Durante 19 anos, dividi o espaço da redação do Jornal do Brasil com figuras lendárias do jornalismo nacional. Às vezes, ficava até um pouco inibido com a presença de tantas estrelas e renomados escribas. Na editoria de Esportes havia Sandro Moreira, Oldemário Touguinhó, João Máximo, Vicente Sena, João Areosa, Sérgio Rodrigues, Mair Pena Neto, Eloir Maciel, Paulo César Vasconcelos e tantos outros. João Saldanha, entretanto, era o mais carismático, polêmico e desconcertante. O convívio com ele foi espetacular. Em primeiro lugar, porque ele adorava o turfe. Fazia questão de repetir sempre a mesma história de que a única Copa do Mundo em que não esteve presente foi por causa de uma corrida de cancha reta, no interior do Rio Grande do Sul. Até hoje sinto saudade dos casos curiosos contados por ele. Alguns mais pareciam piadas, outros eram histórias exageradas com mentiras absurdas e deslavadas. Todas elas tinham em comum o fato de serem absolutamente impagáveis.
O Pick7 da última segunda–feira me fez lembrar uma das histórias preferidas do João Saldanha. E apesar de tê–la ouvido dezenas de vezes, sempre que ele me perguntava se já tinha contado o encontro do turfista com o Diabo, eu dizia que não. Era delicioso poder ouvir tudo de novo e dar boas gargalhadas. A história era essa: “Um turfista estava sentado num banco da praça e lamentava, em voz alta, a sua má sorte na vida por causa das corridas de cavalo. Eu sou um infeliz, um desgraçado! Perdi todo o dinheiro do aluguel e também o das compras do mercado. Não consigo acertar um páreo sequer”, blasfemava. O diabo, então passou perto dele e sussurrou–lhe ao pé do ouvido. “Se você me vender a sua alma, eu lhe dou o jornal do dia seguinte com o resultado completo das corridas de hoje”, disparou com sua voz suave e sedutora. O turfista não pensou duas vezes. “Está feito o pacto. Você me dá o jornal e depois de eu morrer, minha alma é sua. Afinal, eu não vou precisar dela para nada mesmo”, ponderou. O trato foi feito e o turfista foi para o hipódromo com o jornal na mão.
No dia seguinte, no mesmo banco da praça lá estava o turfista, aos prantos e com a mesma lamúria e lamentação. “Não adianta. Eu não nasci para esse jogo. Levei uma tremenda bola no último páreo”, dizia amargurado. O diabo, que passava por ali novamente, ficou surpreso com aquele cenário. “Mas como é que você pode ter errado se eu lhe dei o jornal com o resultado completo e até com os rateios?” perguntou intrigado, ao que o turfista respondeu: “Apostei em todos os resultados publicados pelo jornal, mas o cavalo do último páreo vinha de dois últimos e eu achei que você estava me derrubando. Então, decidi apostar todo o meu lucro no favorito”, revelou, diante de um diabo estupefato.
O apostador do agente credenciado da Rua Raimundo Correa, em Copacabana, na última segunda–feira, foi mais precavido. Depois de ter vendido sua alma ao diabo e, provavelmente, por já ter lido a crônica do João Saldanha ou ouvido falar dela, colocou todos os concorrentes ao último páreo. E nem precisava, pois ganhou o favorito, como estava escrito no jornal do dia seguinte.
Afinal, o diabo leva muito a sério esse negócio de pacto.
por Paulo Gama