Em brilhante artigo publicado no dia 27 de fevereiro, no jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista Fernando Gabeira traduziu aquilo que pensa quase a metade da população brasileira votante – aquela parte que se posicionou contra a reeleição do atual governo – somada a muitos outros eleitores que sufragaram o governo Dilma, mas que já estão decepcionados com os rumos tomados nos dois primeiros meses de gestão da presidenta.
No artigo, intitulado “Os saqueadores da lógica”, o ex–deputado federal Gabeira (pelo PT e depois PV) começa escrevendo que, “se o PT pusesse fogo em Brasília e alguém protestasse, a resposta viria rápida: onde você estava quando Nero incendiou Roma? Por que não protestou? Hipocrisia. Com toda paciência do mundo, você escreve que não era nascido, e pode até defender uma ou outra tese sobre a importância histórica de Roma... Mas é inútil. Você está fazendo, exatamente, o que o governo espera. Ele joga migalhas de nonsense no ar para que todos se distraiam tentando catá–las e integrá–las num campo inteligível. Vi muitas pessoas rindo da frase de Dilma que definiu a causa do escândalo da Petrobrás: a omissão do PSDB nos anos 1990. Nem riso nem a indignação parecem ter a mínima importância para o governo”.
Mais adiante, Fernando Gabeira traça um paralelo e também lembra dos governos atuais da Venezuela e da Argentina. “O mundo é um espaço de alegorias, truques e efeitos especiais. Nicolás Maduro e Cristina Kirschner também constroem um universo próprio, impermeável. Se for questionado sobre uma determinada estratégia, Maduro poderá dizer: um passarinho me contou. Cristina se afoga em 140 batidas do Twitter: um dia fala uma coisa, outro dia se desmente.
Aproveitando a mensagem do artigo de Gabeira, podemos agora inserir o Jockey Club de São Paulo no contexto. No momento em que a APFT discute, em seus editoriais, a grave situação do turfe paulista, encontrando eco em veículos como o site Raia Leve e o Jornal do Turfe, que reproduzem esse material, é pública e notória a falta de resposta da atual gestão do clube às demandas dos sócios, criadores, proprietários, profissionais, turfistas e funcionários. Como se integrasse o mundo “faz de conta” e hipócrita denunciado no texto de Gabeira, o presidente Eduardo da Rocha Azevedo e seu superintendente Horácio Mendonça não apresentam plano algum de ação, recuperação ou contingenciamento para resgatar o Jockey da condição de insolvência em que se encontra.
Ao contrário, quando cobrados por medidas saneadoras de problemas como retenção de prêmios ou atrasos nos pagamentos de funcionários e fornecedores, o presidente ERA e seu Horácio costumam apontar outros culpados para a crise que eles mesmos instalaram no clube. Como exemplos, atacam os que fazem denúncias sobre a política suicida do clube em quitar enorme dívida de impostos de uma só tacada (a culpa é dos jornalistas); ou apontam diretorias anteriores – particularmente a imediatamente anterior – de ser a responsável por tudo o que acontece hoje (a culpa é dos ex–dirigentes). Neste caso, cabe bem a comparação do que Dilma faz em relação à Petrobrás, ao afirmar que o problema da empresa quem causou foi o PSDB lá pelos anos 90...
Fernando Gabeira, mais à frente, diz em seu texto: “Todas essas manobras e contramanobras ficarão marcadas na história moderna do Brasil. Essa talvez seja a razão principal para continuar escrevendo. Dilmas, Obiangs, Maduros e Kirchners podem delirar no seu mundo fantástico. Mas vai chegar para eles o dia do vamos ver, do acabou a brincadeira... Nesse dia as pessoas, creio, terão alguma complacência conosco que passamos todo esse tempo dizendo que dois e dois são quatro”.
Na defesa dos interesses do turfe, a APFT seguirá afirmando, em seus editorais, que “dois e dois são quatro”, e que a grandeza e a história do clube paulista serão, sempre, as razões principais para continuar escrevendo, para continuar defendendo o Jockey – patrimônio dos turfistas e da cidade de São Paulo.
Transcrito do site APFT