Como é de conhecimento geral, Luis Felipe Brandão dos Santos, Titular do Stud Eternamente Rio, e que também foi por dois mandatos consecutivos (2004 a 2008) Presidente da ACPCPSI – Associação Carioca dos Proprietários do Cavalo Puro Sangue inglês, publicou em 01/04/2014 , uma matéria que o Raia Leve destacou em sua capa sob o título: “Turfe Brasileiro aos 48 minutos do segundo tempo”.
A matéria, face seu realismo, sua clareza e tristeza, teve ampla repercussão no meio turfístico, levando o Presidente do JCB, Carlos Palermo a se reunir com Luis Felipe. Como é do seu feitio, o titular do Stud Eternamente Rio, postou no espaço do Leitor o teor da reunião que teve com o Presidente do JCB. O tema Pedra única, como era de se esperar, tomou grande parte das discussões, conforme se observa no relato transcrito abaixo por Luis Felipe acerca do encontro.
A Diretoria da ACPCPSI entendeu que os assuntos envolvidos são de suma importância para a atividade, resolvendo transcrever o texto na capa do Raia Leve.
Leia, na íntegra, o texto de Luis Felipe Brandão dos Santos:
Amigos,
O Raia Leve publicou na última terça, texto em que descrevi minha desesperança com o futuro do nosso turfe.
De modo algum esperava que que minha apreensão ali descrita tivesse tamanha repercussão: as mensagens postadas no Espaço do Leitor do site e o telefonemas recebidos me emocionaram. Cumpre agradecer a todos, pois me permitiram perceber que nossa comunidade ainda respira, mesmo diante de tantas e sucessivas decepções. Cada mensagem causou em mim um tipo de alegria. Gostaria de registrar, especialmente, as postadas pelo meu querido amigo de tantos e tantos anos, Arthur Oscar Teixeira de Freitas, pai do brilhante Arthur Stern, e as do Alessandro Arcangeli, incansável batalhador na busca de um turfe brasileiro renovado e forte.
Dentre as mensagens que recebi, verifiquei na caixa de correio do meu celular, um delicado e perspicaz convite do presidente do JCB, Carlos Palermo, me convidando "aos 49 do segundo tempo, para um encontro pessoal". De pronto, liguei para ele agradecendo o convite e já na quinta feira passada realizamos o encontro.
Fui recebido pelo presidente de forma cortês e aberta à discussão das críticas que formulara. O clima da reunião, que durou mais de duas horas e meia, propiciou estabelecermos uma conversa construtiva. Reconheço que muitas vezes minha impaciência com a demora na implantação de medidas que saltam aos olhos por óbvias que me parecem, me fazem ser um crítico demasiadamente ácido, o que já me fez perder amizades das quais jamais pensaria abrir mão. Por ser insistente demais reconheço que algumas(ou muitas) vezes me torno impertinente, mas sei que essa postura visa, exclusivamente, o bem comum, a reversão do quadro de decadência em que o turfe brasileiro está mergulhado.
Voltando à reunião com o Presidente Palermo, gostaria de repassar aos leitores do Raia Leve as questões por mim colocadas e o posicionamento do clube quanto a elas.
Fui direto ao problema da Pedra Única. Mencionei o diagnóstico e as recomendações do Projeto Turfe Forte, melhor trabalho jamais feito acerca do turfe brasileiro, lá se vão cerca de 5 anos. Foquei na imprescindível e inadiável necessidade do aumento do MGA, sem o qual qualquer processo de recuperação dos aviltados prêmios pagos seria temeroso diante das condições financeiras dos clubes. Citei que com as apostas fragmentadas nas pedras do Rio e de São Paulo, ambas em declínio há anos, os apostadores de maior "poder de fogo" não podem apostar o montante que gostariam, sob pena de "derrubarem" fortemente os rateios de suas apostas. Dei exemplos de amigos meus, pessoas que ele também conhece e com as quais poderia confirmar o que que estava dizendo, que muitas vezes, ou quase sempre, apostariam muito mais caso o volume geral de apostas permitisse.
O presidente do JCB mostrou–me então cartas datadas de 9 de dezembro de 2013 aos presidentes do JCSP e do JCRGS encaminhando o assunto, inclusive apresentando um primeiro orçamento, proposto pela empresa que fornece serviços de informática ao JCB para que se tivesse uma idéia preliminar que fosse dos custos envolvidos. Infelizmente, até o momento em que transcorreu nossa reunião, em 3 de abril de 2014, nenhum dos dois presidentes lhe enviara resposta, quer por carta, quer por um simples contato telefônico. Assim, deve ficar claro para todos nós que se a Pedra Única não sai não é por culpa da diretoria do JCB. Como nesse mesmo dia 3 de abril o presidente do JCRGS, José Vecchio Filho, em postagem no Espaço do Leitor do Raia Leve, respondendo a outro grande batalhador pela retomada de nossa atividade, Luiz Fernando Dannemann, afirma " que a Pedra Única vai sair se depender do JCB e do JCSP", pois o clube que preside a defende, resta–nos convencer, de um jeito ou de outro a diretoria do JCSP quanto aos benefícios e urgência da medida.
Sugeri que essa espera pela posição do JCSP não pode durar eternamente e que, enquanto ela não fosse tomada, fosse suspenso IMEDIATAMENTE o simulcasting com esse coirmão. Pelo que entendi essa colocação já foi feita, sem o sucesso esperado, apenas tendo como resposta que tal providência quebraria o clube em um mês. Diante dessa informação, procurei enfatizar o poder de barganha que o JCB tem para impor algo que não é fruto do desejo ou opinião de "a","b" ou "c", mas sim recomendação clara do Projeto Turfe Forte, do qual, inclusive, o presidente do JCSP se declara um dos pais. O beneficiário da medida, igualmente, não é exclusivamente, o JCB, mas todos os coirmãos e todos os envolvidos na atividade, desde criadores, proprietários, profissionais e apostadores. A negligência, a falta de empenho ou lá o nome que se dê à (não) atuação de uma entidade não pode continuar indefinidamente, prejudicando a tantos outros interessados. Será que a diretoria do JCSP não percebe que com a Pedra Única todos ganham, inclusive o JCSP, e ninguém perde? Esse é um típico exemplo de ganha–ganha. Caso haja na diretoria do JCSP quem não consiga acreditar nisso, seria o caso de contratarem a DREXTON, que elaborou o Turfe Forte, para em poucos minutos de consultoria sanar as dúvidas dos incrédulos.
Lembrei ao presidente do JCB que a ABCPCC, na gestão do Dr. Afonso Burlamaqui, estivera a ponto de conseguir a implantação da Pedra Única via Ministério da Agricultura, posto que o governo federal iria proibir o simulcasting na forma com que vem sendo operado. Infelizmente na gestão atual, presidida pelo estimado amigo Dr. Sergio Coutinho Nogueira essa pressão via governo federal deixara de existir.
Enfim, insisti para que se desse um prazo para que os coirmãos aderissem formalmente à Pedra Única, findo o qual o sinal da gávea não seria transmitido para os que não se juntassem à Pedra Única. Azar que, em um primeiro momento, se fosse para o indesejável "perde–perde", mas na medida que ele se impõe como imprescindível para adiante termos a solução que se impõe para termos a recuperação do MGA que o adotássemos.
Propus que, talvez custeado pelos mesmos proprietários e criadores que bancaram o Projeto Turfe Forte, a Drexton, que o elaborou, fosse agora contratada para conduzir a implantação da Pedra Única, é claro após a manifestação formal de todos os coirmãos em aceitá–la. Medidas óbvias e prévias ,como a unificação das retiradas nas diferentes modalidades de apostas e das bonificações nas acumuladas nas diversas modalidades existentes, poderiam ser tomadas de pronto, por serem imprescindíveis à implantação da Pedra Única. Na verdade, são absolutamente inexplicáveis as tamanhas diferenças que hoje se vê no modelo atual onde retiradas e bonificações têm imensas diferenças.
Em seguida ao tema Pedra Única, passamos ao da redução real dos prêmios na Gávea nos últimos dois anos, exatamente no período em que o clube vem sendo comandado por uma diretoria dita de turfistas. Demonstrei minha perplexidade de que contra uma inflação de 12,1%,os prêmios foram aumentados em 9,3%,isso sem falar que as mensalidades sociais foram acrescidas em 53,0%.Mesmo em 2012,sem o efeito da taxa de obras instaurada em 2013,o aumento da mensalidade foi de 7,7%,enquanto o dos prêmios de 4,0%.Lembrei que estamos `as vésperas do início da temporada de leilões de potros e que a atual relação prêmio–trato, a pior de nossa história, e provavelmente a mais baixa ou segunda mais baixa do mundo tomados por base dados do Projeto Turfe Forte, desestimula compradores e, o que é fatal e incontestável, criadores.
Lembrei que por conta de um acordo político do grupo ao qual pertencia e após uma reunião da qual participaram, dentre outros, os Drs. Afonso Burlamaqui, Claudio Ramos ,Antonio Carlos Coelho, Luiz Edmundo Barbosa, dentre outros. Fomos incumbidos pelo grupo, o Dr. Luiz Edmundo e eu, a termos uma reunião com o então presidente do JCB, Luiz Eduardo da Costa Carvalho, no sentido de obtermos dele três compromissos: que o aumento dos prêmios acompanhasse exatamente o percentual da variação das mensalidades sociais; que a raia interna de areia e a "diagonal" fossem reparadas e colocadas em uso o quanto antes, e que se procedesse a auditoria dos MGA’s apresentados ao clube pela CODERE.
No mesmo dia da citada reunião, o site do JCB colocou no ar tais entendimentos, que foram cumpridos, exceto, infeliz e inexplicavelmente, o relativo a auditoria do MGA da CODERE. Sabe–se lá o por quê ,mas essa auditoria, passados dois anos com o clube sob o comando de pessoas que tanto a desejavam, continua sem ser realizada. Mas no que diz respeito ao aumento dos prêmios, o presidente Luiz Eduardo cumpriu o que combinara, antes e além do que prometera. Com isso, em um mandato de uma diretoria que considerávamos avessa ao turfe, obtivemos discreto alívio na imensa defasagem dos prêmios, algo irrecuperável quando nos lembramos que ficamos por 10 anos e meio com os prêmios congelados. Perguntado pelo presidente do clube se eu estava pleiteando aumento de prêmios, informei que não, mas apenas que voltássemos a ter reajustes iguais aos da mensalidade social, excluída a parte da taxa de obras. O presidente Palermo informou que temos um problema para reajustar a premiação dos páreos de potros, que serve de base para as dotações de todas as provas clássicas, que no ponto de vista dele, com o qual o qual concordei ,tem um número exagerado de páreos.
Embora tenha demostrado surpresa com a queda real nos prêmios ocorrida nos últimos dois anos, o presidente do JCB ,informou que algumas ações de sua diretoria em prol do turfe não vêm merecendo o devido reconhecimento. Citou a reforma da pista de areia, que vem sendo conduzida sob a orientação de renomado consultor internacional. Esse projeto visa proteger os animais de lesões e evitar que a pista em muitas ocasiões dê vantagem, certos dias, aos animais que correm por dentro, e em outros, a animais que correm por fora, isso em função dos ventos ou da chuva. Citou também os avanços na tratativa com o PMU, os quais estávamos a par através de relato feito pelo diretor de marketing, Dr. Sergio Barcellos. Informei ao presidente que todos estávamos na torcida que os entendimentos com o PMU chegassem a bom termo e que a CODERE passasse a receber o tratamento que merece, se possível com a rescisão antecipada do obscuro, desde a sua origem, contrato em vigor.
Narrou tb outras melhorias que estão sendo feitas no entorno do hipódromo, desde o estacionamento, até a instalação de novos restaurantes junto a Rua Jardim Botânico, incluindo a recuperação de casas em situação de ruína ali construídas que darão lugar a três galerias de arte, além da remodelação do espaço existente sob as Tribunas B e C ,o que no entender dele poderá trazer um novo público para as carreiras. Alertei que, certamente, o clube agregará receitas, mas não tinha a mesma certeza de que elas serão utilizadas ou mesmo contabilizadas em prol da atividade hípica. Ele me assegurou que sim.
Ainda foram abordados os seguintes itens:
– Sugestão de ,por um período de tempo, se dar um desconto de 50 % nas punições pecuniárias aos profissionais, o que de forma alguma isso signifique que estejamos contra as penalidades impostas a todos que inflijam a lisura das carreiras. Ocorre que a situação financeira da grande maioria dos profissionais do turfe é incompatível com o valor das multas que lhes vem sendo aplicadas. O presidente ouviu a sugestão e espero que a leve ao conhecimento da sua Comissão de Corridas.
– Instalação de consultório odontológico em local já definido, de forma a atender os profissionais do turfe e seus dependentes, os alunos da escola pública custeada pelo JCB e a funcionários do Clube. Esse é um pleito antigo da ACPC PSI que já esteve perto de ser atendido, mas continua pendente. Foi discutida a possibilidade de se "convidar" parceiros diretos (Itaú) ou indiretos(fornecedores de bebidas dos restaurantes situados no clube) para arcarem com parte ou todo o custo do projeto. O presidente informou que dentro de um mês esse projeto já deverá estar, ainda que parcialmente, em funcionamento. Disse que o diretor encarregado dessa tarefa já vem, às suas expensas, atendendo os casos mais urgentes em seu próprio consultório.
– Estabelecimento de convênio com o Teatro do JCB para em troca da mailing list dos sócios do clube para divulgação dos espetáculos lá apresentados, se dê um desconto aos sócios, mas um bem maior aos profissionais do turfe e aos seus dependentes, sendo sabido que esse teatro é o que apresenta a melhor programação de peças infantis no Rio ,sem que tal fato tenha a devida repercussão.
No mesmo clima afável e propício à troca contributiva de opiniões a reunião foi encerrada, ficando a sensação de que desde a essencial implantação da Pedra Única até os demais itens abordados, o presidente Palermo está disposto a levá–los adiante com o senso de urgência possível.
Luis Felipe Brandão dos Santos
Stud Eternamente Rio