Há mais de 30 anos, participo ativamente da cobertura jornalística do turfe brasileiro. Nesse período, me acostumei com o sistemático favorecimento da elite na administração política dos hipódromos. Para as fardas de renome, tudo. Para os demais proprietários, nada. Esse modelo de gerenciar o esporte, sem qualquer tipo de comprometimento com o espírito democrático, afastou da atividade os investidores de médio e pequeno porte. Fardas de alguns turfistas de escol – mas de pouco poder aquisitivo – aos poucos desapareceram dos programas oficiais. Em outros casos, coudelarias ou stud formados pela união de vários amigos para dividir despesas, também fugiram da raia. E o motivo é muito simples: a injustiça, na maioria das decisões. Invariavelmente, a favor dos interesses dos poderosos.
Mas o que aconteceu hoje ultrapassou todos os limites de tudo o que eu já tinha visto. Depois de quatro dias de sol e céu de brigadeiro, a medida do penetrômetro, na pista de grama, foi de 4.8, às 9h30. O que isso significa? Apenas os três primeiros páreos e o último tiveram mudança de raia. Ou seja, os páreos com puros–sangues de pouca qualidade técnica, de animais de 5 e 6 anos, e o último páreo, com concorrentes de 4 anos sem vitória. Ora, amigos, ninguém é bobo. Bastava–se medir a pista umas duas horas mais tarde e teríamos os 4.7 que liberariam a raia para todos. Mas, infelizmente, no turfe brasileiro o sol não nasceu para todos. No inverno, a temperatura baixa da madrugada cobre de intenso orvalho toda a extensão da grama. Essa camada de umidade dissipa–se gradativamente, conforme o sol vai esquentando. Todos sabem disso, mas e os dirigentes do Jockey Club Brasileiro?
Os proprietários dos cavalos dos páreos com mudança de raia não pagam trato no final do mês? Esses mesmos proprietários não pagam o transporte dos puros–sangues dos centros de treinamento? E os medicamentos, a serragem das camas, os aluguéis de boxes ficam por conta de quem? Com certeza, não será o pobre do funcionário do penetrômetro que vai pagar. Ele apenas segue as instruções que recebe. Durante toda a história das corridas cariocas, a raia de grama sempre esteve liberada para cavalos de todas as idades. Ou então, interditada para todos, se estivesse molhada. Apenas os clássicos foram sempre uma justa exceção. Era assim nos tempos em que trabalhavam na repesagem o saudoso “Risadinha” ou o Izaltino. Apareceu um gaiato e resolveu qualificar os páreos. A ideia pegou. E aumentou a ditadura política e a desigualdade nas decisões.
por Paulo Gama