A situação do turfe brasileiro chegou a um ponto limite, após cerca de 25 anos de declínio e desesperança. O número de nascimentos desde o final da década de 80 e início dos anos 90 até 2012 caiu de 4.922 para 2.809, nada menos que 43%. O número de estabelecimentos criatórios também teve declínio dramático, de 1.443 para 336, (– 77%) e o de reprodutoras registradas caiu de 8.956 para 3.240 queda de 64%.
Na verdade, o último período de alento para a atividade se deu no Rio de Janeiro, durante o mandato do presidente José Carlos Fragoso Pires, especialmente no período de 1992 a 1996. Uma equipe de turfistas de alto gabarito, cada qual reconhecidamente bem sucedido em seu ramo de atuação, despojou–se de quaisquer vaidades e pôs mãos à obra para o soerguimento da atividade.
O resultado foi um significativo aumento do MGA em termos reais, permitindo que os prêmios recebessem significativa majoração.
A partir de 1995 e por mais de 10 anos, o turfe do Rio experimentou situação inusitada: enquanto a inflação se acumulava, dependendo do índice, em algo com 130%, os prêmios não sofreram qualquer reajuste. A atividade que nunca foi um exemplo de rentabilidade, mas que comportava aos nela envolvidos, criadores, proprietários e profissionais, uma possibilidade de adequação entre receitas e despesas que lhes permitia levá–la adiante com denodado esforço, ruiu sob o peso do extenso congelamento. A derrota nas eleições do JCB, do maior e mais importante criador brasileiro Julio Bozano, traumatizou a atividade, e para muitos punha no céu nuvens negras que se transformaram na longa tempestade que teima em não parar.
Mas turfista vive de esperança e o barco foi adiante, adernando cada vez mais. Em uma etapa deste caminho, para obter a aprovação do meio turfístico, a então diretoria do JCB apresentou a empresa CODERE. O contrato com essa empresa, de conhecimento exclusivo da diretoria do JCB, segundo eles permitiria mais do que duplicar os prêmios, reduzir a retirada sobre as apostas e disponibilizar verbas para, a um só tempo, reavivar o marketing do turfe, como para tirar do limbo as condições técnicas das corridas, melhorando as inadjetiváveis condições das pistas, a de grama era criminosa, e as de transmissão pela TV.
O tempo passou e logo se viu que a solução CODERE foi um blefe, Nada do que fora prometido foi cumprido. Os prêmios continuaram no fundo do poço, as retiradas ao invés de caírem subiram e as raias, com mais alguns anos sem o mínimo cuidado, se tornaram ainda piores.
Em 2008, o candidato da situação, novamente apoiado pelos sócios frequentadores da área social do clube, foi eleito. A derrota do candidato Cláudio Ramos, criador e proprietário, colocou o turfe do Rio em luto só igual ao que seguiu `a derrota do Dr. Júlio Bozano.
O presidente eleito, Luís Eduardo da Costa Carvalho, que nunca tivera um único cavalo de corrida, talvez constrangido por se tornar o comandante de uma entidade em relação ao objetivo estatutário da qual não tinha a mínima intimidade, procurou, a seu feitio, colocar algum oxigênio na atividade. Todavia, sem contar com o aconselhamento de turfistas competentes e por seu modo autoritário de comandar fez com que mesmo algumas medidas corretas e inadiáveis, como a reforma de pistas de grama, por ter sido feita sem os indispensáveis debates e planejamento, até hoje seja motivo de críticas, desde o tipo de grama plantada (capim Florakirk – irmão do capim Tifton 78), e principalmente no que tange a drenagem de meio de pista que não foi realizada.
Mas, como já mencionado, para se redimir de ser um assumido não turfista na presidência de um clube voltado para a promoção do turfe, foi, a seu jeito, tomando providências que melhoraram um pouco o estado do paciente: as retiradas sobre as apostas caíram discretamente, foi importada uma nova cerca móvel, que passou a ser móvel de fato, adquiriu um novo photochart e, em seu mandato, aumentou os prêmios acima da inflação, corrigindo em um mínimo que fosse a imensa defasagem oriunda dos tempos dos anos de congelamento.
Candidato `a reeleição, enfrentando a desconfiança dos sócios turfistas e sem o mesmo apoio dos sócios do clube social, pelo qual pouco ou nada fez, acabou derrotado pelo candidato que reuniu o apoio da quase totalidade dos turfistas, embora pessoa quase desconhecida no meio: Dr. Carlos Palermo. Enfim, era a chance dos turfistas retomarem o comando do clube.
Às vésperas de complementar dois anos de mandato da atual diretoria, os turfistas viram o feitiço virar contra o feiticeiro: nada do imaginado aconteceu. O afã de tomar o poder a qualquer preço deu em completo desastre.
Pode–se aqui listar extensa gama de decepções, mas só as mais graves serão citadas:
– a manutenção do contrato com a CODERE, objeto de ação criminal para denunciá–lo impetrada por vários membros que hoje compõem o altíssimo comando da atual diretoria quando ainda eram oposição. Nem mesmo auditar os valores dos MGA’s apresentados pela CODERE a diretoria se digna fazer;
– a formação de uma Comissão de Corridas com incomparável vocação ao erro e ao autoritarismo, cujo coroamento foi o desenrolar do GP Presidente da República de 2013, o qual todos verdadeiros turfistas do Brasil gostariam de apagar de suas memórias.Esse páreo resume em questão de 15 minutos um desastre que se abate a cada chamada, a cada reunião, a cada decisão.
– a falta quase absoluta de investimentos na área turfística em detrimento dos efetuados na área social, contrariando todas as expectativas que se pudesse ter de uma diretoria formada por turfistas, que viria substituir uma de neófitos assumidos no tema.
– a ênfase em acolher eventos no clube sem que se busque, a qualquer tempo, deles extrair sinergia com a parte hípica, e, para terminar pelo mais grave
– a REDUÇÃO REAL dos prêmios nos páreos corridos na Gávea, nos anos da diretoria de turfistas, em que pese os pesados aumentos na taxa de manutenção cobrada as sócios e da inflação que se impõe a cada item do sustento de um animal.
Em janeiro de 2012, os animais de 2 anos corriam para prêmios de R$ 7.500, em 2013 para R$ 7.800 e em 2014 para R$ 8.200. Ou seja, nos dois reajustes concedidos pela atual diretoria, o AUMENTO de PRÊMIOS total foi de 9,3%, contra 12,3% de INFLAÇÃO. Em 2013, o reajuste dos prêmios foi de 4,0% , para uma inflação de 5,8%. Em 2014, o reajuste nos prêmios foi de 5,1%, contra uma inflação próxima de 6,0%. Isso sem contar que os insumos que compõe o trato dos cavalos: aveia, alfafa, serragem, medicamentos e mão de obra, tiveram um aumento muito superior ao da inflação.
Com tamanha defasagem nos prêmios, agravada nos últimos dois anos da diretoria de turfistas, merece extrema preocupação a situação dos profissionais do turfe. Criadores e profissionais podem, e o estão fazendo seguidamente, reduzir ou liquidar seus plantéis. E como ficam os profissionais, a quase totalidade deles trabalhando no meio do turfe desde o início de suas vidas?
Enquanto o turfe padece com novas reduções de prêmios, para os sócios interessados em outras áreas do clube o que se acena e se pratica é bem diferente: os sócios que usam o edifício garagem voltaram a ter uma carência gratuita de até 2h em suas estadias, além de redução no custo do estacionamento. Diz–se que a diretoria de turfistas apenas está cumprindo uma promessa de campanha. Como já se disse o negócio era ganhar a eleição e fazer promessas eleitoreiras deviam fazer parte do jogo. Todavia, durante a campanha, também de forma eleitoreira, se omitiu que iria se ajustar o caixa do clube, inclusive cobrindo o subsídio generosamente concedido aos sócios garagistas, arrochando ainda mais o turfe. Vejam só: apenas mantendo os padrões do custo do estacionamento antes vigentes, as reduções impostas aos prêmios poderiam ser evitadas ou muito minimizadas. Todos sentimos na pele o quanto custa estacionar um carro em qualquer canto da cidade, de Ramos ao Leblon. Os aumentos são sucessivos, estarrecedores, mas no JCB optou–se pelo caminho oposto.
Ocorre, como sabido, que o colégio eleitoral está do lado de lá das pistas e o que se acena é com a expansão do parque aquático, com nova quadra de tênis, pista de skate, e coisas assim. Afinal o tempo passa e a próxima eleição se aproxima. Por que não prometer agora aumentar a carência no uso da garagem para 4 anos ou mesmo tornar seu uso gratuito, como chegam a pleitear alguns sob o argumento de que o edifício foi construído com o dinheiro dos sócios?
Na verdade, o turfe exige, em sua agonia, gestão ultra competente, bem ao inverso da que se tem hoje. Ações de marketing, busca de patrocínios, reformulação da imagem da atividade perante a população em geral, Comissão de Corridas apegada aos melhores princípios do esporte e com o compromisso, que lhe é estatutário, de cuidar para o êxito crescente do movimento de apostas, são itens fundamentais para a retomada do turfe. Feito isso sairemos da trágica última posição no mundo quando a questão é a relação custo do trato/prêmio, que deveria envergonhar os dirigentes turfísticos no Brasil, mas não os incomoda em nada, pois, afinal, julgam que já dedicam horas do seu lazer para cuidar de algo em que, no fundo, não acreditam ter saída. Esforço, por menor que seja, feito com essa perspectiva se torna imenso, insuportável.
Não há mais tempo a perder com nada que não seja dar oxigênio ao turfe a aos que dele dependem. Vaidades, autoritarismos, arrogâncias, prepotências já causaram estrago inimaginável. Ainda há tempo de mudar o quadro trágico que qualquer turfista vê adiante com clareza mantido o atual estado de coisas. A união para a reversão desse cenário pode e deve começar pela introdução da PEDRA ÚNICA, onde todos ganham, apostadores, clubes, criadores, proprietários e profissionais. Aos que não conseguem alcançar essa verdade tão cristalina e fácil recomenda–se deixar qualquer cargo de direção em entidade turfística e ir atrapalhar em outro canto. Como os que assim se movem são pessoas de posse, podem ,alternativamente, pagarem meia hora de consultoria com a Drexton, empresa que elaborou o Projeto Turfe Forte, em maio de 2010, portanto completando quatro anos, devidamente jogado para escanteio por quem teve ou tem poder de comando no turfe. Embora enfaticamente elogiado por quem o leu e até por quem não o leu, o diagnóstico feito e as sugestões formuladas deram aos dirigentes do turfe brasileiro o direito de se vangloriar de não terem aproveitado NENHUMA delas. Gente sábia.
Tudo trágico, mas verdadeiro.
Luis Felipe Brandão dos Santos é sócio do JCB e titular do Stud Eternamente Rio.