exército russo, e contra Napoleão. Em 1812, o marechal Kutuzov, que morreria um ano depois, utilizou–se dessa estratégia contra a invasão napoleônica. A ideia de Kutuzov era a de recuar para o interior do território russo atraindo assim Napoleão, que esticava cada vez mais a sua linha de suprimentos vinda do leste da Polônia (território então aliado do Império Napoleônico), devastando quase tudo o que não podiam levar consigo.
Na Segunda Grande Guerra Mundial, já no século 20, Stalin foi pego de surpresa pelo ataque do exército alemão e demorou dias para se recompor, nomeando para chefe do estado maior o general Georgi Konstantinovich Zhukov, que se tornaria posteriormente um herói na vitória contra o nazismo. Depois de trocar postos no seu exército vermelho, dirigiu–se à população, invocando uma "Guerra Patriótica" contra os invasores. Apelou para uma política de "terra arrasada" – a mesma que ajudou os russos a derrotar Napoleão – para vencer os nazistas. Os nativos deveriam levar toda espécie de suprimento na retirada para Leste; o que não fosse possível transportar, deveria ser destruído pelo caminho. Os russos tinham 2,5 milhões de soldados, contra 3 milhões dos alemães, divididos em três poderosas frentes de ataque. Hitler, que deixara apenas 600 mil homens para lutar na Europa, sofreu o seu golpe fatal ao perder essa disputa levada a cabo durante o rigoroso inverno russo.
Resumindo essa importante passagem da história mundial, a Rússia tinha um objetivo e o atingiu, abreviando o final da Segunda Guerra.
O Jockey Club de São Paulo, sob a presidência de Eduardo da Rocha Azevedo, vive a maior crise de sua história de 140 anos. Retenção de prêmios, atrasos nos salários dos funcionários, atrasos no pagamento de fornecedores, fechamento de bares e restaurantes concessionários, venda de patrimônio como a valiosa Sede da Rua Boa Vista e entrega da Chácara do Ferreira sem nenhuma contrapartida da Prefeitura até o presente momento. Eduardo da Rocha Azevedo, o dirigente que chegou com a plataforma política da “gestão do turfe”, foi o mesmo que vendeu, no início dos anos 90 e na condição de diretor na gestão de Antonio Grisi, o Posto de Fomento de Campinas. Se a Sede foi repassada por R$ 90 milhões, sendo que a maior parte ficou na mão de credores, o Posto também foi comercializado em condições pouco conhecidas pelos sócios até hoje. O que se sabe é que a propriedade pertence a um antigo banqueiro e que a sua avaliação atual é múltiplas vezes superior ao que foi pago à época (cerca de R$ 6 milhões) à diretoria do Jockey.
Com esse histórico, Eduardo da Rocha Azevedo e seu superintendente Horácio Mendonça também parecem ser adeptos de uma política da terra arrasada, do “vende tudo”, ou do “para tudo”, já que ambos foram responsáveis pela saída dos principais eventos das dependências do hipódromo, da chácara e da sede – shows musicais, casamentos, leilões e outros eventos esportivos, empresariais e de entretenimento. Tais receitas, como a do Lollapalooza que está sendo realizado por esses dias no autódromo de Interlagos, eram cruciais para a manutenção das atividades principais do clube, inclusive da realização dos outrora regulares três programas semanais.
Com o fim das atividades sócio culturais, empresariais e esportivas em todas as dependências do clube, a sede foi vendida, a chácara entregue e o hipódromo literalmente abandonado à própria sorte. Os programas de corridas diminuíram, os restaurantes estão fechando, os serviços de segurança e de limpeza foram drasticamente reduzidos. A condição das lajes e dos forros das tribunas, assim como das cadeiras de madeira, é péssima. E o piso de pedras portuguesas que circunda o prado tombado pelo patrimônio histórico está praticamente destruído.
Os militares franceses e depois os russos tinham um propósito definido com suas estratégias. Cabe perguntar aqui, portanto, qual a missão abraçada pelo presidente do Jockey com sua política de terra arrasada no Hipódromo Paulistano? Acabar com esse espaço de lazer e esporte da cidade? Vender tudo o que puder ser vendido, a qualquer preço? Ou a “gestão de turfe” quer simplesmente aniquilar o “turfe” do estado de São Paulo?
Transcrito do site APFT