Há algumas semanas, a APFT tem mostrado, em seus editoriais, a situação difícil em que se encontra o Jockey Club de São Paulo, com uma crise sem precedentes na história centenária do clube paulista. Retenção de prêmios, repetidos atrasos no pagamento dos funcionários, diminuição do número de programas, das corridas e das inscrições. Uma situação de muita gravidade que não vem sendo enfrentada à altura pela diretoria do JCSP, já que medidas de austeridade, recuperação ou contingenciamento não foram anunciadas até o momento pelo presidente Eduardo da Rocha Azevedo e seu superintendente Horácio Mendonça.
Por mais que todos esses fatores como retenção e atrasos causem apreensão, convém lembrar aqui o origem da crise, que é a política equivocada de ERA, hoje um presidente sem credibilidade junto aos sócios e até junto a seus companheiros de diretoria. O dirigente tentou pagar todos os impostos atrasados de uma só tacada, inclusive aqueles que estavam sub–judice, e que deveriam portanto continuar a ser negociados, como faria qualquer empresa ou departamento jurídico. Bandeira de campanha da atual gestão, o pagamento das dívidas foi feito de uma forma atabalhoada, impraticável, sugando todas as parcas finanças do clube e deixando–o à beira da insolvência. Se parar de dar corridas, como continuará levantando recursos para esse pagamento? Se parou ou perdeu todos os seus eventos, como pretende levar a cabo um programa razoável de quitação de débitos sem deixar de pagar suas obrigações mensais? A verdade é que nunca houve planejamento para essas situações, como temos visto agora.
O presidente ERA optou por uma estratégia errada, suicida, de querer pagar alguns milhões de reais (os números corretos nunca conferem) de uma tacada só. Se fosse um golfista, ERA teria tentado fazer um hole in one, mas o máximo que conseguiu até aqui foi mandar a bolinha para o lago... Numa comparação atual, o dirigente se parece com o atual prefeito de São Paulo, que jogou todas as suas cartas num programa de criação de ciclo faixas e ciclovias que vai resultar em quase 500 quilômetros de vias na cidade até o final de sua gestão, em 2016. Até agora, já cumpriu cerca de metade do programa, em meio a fortes críticas da população e denúncias de superfaturamento das obras.
Tal como ERA e sua volúpia em pagar todas as dívidas de uma só vez, Fernando Haddad também não mede esforços para pintar a metrópole de faixas vermelhas. Nisso, superou até a rica cidade de Nova Iorque, que fez a mesma quilometragem de ciclovias mas num prazo de sete anos. O resultado de tamanha obsessão todos conhecem: a cidade abandonada, com árvores caindo por falta de manutenção e poda, trânsito caótico com semáforos que apagam mesmo em dias sem chuvas, ocupação desordenada do centro da capital e de áreas de mananciais, com dezenas de invasões de imóveis e terrenos, etc.
O trabalho desses dois gestores demonstra o quanto pode ser prejudicial para uma cidade, para um clube, quando se cumprem programas de administração/governo de maneira obsessiva, sem planejamento, sem ouvir toda uma comunidade e seus sócios/cidadãos. O resultado é o baixo índice de aprovação de ambos. O do prefeito, constatado por recentes pesquisas. O do presidente do Jockey, visto pela desaprovação que sofre por parte de sócios, criadores, proprietários, profissionais e funcionários do clube.
Um episódio recente, aliás, une os dois gestores. A Chácara do Ferreira, que durante décadas serviu ao Jockey Club como posto de monta, centro de treinamento, arena de leilões e de eventos, foi entregue no fim do ano passado à municipalidade, como parte da dívida de IPTU do clube. Outra negociação atabalhoada do presidente ERA, que não conseguiu aproveitar a preciosa ocasião para discutir com a Prefeitura a mudança na cobrança do IPTU, tampouco valores mais compensadores para o clube, que saiu desse imbróglio igualmente endividado (e não com a dívida quase zerada, como querem fazer crer o presidente e seu superintendente).
Pelo lado da municipalidade, a promessa do prefeito em transformar a Chácara no “Parque do Jockey” ficou, até agora, em promessa mesmo e na cobrança dos moradores da região para que a obra saia efetivamente do papel. Haddad fez uma entrega pomposa do bem, quando até trator dirigiu para derrubar um pedaço do muro e ali colocar a placa do futuro parque. Até agora, permanece lá apenas a placa, e no chão...
Para todos que acompanham o caso, é inadmissível o estado de falta de conservação em que se encontram os 170 mil metros quadrados da antiga Chácara do Ferreira, com suas diversas árvores, nativas ou não, que estão na mesma situação das outras árvores da cidade: em vias de cair parcialmente (galhos e troncos) ou em sua totalidade.
A Chácara, que não foi usada pela atual diretoria do Jockey para eventos, leilões ou para outras iniciativas rentáveis, agora está nas mãos de um prefeito que também não lhe dá uso ou valor imediato. Poderia ter sido utilizada, por exemplo, para reunir, em local fechado, seguro e mais fácil de ser monitorado pela Polícia, o desfile dos blocos de Carnaval que infernizou os moradores do bairro da Vila Madalena e arredores. O problema, mais uma vez, é que o prefeito, tal como o presidente do Jockey, têm foco em uma única atividade e é obcecado em cumpri–la, mesmo que para isso não consiga mais manter a cidade de São Paulo limpa, segura e habitável.
Transcrito do site APFT