Domingo de Carnaval. À exceção do Hipódromo de Cidade Jardim, em São Paulo, nada de corridas nos demais prados do País. Carente de opções, os turfistas cariocas não carnavalescos driblaram os blocos e os foliões a caminho da loja Turff Bet Sport’s, localizada nas dependências do Hipódromo da Gávea. Na única entrada, pela portaria da Tribuna Social, alguns cones intimidavam possíveis curiosos ou turistas. Mas nós, turfistas do dia a dia, não nos assustamos com facilidade. Apesar do incômodo de saltar do táxi no meio da rua, em frente à Praça Santos Dumont, enfrentamos com galhardia e determinação o labirinto de grades de aço até chegar a loja da Codere. Ali, nos esperavam um ar condicionado perfeito, atendentes simpáticos, e o programa com detalhes das corridas. Enfim, um oásis, um ambiente turfístico no meio do caos.
Muitos dos recém–chegados se mostravam surpresos com a não captação de apostas para as corridas de Cidade Jardim. Na verdade, muitos estavam ali com a certeza de que elas seriam transmitidas. Pobres diabos. Ainda não se conscientizaram da preguiça absoluta que assola a diretoria dos Jockeys do Brasil. Deixar alguém da equipe técnica de plantão, nem pensar. Como também não se pensa em pagar hora extra para algum componente da comunicação. Coitado, todos têm o direito de pular o carnaval. Mas o ar de decepção logo foi substituído pelo prazer de ver hipódromos organizados, com pistas perfeitas, grande público e muitas estrelas nas pistas. Cavalos de corrida de alto nível, jóqueis famosos e treinadores campeões. Um cardápio maravilhoso para o aficionado mais exigente. Não consegui esconder meu sorriso quando um turfista brincalhão e espirituoso falou para o garçom. “Quanta modernidade! Elogia o seu chefe!”, numa referência à impagável propaganda do Posto Ipiranga. O rapaz, que estreava na loja para cobrir os garçons foliões de folga, respondeu com um riso mais encabulado do que o atendente da televisão.
“Que se exploda quem gosta de corrida!”, exclamou um turfista octogenário ao saber que as corridas de São Paulo não seriam transmitidas e que não haveria apostas, no Rio, para os páreos paulistas. Logo em seguida, aquietou–se e passou a estudar as corridas internacionais. Por volta das 14h30, já estavam na loja quase 40 turfistas. O prato principal era Aqueduct, com largada do primeiro páreo às 14h25. Logo depois, às 14h55, começou a reunião de Calder, com Gulfstream Park, às 15h05 e Turfway, às 15h10. Isso mesmo: um hipódromo em Nova York, dois na Flórida e outro em Kentucky. E, no final da tarde, Santa Anita, na Califórnia, e Golden Gate Fields, localizado no norte americano. Um espetáculo!
Nas mesas da loja, marcaram presença turfistas carimbados de todas as reuniões da Gávea e alguns profissionais, como os treinadores J. F. Marchant, C. Pensabem e C. Rodrigues. Nas corridas de Aqueduct brilharam os jóqueis José Ortiz, Rajh Maragh e Irad Ortiz, entre outros. E em Gulfstream, abrilhantaram a festa os dois jóqueis eleitos, recentemente, como os melhores dos Estados Unidos, Javier Castellano e Joel Rosário, além dos também famosos, José Lezcano e Julien Leparoux.
No quarto páreo, para potros perdedores, as apostas chegaram a US$ 1 milhão. E, logo depois, em Santa Anita, foi possível ver em ação o jóquei brasileiro Tiago Josué Pereira, além de apostar e acertar no lendário Gary Stevens, o homem de gelo das telas do cinema. Stevens esbanjou categoria e venceu o segundo páreo com pule de 5 por 1. Ainda houve tempo para dar uma “secada” no Russel Base nas provas de Golden Gate Fields. Pelo menos, por algumas horas foi possível esquecer os batuques, os beberrões, as fantasias e a incompetência generalizada do turfe nacional.
por Paulo Gama