Cheiro de perdedor (*)
O grupo de turfistas era numeroso. Um papo alegre e descontraído sobre o eterno motivo das carreiras, quando vejo o Mair aproximar–se, jornais debaixo do braço, lambendo uma balinha cristalizada espetada num palito.
Calculei: é agora! Esse cara não pode ver plateia sem dar uma exibição particular e prolixa dos seus permanentes infortúnios nas corridas. Cheguei a virar as costas, disfarçadamente. Mas um dedinho me espetou as costelas. Viro–me e já está nas mãos de Mair uma acumuladinha com os numerozinhos pintados pelo papel carbono.
– Olha aí, amigo, vê se pode! Desde segunda–feira o primo dum chefão, desses que andam nessas manobras da pesada, me garantiu que isso aqui não perdia – apontou o último número.
– Não podia perder – falei. Ficou fora do páreo porque o jóquei caiu.
– E não tinha que cair? – seguiu o Mair. É só eu jogar que a voz do destino berra lá de cima: Esse não! Tem mais, veja – e desamassou outro papelucho, que já estava guardado no bolso, e descreveu. – Essa dupla aqui pagou 30. Essa, 101. E essa aqui, a da fechatina, pule de 12, último e penúltimo!
Alguns do grupo logo caíram fora, enquanto os mais incautos e imprudentes davam uma olhada no talão do concurso que o Mair exibiu, explicando:
– Lembram ontem, quando resolveram desclassificar aquele cavalo que só saiu da linha porque mancou? Olha ele aqui. Examina o resto: tudo certinho, todos os vencedores e ele, que não valeu. Bolo acumulado, trezentas mil pratas e eu aqui, desclassificado e duro. Tem um amigo meu, o Hélio França, que diz que, quando eu apareço na esquina, ele sente meu cheiro.
– Cheiro de quê? – atalhei. Apesar de tudo você é um cara limpo, bem tratado, civilizado.
– Não é nada disso, corrigiu o Mair. É um cheiro que o Hélio descobriu em mim: cheiro de perdedor. Falou ele que é um cheiro assim feito goiaba madura, jaca na primavera. Ele explicou que o perdedor tem um cheiro miserável e inconfundível, um cheiro que chega a atravessar continentes. O Nixon tinha esse cheiro. Perdeu tudo que foi eleição e, quando ganhou, deram um jeito de tocá–lo pra fora do governo. O Brigadeiro também tinha, e Maluf também tá nessa.
– Boa companhia – alguém arriscou.
Mair nem ouviu. Meteu os dedos no bolsinho da camisa cor de abóbora, aquele modelo colorido da Comlurb, e tirou outra acumulada, que detalhou patético:
– Aqui, eu e o meu amigo Ramon combinamos de juntar esses três. Mas o Ramon é muito burro, não entende nada de cavalo. É o tipo do arigó, que ainda contraria o chefão, que nesse jogo só está com a iluminação. Vê se pode! Mandou marcar o número 11. Como eu podia marcar, se o chefão deu todo o serviço feito? O número 4 só podia perder se fosse montado pela Wilza Carla e treinado pelo Oswaldo Brandão... Mas ganhou o 11, o cavalo do Ramon, que eu não coloquei. Quer dizer, ele acertou a acumulada e eu vou ter que pagá–lo.
– Acumulada de quanto? – sem querer, indaguei.
– Uma nota de milhão – respondeu com um som sibilante de agonia. E aduziu: agora veja como é que eu tenho que me virar como cambista, transando arquibancadas do carnaval pra levantar uma grana e encarar o Ramon com a nota dele. Há três dias não almoço nem janto.
Consternação geral. Pigarros e palmadinhas de conforto nas cotas do Mair, que, para mim, sentiu–se satisfeito e lisonjeado com a emoção provocada pelas suas frustradas batalhas pela fortuna. Assim como os contadores de anedotas experimentam momentos gloriosos de gozo, quando a plateia explode nas risadas.
Tanto me pareceu um raciocínio correto que, logo a seguir, aproveitando–se do instante sutil, calcou no peso das desgraças contando os enredos inteirinhos dos filmes “O Exocista” e “Tubarão”, finalizando com detalhes carregados dos últimos acontecimentos na Guatemala.
No ar, um aroma que, segundo o Hélio França, era o autêntico cheiro de perdedor.
(*) Texto publicado originalmente na Revista JCB, na década de 1980, por Heitor de Lima e Silva, o Bolonha.
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