Bons tempos (*)
Antigamente, os ambulantes andavam pelas tribunas com seus tabuleiros vendendo pules de 10 mil réis. Os turfistas, que estavam sentados nas cadeiras da pelouse (havia muitas), nem precisavam se levantar.
“As apostas serão encerradas dentro de cinco minutos. Ambulantes, prestar contas!” E lá iam eles. Vez por outra, um se atrasava e já vinha era chamado: “Alô, ambulante B, prestar contas!”
O grande atrativo da época era o Betting Simples, que às vezes ficava acumulado durante duas ou três semanas. Depois, o Betting Duplo, também acumulando muitas vezes. Dificilmente os turfistas faziam inversões, como hoje. Nem havia bilhete para combinados. Tudo era escrito na caneta. Uma vez, veio de São Paulo uma égua chamada Europa, blusa verde e boné vermelho, e furou pela segunda vez o Betting Duplo da rapaziada. Ficou famoso o rateio elevado de Europa. Na semana seguinte, ela repetiu o triunfo.
Havia um restaurante magnífico na Tribuna Especial, cujo dono, Sr. Dalmiro, era também proprietário do Restaurante das Paineiras. Comida a baixo preço e de primeira categoria. Ele tinha uma égua chamada Fuerza Bruta, que corria muito. Depois, remodelaram o local e o entregaram ao Carlos Machado. Não deu certo. Bons tempos.
Todo mundo ainda trabalhava aos sábados, até o meio dia. Depois, poderiam seguir para a Gávea, onde se tinha a certeza de encontrar um excelente cardápio. E bem barato mesmo.
Saíam ônibus da Light, do Clube Naval e do Palace Hotel, número 52, cobrando 600 réis, e lotações a 2 cruzeiros. Quem quisesse gastar menos apanhava, na Galeria Cruzeiro, o bonde Gávea ou o Jardim Leblon. Por 330 réis, vinham até a praça. Ninguém tinha carro. Havia muito menos corrupção. Os homens eram mais sérios.
Quem vinha de Copacabana apanhava o Ipanema–Túnel Novo até o Bar 20 e ali o Jardim Leblon até o Prado. Pagava 1 tostão cada. E esse preço foi mantido por quase 10 anos. Não havia inflação. Ou melhor, era menos de 1%.
O Jardim Leblon andava longo trecho dentro da areia e demorava menos de dez minutos para chegar ao hipódromo.
Os “tijucanos” mais pobres apanhavam na Rua Conde de Bonfim ou na Haddock Lobo, o Tijuca ou o Muda, dois bondes de muito cartaz. Saltavam na esquina da Rua da Assembleia e iam até a Galeria Cruzeiro ou ao Clube Naval. Alguns que vinham do subúrbio andaram perdidos pela Gávea, sem poder voltar.
O Salfate, o Sepúlveda, o Molina, o Canales, o Leighton, o Alfonso Silva e o Ulloa, todos chilenos, davam as cartas. Dos brasileiros, Reduzino de Freitas era o melhor. Depois veio o Rigoni e novos chilenos como Irigoyen, Diniz e Castillo. Plantel infinitamente superior ao atual.
Quando se começa a escrever tanto sobre coisas antigas, é sinal evidente de velhice. Mas juramos que, mesmo com todas as dificuldades, era tudo muito melhor do que hoje.
(*) Texto publicado originalmente na Revista JCB, na década de 1980, por Heitor de Lima e Silva, o Bolonha.
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