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Fevereiro | 2015

Desferrados na grama: Melhora positiva ou prejuízo à saúde dos animais?
04/02/2015 - 13h24min

A ACPCPSI, sempre preocupada com os assuntos relacionados ao turfe, principalmente os que afetam diretamente os proprietários de cavalos de corrida, propõe à comunidade turfística um debate sobre a permissão ou não de desferrar animais para competirem em pista de grama.

Hoje, temos três hipódromos no Brasil com pistas de grama ativas. Um deles, o da Gávea no Rio de Janeiro permite que animais corram desferrados enquanto os outros, o de Cidade Jardim em São Paulo e o de Uvaranas em Ponta Grossa, proíbem que isto ocorra.

Com isso, a ACPCPSI, diante da inequívoca vantagem competitiva dos animais que correm desferrados, contrastando com algumas opiniões contrárias em relação à saúde dos animais e a falta de preparo correto dos cascos, no intuito de promover o debate com a comunidade turfística acerca do tema, lança neste momento uma nova enquete aonde pede a participação de todos os turfistas. 

Nesta enquete, a ACPCPSI oferece as tradicionais quatro opções de voto, a primeira, “Não me considero tecnicamente preparado...”, é voltada para aqueles turfistas que gostam do esporte, apostadores ou não, que não se sentem capacitados a opinar sobre o tema e que apenas querem ter a informação do animal estar desferrado ou não para poder levar esta em conta em seus estudos. A segunda opção, “Em minha opinião não deveria ser permitido...”, é voltada para aqueles turfistas que possuem uma opinião formada e são contrários à permissão do ato de se desferrar um animal para correr em pista de grama, ou seja, são favoráveis a uma proibição em todo o Brasil da possibilidade de desferrar um animal. A terceira opção, “Em minha opinião deve continuar a ser permitido...”, é voltada para todos os turfistas que são favoráveis à permissão dos animais atuarem desferrados, como ocorre hoje no Hipódromo da Gávea, ou seja, sem interferência da comissão de corridas, bastando que o treinador informe sua intenção. Por fim, a quarta opção, “Em minha opinião deveriam ser organizados...”, é voltada para todos os turfistas que acreditam que deveriam ser organizados critérios específicos pelas Comissões de Corridas para que os animais pudessem ser desferrados como limitação de valores mínimo e máximo de penetrômetro, análise da conformação do casco do animal, fiscalização da preparação do casco e etc...

Como primeiro ponto a ser considerado, cabe dizer que hoje em dia, desferrar animais não é mais permitido em vários centros turfísticos importantes do mundo.

Para enriquecer a discussão, a ACPCPSI inclui nesta matéria alguns argumentos tanto contrários como favoráveis à atuação de animais desferrados. 

Quando observamos a opinião dos treinadores, a maioria é favorável a desferrar animais na pista de grama tomando alguns cuidados como afirmou o excelente treinador Amasílio Magalhães ao Blog de Aron Corrêa quando disse que “Nunca tive dificuldade com os cavalos que apresentei sem as ferraduras. Para isso, é muito importante fazer um preparo diferenciado nos cascos. Aparar, dar banho de sulfato de cobre, queimar com terebentina, com iodo e engraxar com sebo de carneiro. Minha opinião sempre foi contestada por muitos, mas o resultado nas pistas é satisfatório e condizente com o que penso. Os cavalos, quando ainda potros, correm de um lado para outro nos pastos, desferrados, e não apresentam dificuldade alguma. É o natural do animal. Eles sabem como se defender, a não ser quando a grama está molhada. A ferradura é como o sapato para o ser humano. E é grande a diferença entre correr usando sapatos apertados e correr descalço. Por esse motivo foi criada a expressão correr sem sapato, ou como dizia um turfista apaixonado, referindo–se ao cavalo desferrado: vai de gasolina azul”.

O excelente treinador e conceituado veterinário Leopoldo José Cury, declarou em matéria realizada pelo Raia Leve em 2012 que “É muito bom o percentual de cavalos vitoriosos que correram desferrados. Entretanto, não é qualquer cavalo que pode ser desferrado. Existem condições especiais para tal prática. Além de ter cascos bons e preparados para pisar sem as ferraduras, é preciso observar o tipo de piso em que ele vai competir. Eu, por exemplo, só desferro o cavalo na Gávea quando o índice do penetrômetro está entre 4.1 e 3.4, ou seja, nem com a raia pesada, nem muito dura. Existem cavalos que só rendem o máximo quando correm sem as ferraduras. Jamais tive qualquer cavalo com problema de saúde por ter corrido dessa forma. Assim sendo, não me parece justo proibir uma vantagem que é natural. Acho que, em tudo, deve sempre prevalecer o critério e o bom senso. Não gosto da ideia de proibir que o cavalo seja desferrado. Da mesma forma, não gostaria se houvesse uma exigência de todo cavalo correr desferrado”.

O Presidente da APTJARJ (associação de profissionais de turfe do Rio de Janeiro), o competente treinador e veterinário Jaime Muniz Barreto de Aragão Neto pensa bastante parecido com o seu colega Leopoldo Cury e disse ao Raia Leve que “Em minha opinião não deveria ser proibido corrermos os animais desferrados. Alguns animais se batem correndo e estando ferrados provocam ferimentos algumas vezes sérios, levando inclusive a suturas. Não vejo nenhum problema em correr animais desferrados desde que o casco seja preparado para isso e tenha uma conformação adequada. Não concordo com quem diz que o animal competindo desferrado há um aumento na incidência de problemas no casco. Isso só procede quando o casco não é apropriado ou não está preparado para ser desferrado.”

O treinador argentino Rossi Diego Hernane que cuida na Argentina e tem cerca de 50 corredores aos seus cuidados, quando esteve no Rio foi ouvido pelo Raia Leve sobre o assunto e afirmou que não apresenta nenhum cavalo desferrado, embora tal fato não seja proibido na Argentina:

“Apenas os Hipódromos de San Isidro e de Palermo têm pista de grama, na Argentina. E os pisos têm características totalmente diferentes. Em San Isidro, a grama é mais alta e macia; em Palermo, muito curta e mais dura. Dessa forma, alguns cavalos correm desferrados em San Isidro, mas em Palermo não”, revelou o treinador, que no momento ocupa a sétima colocação na estatística de La Plata, e a 25ª em San Isidro e em Palermo.

Os veterinários Adilson Menegolo e Bianca Cascardo também participaram da mesma matéria feita com Léo Cury e declararam: 

“Qualquer proibição só deveria ser feita se, de forma inequívoca, afetasse a saúde do próprio cavalo ou o direito de outrem. E esses não parecem ser os casos”, disse Bianca, que acha que o cavalo – que rende melhor e pode correr sem as ferraduras – não deveria ser impedido de fazê–lo. 

“Por que proibir o cavalo de correr desferrado? Ele nasce sem ferraduras, é algo natural. A ferradura tem o objetivo de dar maior segurança e apoio ou de corrigir imperfeições. Embora teoricamente seja possível algum dano ao animal, não conheço nenhum caso desses. E creio que se houve algum fato do tipo, uma investigação mais profunda mostraria que o verdadeiro vilão do caso não era meramente a falta de ferraduras. Se o cavalo rende mais sem elas, que corra dessa forma”, sentenciou Menegolo.

Outros importantes veterinários foram ouvidos pelo Raia Leve no passado e apesar de não emitirem opiniões claras sobre o assunto, deram suas opiniões gerais. O veterinário e criador Ulisses Lignon Carneiro é um que disse não ver qualquer problema para que o cavalo seja desferrado. O veterinário Flávio Geo, porém, embora não tenha emitido opinião direta sobre o assunto, disse que não corre seus cavalos sem ferraduras. O também veterinário Flávio Carneiro, outro que preferiu não opinar a respeito do assunto, por considerá–lo muito mais político do que técnico, assegura que, em princípio, não vê problema no fato de o cavalo correr desferrado.

Além dos profissionais citados acima, o Raia Leve procurou coletar algumas opiniões de conceituados profissionais ligados ao turfe em relação a proibição ou não de correr animais desferrados.

“O animal só deve correr desferrado se o casco mostrar boas condições estruturais e a raia possuir boa qualidade. No entanto, na dúvida, é melhor correr sempre ferrado”.

Leopoldo Mesquita Weiss, veterinário e ferrador

“Sou contra correr desferrado porque o casco se quebra facilmente e, às vezes, a recuperação do animal é demorada”.

João Gabriel da Costa, treinador

“Eu sou contra, mas é impressionante a melhora de alguns animais quando correm desferrados na pista de grama seca. O principal problema é quando o animal corre seguidamente desferrado e quebra a parede do casco prejudicando sua saúde. Com a parede danificada, o ferrador terá dificuldades de fazer o ferrageamento correto”.

José Luiz Aranha, veterinário e treinador

“Como veterinário não recomendo que os cavalos corram desferrados sob o alto risco de sofrer lesões. Por outro lado, existe a competição, na qual, ganhar é o objetivo principal e é inegável a melhora que alguns animais têm quando correm desferrados. Olhando por este ponto de vista, depois de conhecer bem o potencial do cavalo e a qualidade de seus cascos, já usei desse artifício por várias vezes, inclusive venci quatro provas de Grupo 1 com cavalos desferrados, mas já houve caso em que cavalos adquiriram lesões que comprometeram seu futuro como atleta”.

A.L. Cintra (Tolú), veterinário e treinador

“Sou a favor. Historicamente meu avô, Pedro Gusso, em 1930, correu o primeiro animal desferrado no hipódromo da Gávea, o que, hoje, fazemos como rotina. Atualmente, é nítido que alguns animais têm seu rendimento aumentado correndo desferrados nas raias de grama, o que dentre os participantes do páreo lhe dará vantagem. Obviamente os cascos serão mais danificados comparados aos que correm ferrados, mas temos meios de diminuir qualquer prejuízo”.

E. P. Gusso, treinador  

“É uma prática usada em alguns animais no Brasil. Fazendo uma analogia ao atletismo de alto nível, seria o mesmo que correr descalço. Para mim, é difícil concordar com essa prática”.

Newton Birskis, veterinário

"Desde quando surgiu na Inglaterra, no século XVII, a preocupação em deixar as corridas mais equilibradas é matéria de lei. Foi assim que surgiram as chamadas: perdedores contra perdedores, ganhadores contra ganhadores  e assim sucessivamente, até chegarmos aos Grandes Prêmios. Foram separados machos de fêmeas. Separaram–se, ainda, os animais por faixa de idade. Tudo com um único objetivo: o de equilibrar a contenda. Toda a graça do esporte está intimamente ligada a estes agrupamentos. Para um dos seus setores mais importantes, o das apostas, motor da atividade, significa maior volume de jogos. Ninguém apostaria em páreos em que as diferenças técnicas entre os competidores fossem flagrantes a ponto de transformar as corridas em jogo de cartas marcadas. Com o tempo foram surgindo diversos acessórios para os cavalos utilizarem nas corridas. Antolhos, arminhos, rosetas e línguas amarradas  fazem parte desta lista. Todos estes acessórios têm por objetivo atenuar baldas ou problemas físicos do atleta, dando possibilidades aos mesmos de poderem manifestar, da forma mais ampla possível, o seu poderio locomotor. Nenhuma destas ferramentas por si só, aumenta a capacidade de correr de qualquer animal. As celas, selins, cilhas, arreamentos e ferraduras, são o uniforme do atleta e já se faziam  presentes quando da realização das primeiras provas em terras inglesas. E se se mantêm presentes depois de quatro séculos de prática esportiva, não podemos lhes negar a suma importância. Ferraduras foram inventadas para proteger os cascos  dos cavalos. Ferradura não é acessório, pois  enquanto este corrige problema de alguns exemplares, aquela previne o que pode vir a ser o problema de todos. Ninguém que tenha preocupação com seu animal, vai usar de artifício que possa lhe comprometer a saúde ou  a sua carreira como atleta. Quando toda a história nos mostra a incessante busca pelo nivelamento dos páreos,  eis que o Brasil se deu o direito, talvez, de ser o único país do mundo onde se permita  correr cavalos desferrados. E o motivo é apenas um: está provado que há aumento de desempenho para quem atua sem ferraduras na pista de grama.

Não é vantagem que se possa quantificar, tudo depende da distância da prova e do estado da grama. Usando o quilômetro como base, não creio ser menor do que meio segundo a melhora da performance. Algo por volta de três corpos, fator decisivo para alterar o resultado de qualquer páreo".

Aron Corrêa, cronista de turfe

"É um assunto polêmico, mas como veterinário tenho que ser contra. Já participei de vários encontros profissionais de ferradores e também de veterinários e, até hoje, não ouvi uma explicação convincente que justificasse o porquê certos animais correm mais ou melhor desferrados na grama. O que posso afirmar é que alguns animais têm um melhor desempenho na grama ao correrem sem ferraduras, mas que estes animais têm maior probabilidade de sofrer lesões dos membros inferiores."

Christian Schlegel, veterinário

"Se o cavalo tiver cascos íntegros, com boa estrutura e velocidade de crescimento, sem problemas inflamatórios e/ou degenerativos, o cavalo pode correr desferrado desde que a raia tenha boas condições para tal. A raia não pode estar úmida, deve ser regular (sem buracos), e não muito abrasiva. Em geral os cavalos correm bem desferrados em raias de grama, bem secas (sem alto teor de umidade). Alguns animais melhoram a performance desferrados, pois com o aumento da propriocepção eles conseguem modificar sua biomecânica e aumentar seus lances. Existe uma preparação dos cascos dos cavalos para correrem desferrados, o ideal é que os cascos estejam duros, mas sem perder a hidratação (para evitar rachaduras e quebra de parede) e melhor dissipação do impacto. Não são todos os animais que correm bem desferrados, depende de cada indivíduo. Se existir algum problema de cascos (citados acima), provavelmente isso irá diminuir a performance. Também existe um fator genético relacionado, onde algumas linhagens são conhecidas com uma tendência a  indivíduos correrem bem desferrados. A maioria dos hipódromos no mundo permite que os animais corram desferrados, desde que declarem antecipadamente essa escolha. Em países como os Estados Unidos não é comum correrem desferrados. Isso por que a maioria das corridas ocorre em raias de areia ou raias de materiais sintéticos (Polytracks), geralmente abrasivas para os cascos."

Irineu de A. Palmeira Machado – veterinário

"Como tudo nos USA, "racing is state regulated". Assim sendo em alguns estados é permitido correr animais desferrados (desde que no ato da inscrição isto seja avisado) e em outros estados é proibido. Cada jurisdição tem seus motivos para justificar a proibição (segurança dos jockeys e dos animais, liability, etc.).Também o uso de agarradeiras varia de estado para estado e de hipódromo para hipódromo dentro de um mesmo estado. A proibição e/ou limitação do tamanho da  agarradeira é decorrente do tipo de superfície (areia / grama / sintética); sendo que na grama, a preocupação é com o terreno em si. Já nas sintéticas a preocupação é com o cavalo, uma vez que muitas lesões, especialmente as de posteriores, são atribuídas ao uso de ferraduras com agarradeiras em combinação com a superfície (não sem razão). Muitos treinadores que treinam diariamente na sintética tem considerado treinar seus cavalos desferrados pelo menos  dos posteriores. Vale a pena lembrar que as pistas sintéticas (polytrack / tapeta / pro–ride entre outras) são relativamente novas na América do Norte, daí estarmos ainda em período de adaptação."

Eduardo Caramori, treinador brasileiro atuando nos Estados Unidos

Outros importantes veterinários foram ouvidos pelo Raia Leve no passado e apesar de não emitirem declarações sobre o assunto, deram suas opiniões gerais. O veterinário e criador Ulisses Lignon Carneiro disse não ver qualquer problema para que o cavalo seja desferrado. O veterinário Flávio Geo, porém, embora não tenha emitido opinião direta sobre o assunto, disse que não corre seus cavalos sem ferraduras. O também veterinário Flávio Carneiro, outro que preferiu não opinar a respeito do assunto, por considerá–lo muito mais político do que técnico, assegura que, em princípio, não vê problema no fato de o cavalo correr desferrado.

Em matéria realizada em 2007 pelo saudoso Marco Aurélio Ribeiro, este afirmou que “Para que um cavalo corra desferrado é obrigatório que tenha cascos fortes e preparados para enfrentar a pista, invariavelmente mais dura. Os resultados mostram que os animais que correm sem as ferraduras podem render mais, muitas vezes bem acima do vinham fazendo anteriormente e surpreendendo com pules altas. No universo do turfe existem treinadores que, verdadeiramente, “adoram” este procedimento e outros que preferem não arriscar. A verdade é que não basta apenas “querer” desferrar o animal. É preciso que os cascos estejam em perfeitas condições. Um corredor que não está devidamente preparado para correr desferrado, ao invés de apresentar melhor rendimento, poderá sofrer lesões, muitas vezes irreversíveis”.

Por fim, a ACPCPSI/Raia Leve quer saber, diante de argumentos favoráveis e desfavoráveis, diante dos fatos de que é inequívoca a melhora de performance dos animais desferrados na grama seca e de que os centros mais avançados do mundo caminham para o abandono do ato de desferrar animais para correrem em pista de grama, qual é a opinião da comunidade turfística e convida a todos a debaterem o assunto no espaço do leitor do site.

Diretoria ACPCPSI



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