Em 18 de fevereiro de 2011, nascia na Califórnia um cavalo que não era normal. Era California Chrome, inicialmente apelidado de “Junior”. Para começar sua história, seu nome foi decidido aleatoriamente pela garçonete de um restaurante, quando seus proprietários e criadores, Perry e Denise Martin, da Califórnia, e Steve e Carolyn Coburn, de Nevada, listaram uma série de nomes possíveis escritos em pedaços de papel dentro de um chapéu e entregaram à garçonete para que tirasse um. O nome Chrome é proveniente das marcas brancas que o cavalo possui já que nos EUA os cavalos com chamativas manchas brancas assim são conhecidos.
Interessei–me pela história do potro primeiramente quando vi suas vitórias, em minha opinião, incontestáveis e avassaladoras no Kentucky Derby e no Preakness Stakes, nesta última num páreo que transcorreu totalmente diferente do que se esperava. O animal teve de se esforçar mais cedo e, mesmo assim, aparou com firmeza a atropelada do temível adversário Ride On Curlin. Quando entrei mais a fundo na história do animal, deparei–me com outro fato absolutamente apaixonante para os amantes do esporte: o de que o mesmo pertence e foi criado por pequenos proprietários que perseguiram, com as devidas limitações financeiras, o sonho de tirar um animal de exceção de uma égua aparentemente (aos olhos da maioria) comum. Além disso, a evolução do animal, totalmente oposta ao normalmente encontrado nos potros americanos (chegam ao Kentucky Derby praticamente encerrando a campanha) também me impressionou. Quanto mais nos aprofundamos na história de California Chrome, mais sua história se torna fascinante. A certeza que seu proprietário Steve Coburn sempre teve em sua Tríplice Coroa torna–se até chocante, passando, inclusive, por coincidências de datas, com uma irmã morta de câncer e sonhos.
Como disse anteriormente, os criadores e proprietários de California Chrome (no twitter @CalChrome) são pessoas comuns. Perry e Denise Martin operam um pequeno laboratório de testes que avalia a confiabilidade de novos materiais e tecnologias de produtos como os air bags e produtos médicos, sendo Denise a química sênior do laboratório. O falante e animado Steve Coburn é operador de máquina de uma indústria que fabrica fitas magnéticas e sua esposa Carolyn, aposentada desde março de 2014, trabalhou durante toda sua carreira no departamento pessoal de uma indústria ligada à saúde.
Proprietários e criadores de California Chrome
Os dois casais possuíam 5% de uma sociedade de proprietários de cavalos chamada “The blinkers on Racing Stable”, sociedade que adquiriu Love the Chase, mãe de California Chrome, ainda yerling, por USD 30 mil. A sociedade se dissolveu e, ao verem Love the Chase inscrita em um maiden claiming por apenas USD 8 mil, os dois casais queriam comprar a égua para si, pois apesar de a mesma já ter corrido três vezes sem sucesso, ambos continuavam acreditando que a potranca era boa. Diante disso, os dois resolveram iniciar a parceria a qual chamaram de DAP racing porque quando resolveram comprar a potranca no claiming, aquela mesmo que viria a ser a mãe de California Chrome (seu primeiro produto parido), um funcionário falou que somente um “Dumb Ass” (expressão americana que significa imbecil) poderia entrar nesse negócio com um animal daqueles. Diante daquele comentário que o tempo se encarregou de mostrar errôneo, os novos parceiros resolveram criar a Dumb Ass Partners Racing, ou DAP Racing cuja farda possui, inclusive, a imagem de um burro na parte de trás e as iniciais da coudelaria (DAP) na parte de frente, uma bela homenagem ao personagem inspirador da coudelaria.

Após a compra, Love the Chase correu mais duas vezes sem sucesso e, no início de 2009, acreditando que poderia ser uma boa reprodutora, os novos parceiros a enviaram para a reprodução na Harris Farm, mesmo criador do craque Tiznow. A explicação para a fraca campanha viria logo após a aposentadoria de Love the Chase, com a descoberta de problemas respiratórios que, contudo, não colocavam em risco suas chances como reprodutora, uma vez que não eram hereditários.
Uma curiosidade interessante para os brasileiros é que há uma ligação entre a existência de California Chrome e um puro–sangue brasileiro. No primeiro ano como reprodutora, ou seja, em 2009, a mesma ficou vazia após ser coberta pelo brasileiro Redattore. Os parceiros Martin e Coburn queriam repetir o cruzamento em 2010, mas como Redattore havia sido trazido para o Brasil, resolveram dar uma chance a um filho de Pulpit que havia corrido 22 vezes, com três vitórias, cinco segundos lugares e cinco terceiros. Apesar de ser ganhador de um Stakes e de ter obtido algumas boas colocações – como um segundo em prova de Grupo II e um terceiro em prova de Grupo III, além de outras em Stakes, totalizando pouco mais de USD 200 mil em prêmios –, Lucky Pulpit, cuja cobertura custou USD 2 mil, estava longe de ser uma boa opção como garanhão, pela campanha. Contudo, dentro das possibilidades, foi escolhido, pela raça, como garanhão para cobrir Love the Chase naquele que seria o cruzamento que originaria o melhor produto de 3 anos da geração 2011 em todo os EUA.
California Chrome, como já mencionado, é descendente de dois animais com campanhas comuns e em distâncias curtas. No entanto, ambos são descendentes de animais de exceção, com presença de estamina em seu pedigree. No pedigree de California Chrome pode–se destacar, pela linha alta, a presença de AP Indy (consequentemente, Seattle Slew e Secretariat) e Caro, com muitas entradas de Bold Ruler. Pela linha baixa, há muito o que falar. “A tal” Love the Chase é descendente de um filho de Mr. Prospector em mãe Northern Dancer, em égua por Polish Numbers, portanto, descendente de Danzig. Entretanto, a provável explicação para a qualidade de seu ventre vem da mistura acima citada (relativamente comum nos EUA) com sua segunda mãe (portanto, terceira mãe de California Chrome) Chase the Dream, simplesmente filha do ganhador do Derby de Epsom Sir Ivor em La Belle Fleur, uma égua da família 21, filha de Vaguely Noble (ganhador do Arco do Triunfo) em filha de Ribot. Várias entradas de Princequillo, animal marcado por sua estamina, são observadas no pedigree, tanto de Love the Chase quanto de Lucky Pulpit. Apesar de tal fato ocorrer em gerações longínquas, podem ter trazido para California Chrome o fôlego necessário para abordar os 2.400 metros do Belmont Stakes.
Tudo isto somado aos poucos e bons inbreedings de 3 x 4 em Mr. Prospector (apesar de não estarem na mesma linha) e 4 x 5 em Northern Dancer, formam o pedigree sui generis de California Chrome, que se completa com chave de ouro ao notarmos que sua mãe, Love the Chase, apresenta um Rasmussen Factor em Numbered Account, filha de Buckpasser, cujo pedigree aponta para a maravilhosa La Troienne e War Admiral e é avó de Swaps, ainda estando presente em outro ganhador do Kentucky Derby, Super Saver.
O potro nasceu grande, com aproximadamente 62 quilos, o que chegou a causar uma laceração uterina em Love the Chase, obrigando–a a ficar aproximadamente um mês em tratamento, o que acabou deixando California Chrome mais afeito ao contato humano, diante das constantes intervenções à dupla.

California Chrome quando potro
Quando atingiu a idade de iniciar treinamento, os proprietários queriam um treinador que pudesse dedicar tempo ao seu futuro craque, pois nunca duvidaram da capacidade do bonito potro. Diante disso, ele foi enviado a Art Sherman, veterano treinador com reputação de paciente com potros em sua cocheira para 15 animais, o que permitiria a atenção que o futuro craque merecia.
Desde o início, California Chrome mostrou que seus donos estavam certos em confiarem em seu potencial, mas o segundo lugar na estreia e a vitória no perdedor, na segunda corrida, aconteceram em provas fortes, além de uma vitória em prova de Listed Race, reservada a animais nascidos na Califórnia, mas longe do nível esperado, que por um feliz presente do destino, foi atingido posteriormente. Sherman acreditava que o animal iria se desenvolver já que se mostrava ainda “bobo”, ou como o próprio Sherman dizia, California Chrome estava crescendo e aprendendo a ser um cavalo de corridas.
Coincidência ou não, na sua sétima corrida, no dia 22 de dezembro de 2013, então com duas vitórias apenas, o destino de California Chrome cruzou com o do jóquei Victor Espinoza. Naquele dia, em um Listed Race em Hollywood Park, California Chrome já se mostrou diferente. Ganhou a prova por mais de seis corpos, com facilidade impressionante. Daí para frente, foram simplesmente mais cinco carreiras, incluindo a do último sábado, todas transformadas em vitória, subindo a escada correndo mais um Listed, um Grupo II e depois os três Grupos I seguidos (Santa Anita Derby, Kentucky Derby e Preakness Stakes), todos de maneira muito convincente e firme, resultando em uma campanha, até o momento, de 12 saídas, oito vitórias e o segundo lugar da estreia. Se a campanha foi resultado do casamento com Espinoza, da evolução natural do animal, da paciência inicial de seu treinador ou mesmo de todos estes fatores somados, provavelmente nunca saberemos, pois antes mesmo do Santa Anita Derby seus donos recusaram uma proposta de USD 6 milhões por 51% do animal, o que representaria uma mudança, tanto de treinamento quanto de jóquei. Fato é que, com a recusa, ou seja, com o prosseguimento do trabalho, o animal tornou–se um grande milionário do turfe com quase USD 3,5 milhões em somas ganhas até o momento.

California Chrome em ação
Sherman, como todo grande, minimiza sua participação na campanha do cavalo, dizendo que California Chrome é uma estrela do Rock californiano e que ele é apenas seu empresário e já prepara o craque para disputar o Belmont Stakes. Ele, que é baseado em Los Alamitos, ainda acrescenta que o cavalo sabe que é uma estrela, diz que o animal posa para as fotos e ama o barulho das máquinas fotográficas.

California Chrome em treinamento
No domingo, dia 18 de maio, um dia após a vitória no Preakness, California Chrome não apresentava nenhum problema e a polêmica sobre sua participação no Belmont Stakes iniciou–se. Segundo Sherman, California Chrome poderia não correr o Belmont Stakes caso a NYRA (New York Racing Association) não autorizasse o animal a correr com o nosso conhecido adesivo nasal, que é proibido por lá. O agilmente apelidado pela mídia como “Nasalgate”, acabou tão rápido quanto a velocidade de California Chrome, pois Art Sherman colocou no próprio domingo, dia 18 de maio, um pedido formal para a utilização do adesivo e, logo no dia seguinte, segunda–feira, 19 de maio, a NYRA respondeu positivamente, confirmando a possibilidade de utilização do dispositivo para todos os cavalos e garantindo, por hora, o sonho de ver um tríplice coroado em suas pistas.

Adesivo nasal em California Chrome
É claro que todos sabem que o Belmont será a etapa mais difícil. Há animais que estão sendo preparados diretamente para essa prova há tempos. Os principais adversários no Kentucky Derby, incluindo o segundo colocado, abriram mão de disputar o Preakness para uma adequada preparação para o Belmont e os 500 metros a mais podem ser fatais para o californiano das manchas brancas. Mas que nunca se duvide do craque, do acima da média. Para um potro californiano, criado por uma coudelaria que possui apenas uma égua, filho de dois animais inexpressivos em campanha, que teoricamente valeria uma miséria nos famosos leilões de Keeneland nos quais alguns dos seus hoje sparrings e vítimas nas carreiras foram vendidos por verdadeiras fortunas, acho que agora chegou a parte mais fácil.
Como curiosidade, quando California Chrome tornou–se forte candidato ao Kentucky Derby, ou seja, antes mesmo de vencê–lo, os “Dumb Ass Partners” recusaram uma oferta de USD 2,1 milhões por sua mãe, Love the Chase, aquela mesma adquirida em um claiming e que não servia para se iniciar uma criação.

California Chrome aguardando seus adversários no Belmont Stakes
Arthur Stern