No Brasil, dezesseis mil pessoas no campo e nas cidades – em um país que clama desesperadamente pela criação de empregos – vivem do funcionamento do turfe. Este número supera o de algumas montadoras de veículos e os empregos diretos gerados pela Zona Franca de Manaus. E todo este conjunto depende da existência de haras no interior, de proprietários de cavalos nas cidades, e da evolução do volume de apostas nos Jockeys Clubs. Aliás, o único jogo permitido pela lei, além das loterias estatais.
Mas não é só emprego o que o turfe dá. No Rio de Janeiro, o Jockey mantém às suas expensas, desde 1950, uma escola pública municipal que atende hoje a mais de 400 crianças, principalmente do entorno mais pobre do hipódromo. Além da escola de profissionais – em tempo integral – onde são formados jóqueis e redeadores.
Enquanto se olhar com desdém para uma atividade econômica cuja característica é ser mão–de–obra intensiva – na França são 77.000 empregos diretos – ou se imaginar que apostas em corridas de cavalo constituem algo maligno em um país onde hoje se aposta em tudo, de bicho a futebol e pôquer, de forma clandestina; enquanto o turfe for satanizado pela maioria dos veículos de informação; ou formos desinformados a este nível para não perceber que as corridas constituem um pólo de expansão econômica, então, não há saída: vamos acabar com milhares de empregos. Dezesseis mil, para começar. Ou mais se considerarmos as atividades correlatas. Um desastre bíblico.
Mas isso não é o pior. O pior, é perceber que a existência do turfe está permanentemente ameaçada por um relacionamento equivocado com o poder público, que tende a vê–lo como concorrente de suas loterias. Não é assim que funciona em nações desenvolvidas, onde as duas atividades convivem e se complementam de forma harmônica.
Ou, talvez, parte do equívoco advenha do fato dos Jockeys Clubes acreditarem ser possível dialogar com o governo – e entre si – sem estarem reunidos sob um único ente nacional que os represente a todos e aos seus legítimos interesses. Na dúvida, façam o exercício: perguntem a um banqueiro o que ele acha de extinguir a Febraban, ou a um industrial de extinguir Fiesp e Firjan, ou a um trabalhador de acabar com seu sindicato. E aguardem a resposta.
Ou, talvez, a essência da culpa seja a falta do dever de cuidado dos Jockeys Clubs, que desviados de seu objeto social, insistem em gerenciar o turfe como parte de suas estruturas sócio–recreativas. Neste início de século, o turfe afluente do hemisfério norte é uma poderosa indústria, entendida e gerenciada como tal. Clube era em 1926, quando da inauguração do Jockey do Rio. Agora é indústria do turfe. O único nome pelo qual ela é reconhecida.
A continuar assim, sem representatividade à altura de sua importância econômica, gerido como clube, premido pela concorrência das loterias, e tendo que disputar o mercado informal de apostas com os jogos de azar praticados no país – todos eles carentes de qualquer regulamentação –, chegará o dia em que o turfe brasileiro desaparecerá.
E com ele, milhares de empregos no campo e na cidade, a formação dos profissionais da atividade e a criação do cavalo de corrida nacional. O rumo é de colisão. E há pouco tempo para mudá–lo.
Sergio Barcellos é vice–presidente do Jockey Club Brasileiro
Nota da redação: transcrito do jornal O Globo, seção "Opinião", pág. 23, 1º caderno, edição do sábado, dia 2 de agosto de 2014.