No sábado, véspera do Grande Prêmio Cruzeiro do Sul, eu cheguei a casa caindo aos pedaços. Meu corpo todo dolorido, como se tivesse sofrido um atropelamento. Sentia calafrios, tosse seca e coriza. Logo pensei que uma gripe queria me pegar. Só tinha Tylenol em meu apartamento. Depois de um banho rápido tomei o remédio e deitei às 21 horas, horário absurdo para um boêmio dormir. Mas o Derby, no dia seguinte, valia o sacrifício. E o craque Bal a Bali também. A febre alta tirou até o meu apetite, algo bastante preocupante no meu caso. Desliguei o telefone celular para não ser incomodado. O de casa eu guardo a sete chaves. Só meus filhos, Thiago, Luiz Paulo e Graciely possuem o número. E também o meu inseparável amigo de todas as horas, José Augusto Castelões, o popular “Nabo”.
A madrugada foi terrível. A febre travou luta titânica com o Tylenol. A maior vítima desse duelo fui eu, com um tremendo suadouro. Bebi quase todas as garrafas de água disponíveis, mas comecei a pensar na possibilidade de ficar fora do Derby. Acordei num tremendo bagaço e só tive força para me arrastar para o mercado, que fica na parte de baixo do meu prédio. Reabasteci a geladeira com todos os líquidos possíveis e imaginários. Por sorte, moro em Copacabana e, do lado do mercado, existe uma farmácia. Comprei Redoxon, Naldecon e outros babilaques e voltei para a cama. Não havia a mínima possibilidade de eu tentar chegar ao prado. A febre voltava com insistência e na segunda–feira eu teria de estar pronto para exercer a função de agente de montarias de Vagner Borges, o piloto do até então futuro tríplice coroado.
Por volta do meio–dia, decidi ligar por alguns segundos o celular. Havia mais de 30 mensagens. Só do Borges tinha 14. Uma delas me chamou a atenção. “Paulo, cadê você? Precisamos analisar as corridas. Como é que vou montar um páreo desses sem a gente trocar ideia?”. Guignoni também me procurava preocupado. Além deles, tinha mensagens daquela legião de barbadeiros que dificultam a rotina da gente nos dias de corrida. Até eles estavam preocupados comigo. Tranquilizei o Guignoni e lhe expliquei sobre a minha ausência, já definida por causa da gripe forte e, principalmente, da febre. Ao Vagner Borges, só disse duas coisas. “Não deixe o cavalo disparar entre a primeira e a segunda curva. Se você entrar na reta oposta com ele manso, a corrida está no papo. Mas fica de olho no Ricardinho. Se ele decidiu vir de novo da Argentina para montar esse páreo é por que sentiu que o Hendrix, que terminou a quatro corpos do Bal a Bali, poderia nos surpreender agora”, alertei.
Foi sofrido ver tudo de casa. Em primeiro lugar, porque gostaria de estar ao lado do Vagner Borges num momento tão importante da sua brilhante carreira. Além disso, Bal a Bali é daqueles puros–sangues da mais absoluta exceção. E o turfista de verdade, aquele que realmente ama o esporte, entra num processo de euforia diante dos verdadeiros campeões. Bal a Bali, desde a estreia, me passava a mesma sensação de ser insuperável proporcionada por outros extraordinários corredores, como Grão de Bico, Aporé, Baronius, Emerald Hill, Itajara, Troyanos, Falcon Jet, Much Better, entre outros. Quando eles corriam, me davam a quase certeza da vitória, mesmo levando em conta possíveis surpresas ou percalços. E foi o que aconteceu. A estratégia traçada pela equipe do Stud Alvarenga foi tão perfeita, que nem mesmo o bote certeiro preparado por esse fenômeno que é Jorge Ricardo foi capaz de impedir o triunfo em recorde e a conquista da Tríplice Coroa pelo filho de Put It Back.
Ainda não está definido o futuro de Bal a Bali nas pistas. Mas como qualquer turfista, eu gostaria muito de ver o craque entrar em ação no Grande Prêmio Brasil. Imaginem que magnífica atração seria a revanche entre o defensor do Stud Alvarenga e o desafiante Hendrix, do Haras Nacional, montado pelo campeão Jorge Ricardo. Como disse o locutor Luiz Urubatan Carlos, na reta final do Derby, “o confronto entre a antiga e a nova geração”. Não é um sonho dos mais saudáveis para ninguém duelar com o “homem–máquina”. Mas em termos de mídia e promoção para o evento turfístico, seria sensacional promover este tira–teima. E afinal, de que vale a vida sem os grandes desafios?
por Paulo Gama