Conheci a joqueta Lu Andrade, 23 anos, gaúcha de Carazinho, no Rio Grande do Sul há apenas dois meses. Anteriormente, já tinha visto seu desempenho no Hipódromo do Cristal, em Porto Alegre, na ocasião em que venceu o 1º Torneio Internacional de Joquetas. No ano seguinte, repetiu o feito e pareceu–me mais amadurecida e confiante no dorso dos cavalos. A transferência para o turfe carioca lhe fez bem. Apesar de não ter chegado ao tricampeonato do torneio, Lu montou com muito desembaraço.
Voz baixa e temperamento tímido, ela me chamou atenção pela incansável vocação para o trabalho. “É sempre a primeira a chegar à raia e a última a sair”, assegurou–me o treinador Mauro Teixeira da Costa. “A menina é muito trabalhadora e não foge de cavalo bravo”, enfatizou Antônio Ricardo Silva. “A garota trabalha duro, mas sempre evito chamá–la para treinar meus cavalos porque sei da dificuldade de convencer os proprietários a dar–lhe montarias. O José Lírio é exceção. Pediu–me para dar algumas chances a ela”, afirmou o experiente Alcides Morales.
A situação de Lu Andrade me fez lembrar um momento por mim vivido no período em que Acedenir Gulart (A.Gulart) passou de aprendiz a jóquei. Aconselhado por Jorge Ricardo, recusei convites de vários pilotos de renome para trabalhar como agente de montarias do Gulart. Decidi tentar a sorte com o jovem promissor recém–saído da Escola de Aprendizes. O argumento de Ricardinho era que o garoto trabalhava mais do que qualquer piloto, inclusive ele próprio. A experiência foi fascinante e Gulart conseguiu terminar a estatística em segundo lugar, superado apenas pelo próprio Ricardinho, que era imbatível. Naquela ocasião, Gulart fechou contrato com a Fazenda Mondesir e passou a ter preferência dos puros–sangues do Stud Raça. Tudo isso lhe proporcionou ascensão meteórica, ainda no início da carreira.
Existe, entretanto, uma diferença significativa entre os dois projetos de trabalho, que é o grande preconceito, no meio turfístico carioca, com relação às mulheres. As mesmas portas que se abriram de forma escancarada para Gulart parecem estar sempre fechadas para Lu Andrade. Ou, na melhor das hipóteses, entreabertas. Na última semana, por exemplo, o treinador Mauro Andrade, um dos que mais prestigiam a joqueta, quis lhe dar uma montaria. O proprietário ponderou que se tratava de um cavalo pesado e que seria melhor colocar um homem. Mauro aceitou o argumento, mesmo sem concordar. “Não posso contrariar os meus proprietários. Afinal, são eles que pagam o trato no fim do mês. Mas para mim não tem essa história. O que existe são cavalos que correm e outros que não correm nada. E os jóqueis bons são aqueles que montam os primeiros”, filosofou.
Lu Andrade mora sozinha no Rio de Janeiro, pois seu pai, o ex–treinador da cancha reta, Garci Andrade, é falecido, e a mãe, Lúcia, mora em Carazinho, interior do Rio Grande do Sul. A joqueta trabalha na raia carioca todos os dias da semana. Nas quartas–feiras, vai ao Centro de Treinamento Bela Vista, em Teresópolis, para exercitar cavalos treinados por José Antônio Lopes, José Luís Pedrosa Júnior e Manoel Renato Lopes. Trata–se de uma raia perigosa, com volta um total de 600 metros e curvas bem fechadas, que a maioria dos seus colegas homens, com H nem sempre tão maiúsculos assim, procura evitar.
Alguns amigos e admiradores de Lu Andrade me pediram para tentar ajudá–la a obter mais e melhores montarias. Vagner Borges, com quem trabalho, não se incomodou. Pelo contrário. Incentivou–me a tentar ajudar sua conterrânea. Não sei bem como será trabalhar com dois jóqueis com perspectivas tão diferentes. Tive uma única experiência há mais de 15 anos com Marcello Cardoso e Marcelo Almeida, de forma simultânea. Entretanto, acredito nas pessoas, principalmente naquelas que são perseverantes e gostam de trabalhar. Lu Andrade tem o direito de sonhar. Como todo jóquei, sonha com bons cavalos e provas importantes. Tem bom potencial e ótimo caráter. Espero que treinadores e proprietários também acreditem nela. Eu acredito. Josiane Gulart não conseguiu vencer o preconceito, em sua passagem pelo turfe carioca, mas rompeu todas as barreiras em São Paulo e hoje é a segunda do ranking de Cidade Jardim. Por isso, Lu Andrade também pode sonhar com dias melhores.
por Paulo Gama