O Raia Leve entrevistou Mario Vitelli, manager do Haras Che Renda, estabelecimento que vem investindo bastante na criação de cavalos de corrida nos últimos anos.
1 – Mario nos fale um pouco de como entrou no turfe e sua atuação até os dias de hoje.
Minha entrada no turfe se iniciou em 1988, junto com meu pai, quando tínhamos um relacionamento comercial com o Jóquei Clube de São Paulo, e por acaso acabamos no tattersal em dia de leilão. Neste dia adquirimos 2 cavalos e escolhemos um treinador através da relação da revista "o coruja", optando pelo saudoso Alone Menegolo, pela origem italiana de seu sobrenome, já que é sabido que somos oriundos deste País.
Obviamente esta empreita desacerbada não deu certo, mas na mesma época a família Menegolo nos indicou um cavalo paranaense criado pelo Haras Fronteira, chamado Haiduck , e que acabou desenvolvendo campanha interessante, vencendo diversas corridas e se colocando inclusive em provas clássicas tanto em São Paulo quanto no Paraná.
Nos anos seguintes, através de meu pai, adquirimos mais de 30 potros.
Já no meu caso específico e individual, sempre dei sorte com os cavalos que adquiri, vencendo inclusive o GP General Couto de Magalhães com um cavalo presenteado pelos seus problemas físicos e seu caráter nervoso.
Para citar outros animais que mais venceram para mim, lembraria o Dez Quilates, From Top, Vidiz, Davignon e a égua Varuna, uma "monstrinha" de 540 kg em carreira.
Enfim, como proprietário pequeno que sempre fui, devo estar perto das 30 vitórias, resultado que considero muito bom pelos valores que investi.
2 – Mario, como foi o seu contato com os responsáveis pelo Haras Che Renda e em que consiste seu trabalho junto ao Haras?
Fui apresentado ao Marco Baraúna pelo recém–falecido Mario Souza (ex–jóquei), e de imediato tivemos uma empatia mútua.
Meu relacionamento com o "DON MARCO" é baseado em honestidade, transparência e principalmente na amizade.
Em 2010 o Marco solicitou que eu montasse um plantel de éguas matrizes para que o Haras Che Renda iniciasse sua criação dentro da raça PSI, considerando que já havia matrizes no Haras Che Renda provenientes do Haras Ponta Porã.
Acabei de maneira paciente e, sempre respeitando um "budget" pré–determinado, adquirindo cerca de 50 éguas no Brasil, na Argentina e nos EUA, orientado por conceitos genéticos comprovados e projetando cruzamentos vitoriosos através de estudos em sites internacionais especializados.
Basicamente sou responsável pela aquisição de matrizes no Haras Che Renda, assim como a renovação anual do plantel, determinação dos cruzamentos, aquisição de coberturas, sem nenhum envolvimento na administração física do haras. Ou como define melhor “Don Marco”... Sou o responsável por gastar!
3 – O Haras Che Renda ainda não aparece muito nos programas dos Jockeys Clubs. Fale um pouco do Haras Che Renda para nossos leitores e os objetivos de médio e longo prazo do mesmo.
A primeira geração criada no Haras Che Renda começou a estrear neste ano e é muito reduzida.
De antemão posso dizer que o Haras Che Renda não é uma atividade comercial, o que me parece óbvio se compararmos os custos de uma boa criação face aos valores das vendas dos produtos criados, fato provavelmente comum em 90% dos centros criatórios no Brasil.
Dito isto, a paixão do Marco pelos cavalos é o combustível que move o Haras Che Renda, e compartilho de sua filosofia no que se refere não apenas a criação de cavalos, mas como sua característica pessoal e profissional, que é: "SE É PARA FAZER, VAMOS FAZER BEM FEITO"!
O principal objetivo do Haras Che Renda, compartilhado por mim, é criar cavalos de corrida com excelência, podendo compartilhar todo este processo com os amigos que criamos dentro do turfe e trazer para este esporte fascinante pessoas que ainda desconhecem o prazer de ser proprietário de um PSI de corrida.
Acredito ainda que o principal diferencial do Haras Che Renda é justamente cultivar estas amizades, sem tratar turfistas e proprietários como clientes, mas pura e simplesmente como parceiros e amigos.
Como principal aspiração, temos a intenção de frequentar o "winner circle" o maior número de vezes possível com os crioulos do Haras Che Renda, compartilhando das alegrias com seus proprietários.
4 – Muito interessante a idéia de trazer pessoas externas ao mundo do turfe para conhecer nosso fascinante esporte. O Haras possui alguma estratégia para realizar esta ação?
Não se trata de uma estratégia comercial do haras, mas simplesmente a divulgação pessoal desta atividade entre os nossos conhecimentos externos ao turfe.
Importante frisar e salientar que, em qualquer projeto comercial e de marketing criado por qualquer hipódromo do Brasil e que o Haras Che Renda venha a ser convidado a participar, de uma maneira ou de outra, com certeza nos faremos presentes.
Particularmente, acredito ser esta a maior das falhas atuais do turfe nacional, ou seja, a falta total de divulgação e ações mercadológicas.
5 – Como é o Haras fisicamente e quantas Matrizes o Haras Che Renda possui hoje?
O Haras Che Renda conta atualmente com uma completa infraestrutura dentro dos 110 hectares dedicados a criação de cavalos, localizados em Ponta Porã – MS, reconhecidamente há anos como local de excelência no que se refere à criação de animais.
São 17 hectares que compõem um campo exclusivo para a produção de feno, exclusivamente para o consumo interno, 20 piquetes, sendo 4 para potros desmamados, 8 para éguas de cria e outros 8 para acompanhamento de éguas e potros pós–parto. Além disto, temos 2 centros completos de manejo, sendo um deles destinado aos potros e o outro apenas as éguas.
A estrutura conta atualmente com 40 baias, e outras 3 baias exclusivas para parição (maternidade), 1 laboratório completo para análises clínicas e exames, 1 centro de inspeção diária que conta com a presença de balança, ducha e brete, localizado ao lado do alojamento dos funcionários, completo e com capacidade para acomodar 8 profissionais. Ainda contamos com depósito para feno, alfafa, aveia e ração.
Em relação às matrizes, atualmente são 53, adquiridas nestes últimos 3 anos de seleção. Destas, posso destacar a múltipla ganhadora e clássica SPACECRAFT e irmãs inteiras ou maternas de cavalos consagrados como o campeoníssimo TOP HAT, além de TALUDO, ASKED THE QUEEN, INVICTUS, LE KINOPLEX, COQUETEL, NAMORADEIRA, HARD DRIVIN, ANBARI, MAR ABERTO, VENDEL, JOHN DOOL, OKHLAHOMA GIRL, LAURENCIANO, SUCK OUT QUEEN e etc...
6 – Este bom número de 53 matrizes é o número esperado para o Haras e a partir de agora o senhor se concentrará na renovação e melhoria do plantel ou o Haras pretende ter um número ainda maior de matrizes?
A dependência da continuação ou expansão do Haras Che Renda depende das condições que o turfe apresentará nos próximos anos, e me refiro a um curto espaço de tempo, pois atualmente nada mais se pode exigir dos proprietários dos cavalos de corrida, que são, sobretudo, verdadeiros apaixonados por este esporte.
Quanto ao plantel, atualmente a decisão do proprietário do haras é "lapidar" o número de éguas, sem grandes aquisições, e obviamente intencionado na melhoria constante do plantel.
7 – Em relação aos reprodutores, o Haras possui algum de sua propriedade? Como é a utilização dos reprodutores? Quais costuma utilizar? É cotista de algum?
Sim, temos 2 garanhões de propriedade exclusiva do haras.
Um deles, filho do fenômeno Blade Prospector, chamado RUMO AO DISCO, cavalo de físico impressionante e que encerrou campanha nas retas após problemas físicos, tendo vencido 6 provas, mantendo–se invicto, e "quebrando" 2 recordes nas pistas.
O outro, chamado CITADEL ROC, é um cavalo colocado em Grupo 1, único filho de ORPEN na criação nacional, e dono de uma linha baixa ímpar proveniente dos plantéis fora de série do Haras Santa Maria de Araras, seu criador.
Como informação e curiosidade aos leitores, CITADEL ROC foi amplamente elogiado por Tom Thornbury em sua recente visita ao Brasil, comparando o físico do mesmo, ao chefe de raça DANZIG.
Seus primeiros produtos irão nascer este ano, e sinceramente, deposito enorme confiança neste que "cá entre nós", é o meu predileto, o meu amuleto, o meu "mais querido".
Por fim, estamos trazendo o KODIAK KOWBOY, fato que até hoje eu custo a acreditar pelo fato de se tratar de um cavalo que foi líder "freshman sires" em 2013, fato inédito na criação Brasileira.
8 – Como começou a idéia de trazer o cavalo para o Brasil? Como foi possível viabilizar a vinda do mesmo?
Por mais difícil que possa parecer nós estávamos namorando o KODIAK KOWBOY desde 2011, quando seus primeiros produtos haviam acabado de nascer, mas não obtivemos sucesso em nossa primeira tentativa.
Finalmente, por mais um capricho do destino, a agência TBS, dos amigos Zuca e Eduardo Buffara interveio no início de 2013, e por contarem com grande respeito e conhecimento junto aos haras nos EUA, realizaram este verdadeiro sonho e desejo de poder trazer o "KK", cavalo que tenho certeza que marcará de maneira ímpar a criação brasileira.
9 – Por que o local de alojamento do cavalo foi modificado? Tivemos informação de que foram recebidos pedidos durante as festividades do G.P. Brasil. Poderia adiantar para nós estes pedidos? Como foi o contato com o Haras Bagé do Sul para alojá–lo?
É verdade.
A ideia era alojar o KODIAK KOWBOY no próprio Haras Che Renda, aonde já havíamos inclusive recebido mais de 25 éguas de amigos e parceiros para cobrirem com o mesmo.
Justamente durante as festividades do GP Brasil fomos procurados por diversos criadores, que nos pediram que o garanhão ficasse alojado em Bagé.
Quanto aos "requerentes", em breve efetuaremos uma ampla divulgação nomeando e agradecendo a cada um deles, então neste caso, peço um pouco de paciência.
O contato e acerto com o Haras Bagé do Sul foi efetuado diretamente entre o Marco Baraúna e Dr. Ulisses Carneiro.
Algo que gostaria de salientar é a satisfação que sentimos em ter um trabalho realizado sendo elogiado por diversos criadores e amigos, além de poder contar com o apoio do Dr. Ulisses e sua equipe em prol do sucesso do "KK". Aliás, o Dr. Ulisses é uma pessoa que nos fez entender de maneira muito simples e objetiva o motivo de seu sucesso.
10 – O Raia Leve já fez matéria mostrando as qualidades deste reprodutor mas de uma maneira geral, qual é a expectativa em torno do mesmo? Que tipo de matrizes até o momento estão confirmadas para serem cobertas por ele?
A raça do KODIAK KOWBOY não é de maneira nenhuma exclusiva para velocidade, pois as características marcantes de sua linha paterna são justamente a versatilidade e a capacidade de transmitir histamina. Os seus irmãos, também filhos de POSSE, faturaram mais de US$ 40 milhões em hipódromos espalhados pelo mundo, em distâncias que variaram de 800m a 2.400m.
O "KK" cobrirá no Brasil matrizes das mais variadas linhagens, o que nos faz acreditar, ou mais do que isto, nos dá a certeza de que produzirá animais de extrema qualidade nas mais variadas distâncias e raias.
Não podemos nos esquecer que o turfe americano, querendo ou não, se sobressai ao nosso justamente em provas direcionadas a velocidade, e que suas matrizes, também querendo ou não, possuem características físicas e genéticas que visam a velocidade.
Quem diria que Put it Back produziria um tríplice coroado? E este fato só poderia ser possível tendo justamente um garanhão excepcional como Put It Back, nobre transmissor de histamina, alinhado a matrizes de origem Francesa, Inglesa e/ou Irlandesa de primeira categoria, como felizmente os principais haras do Brasil se prontificaram a trazer desde a década de 60.
11 – O Haras Che Renda possui algum plano de continuar trabalhando com animais em Shuttle nos próximos anos? Se positivo, qual tipo de animal está nos planos?
Após este sucesso na procura do Kodiak Kowboy, com certeza o projeto de trazermos outro garanhão se tornará realidade, sabendo que o nosso contrato de "Shuttling" com o ""KK" se estende até 2016.
Temos alguns nomes em mente, mas ainda não podemos adiantar nenhuma informação, já que sequer nos reunimos com os nossos amigos e parceiros Zuca e Eduardo, além de nos preocuparmos em satisfazer a expectativa de todos os criadores que compartilharão desta nova empreita.
12 – O Haras Che Renda pretende se especializar em criar velocistas? Por que?
Nós queremos "apenas" nos especializar em criar com excelência, independentemente das características dos cruzamentos efetuados.
Temos amigos e parceiros que preferem provas de velocidade, muitos outros as provas mais alentadas.
Posso dizer que acreditarei sempre em garanhões de potencial histamínico, e nesta mesma condição, capacidade de transmitir esta característica aos seus descendentes.
13 – Há algum recado que o senhor queira deixar aos leitores do Raia Leve?
Primeiramente eu tenho que parabenizar a todos os Haras do Brasil pela qualidade da criação nacional, que só demonstra que ainda existe muito amor pelo PSI.
Não é tempo de procurar culpados pela atual situação do turfe nacional ou regressar fatos. É tempo de trabalhar, de buscar soluções e de nos unirmos em prol do turfe e dos cavalos que tanto nos inspiram.
da Redação