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Agosto | 2006

O Lendário, por Milton Lodi
08/08/2006 - 15h00min

Foi no dia 3 de agosto de 2006 que o Senhor entendeu de chamar, para o descanso eterno, o mais carismático e melhor jóquei brasileiro de todos os tempos. Foi na semana mais festiva do turfe brasileiro que, aos 80 anos de idade, LUIZ RIGONI, o "Homem do Violino", nos deixou.

Ele era apenas 4 anos mais velho do que eu, mas quando eu era ainda um rapaz, ele já era um homem, consagrado unanimemente por todos que o viram montar, como o melhor de todos. Era sempre o primeiro a chegar diariamente para trabalhar os cavalos. Estacionava o seu carro com os vidros completamente fechados, sob o blusão usava camisas e roupas de lã. Depois, entrava no carro e fechava a porta. O sol esquentava muito, o interior do carro era uma verdadeira sauna. Era isso que ele queria, suar muito para poder montar mais leve.

RIGONI tinha várias opções para montar em cada páreo, a montaria de Rigoni fazia aumentar as chances de vitória.

Em uma época em que o meu pai tinha uma grande coudelaria, com várias inscrições em todas as semanas, é claro que muitas vezes o RIGONI, que não assinava contrato de preferência obrigatória com ninguém, escolhesse outro cavalo que não o do meu pai, que resolveu o problema de forma singular. Contratou o vice–líder da estatística, CANDIDO MORENO, que montava os animais que o líder RIGONI não queria, e quando o RIGONI pedia a montaria, o MORENO ficava na arquibancada, sem o direito de montar um outro no páreo, e recebendo do meu pai, diretamente, comissão igual àquela que o RIGONI auferisse naquele páreo.

MANGUARÍ foi o cavalo predileto do meu pai, grande ganhador clássico, e que foi correr a 3ª prova da Tríplice Coroa após ganhar as duas primeiras. Em 1.600 e em 2.400 metros, MANGUARÍ ganhara com autoridade, e foi para os 3.000 metros tentar a Tríplice Coroa. Ele era um fantástico corredor em 2.000 metros, bateu por duas vezes o recorde dessa distância, era um cavalo brigador, valente, um gladiador, às custas de uma especial caixa toráxica. Aconteceu que logo no 1° páreo daquela tarde, o RIGONI caiu e ficou desacordado, por mais de uma hora (àquela época não havia capacetes e coletes protetores). Quando ele voltou a si, e após o médico constatar que apenas um dedo polegar estava quebrado, disse que ia continuar montando, estava se sentindo bem. Outros jóqueis já haviam se oferecido para montar o MANGUARÍ, mas o RIGONI não quiz saber de nada, ele estava bem, e havia uma Tríplice Coroa em jogo. MANGUARÍ foi 3°, 3.000 metros não era distância adequada para ele, mas RIGONI foi como sempre impecável, com toda a sua classe.

Outra corrida inesquecível foi com a uruguaia PALINA, do Dr. Peixoto, em 1.200 metros na areia. Àquela época, nas distâncias curtas, todos saíam em desabalada carreira, até onde desse. Com a favorita PALINA, RIGONI ficou propositadamente pra trás, e atropelou violentamente nos últimos 400 metros, não só vencendo de forma espetacular, como também inovando a forma de correr em páreos curtos.

Ele conseguiu um feito inédito e difícil de ser igualado, com o cavalo QUARTIER LATIN, do Haras São Bernardo. Ganhou com ele por quatro vezes a milha internacional do Grande Prêmio Presidente da República, duas em Cidade Jardim e duas na Gávea, sempre correndo entre os últimos para uma atropelada na reta final. Na Tribuna Social, do Jockey Club Brasileiro, na parede de um corredor que vai do restaurante do 2° andar para as arquibancadas, há uma grande fotografia do QUARTIER LATIN com o RIGONI, ao fazer um galope de apresentação.

Uma das mais sensacionais joqueadas do RIGONI, no meu entender, foi em um Grande Prêmio montando a JOCOSA, parelha do MANGUARÍ, que ia com o jóquei mediano ADÃO RIBAS, contra, entre outros, a formidável parelha do Stud Seabra, LORETTA e RADAR. Os dois jóqueis da parelha oponente sabiam que MANGUARÍ já estava mais velho, correndo menos, e o RIGONI com a JOCOSA era o problema deles. RIGONI conversou com o ADÃO RIBAS na ida para a fita (ainda não havia partidor). MANGUARÍ tomou a frente, e acelerou; JOCOSA foi sofreada pelo RIGONI, no que foi imediatamente acompanhada pela parelha inimiga. Até a entrada da reta, não houve modificações, MANGUARÍ na frente e os outros três pertos uns dos outros. Virada a reta, quando o espetacular chileno FRANCISCO IRIGOYEN e o companheiro imaginavam alí o início de uma grande disputa, viram um RIGONI ainda quieto, e esperaram por ele. Corridos uns tantos metros da reta final, de repente JOCOSA arrancou fortemente, no que foi acompanhada por LORETTA e RADAR. MANGUARÍ na ponta mantinha–se com bravura, mas os três oponentes começaram a descontar. Nos últimos 150 ou 100 metros, JOCOSA, LORETTA e RADAR rapidamente descontaram a diferença, e emparelharam com o MANGUARÍ. O resultado foi MANGUARÍ em 1°; JOCOSA a cabeça em 2°; LORETTA e RADAR bem pertos em 3° e 4°. Esse páreo foi uma obra de arte do "Homem do Violino".

Mestre RIGONI está agora junto ao seu ídolo IRINEU LEGUISAMO, aos grandes jóqueis contra os quais ele montou, como OSWALDO ULLOA, FRANCISCO IRIGOYEN, JUAN MARCHANT, EMIDGIO CASTILLO, e de tantos e tantos jóqueis que reconheciam nele a maestria, a classe, a esmerada técnica, o senso da velocidade, a calma e frieza.

LUIZ RIGONI, um nome que marcou época, e que jamais será esquecido.

por Milton Lodi

publicação simultânea Raia Leve e Jornal do Turfe



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