A paixão do verdadeiro turfista pelo esporte supera qualquer obstáculo. As fardas coloridas, principalmente das coudelarias tradicionais, vagam por sua mente desde a quarta–feira até chegar a hora das atrações principais, quase sempre no final de semana. Ele procura adequar horários, dividir tarefas, adiantar obrigações no trabalho e também as familiares. Tudo para não perder aquele páreo especial. E o páreo especial tanto pode ser a melhor carreira da semana, ou, simplesmente aquela em que está inscrito o cavalo do seu coração. E o cavalo do seu coração pode ser um craque ou apenas um matungo refinado.
Numa programação como a desta semana no Hipódromo da Gávea, em que serão disputadas duas provas de Grupo I, o Grande Prêmio Francisco Eduardo de Paula Machado e o Grande Prêmio Diana, os corações batem mais fortes. A ansiedade pelo desenlace da questão pega todo mundo de jeito. Os páreos se desenrolam de mil maneiras diferentes na mente de cada turfista. Cada um desenvolve o seu próprio sonho com relação ao resultado. Aparecem obstáculos, percalços, passagens milagrosas junto à cerca interna, finais eletrizantes e dramáticos com vitórias no fotochart. E tudo tem de esperar até a segunda–feira. Não há nada na televisão, no teatro ou no cinema que possa substituir o desejo de ver estes páreos de perto. Enfim, não existe nada acontecendo, em qualquer lugar do universo, mais importante.
A adrenalina de uma corrida de cavalos jamais poderá ser avaliada por um cidadão comum. E o que seria um cidadão comum? Qualquer indivíduo que nunca se apaixonou pelo turfe. Pobre infeliz. Vai passar por esta vida sem ter o privilégio de sentir um prazer só comparado a fazer amor com a mulher amada. De sofrer a derrota na fotografia que provoca tristeza semelhante à despedida desta vida dos melhores amigos. De sentir todo o corpo pulsar de alegria com a vitória inesquecível na raia pesada de uma chuvosa corrida noturna. Ou, o delírio da multidão a bater palmas de pé na consagração de um craque tríplice–coroado numa tarde de grama leve.
Não há nada e nem ninguém que possa por um fim a esta paixão. Nem dirigentes medíocres, nem interesses políticos e muito menos a preguiça típica dos incompetentes. O turfe se basta por si só. Ele sobrevive através de milhares de anos a bobagens de todos os tipos. E no próximo domingo, no deslumbrante hipódromo carioca, um dos mais belos do mundo, mais uma vez os puros–sangues e os turfistas celebrarão este amor fiel, sublime e eterno do homem pelo cavalo de corrida.
por Paulo Gama