Maior ganhador do turfe brasileiro, com cerca de 3.400 vitórias, ele virou lenda no Hipódromo da Gávea e conquistou seis vezes a principal prova do calendário clássico brasileiro.
O primeiro êxito em 1939, com Six Avril, e o sexto em 1975, com Orpheus. Treinador exclusivo dos animais da família Paula Machado durante toda a carreira, “Seu Nhonhô” era querido e admirado por todos. Por suas mãos passaram corredores extraordinários.
Quando se aproxima mais um GP Brasil, é impossível não lembrar do grande mestre. Morreu aos 78 anos e deixou em seu lugar o segundo–gerente Francisco Saraiva, que, com todo o aprendizado, pôde revelar um craque fantástico como Itajara. Vamos viajar um pouco no tempo para lembrar das seis vitórias do grande Ernani Soares de Freitas, ou simplesmente “Seu Nhonhô”, com sua elegância e chapéu de panamá, sempre intocável.
A primeira, em 1939, com o cavalo francês Six Avril, num páreo cheio.
Dezessete corredores largaram da seta dos 3.000 metros naquele dia 6 de agosto de 1939. Como sempre, o Hipódromo Brasileiro se encontrava superlotado. A pista de grama estava leve e o sol brilhava. Linneo de Paula Machado ainda não havia presenciado uma vitória da jaqueta ouro e costuras azuis no GP Brasil. E não seria desta vez, pois Six Avril, importado da França, dado de presente para o filho Franscisco Eduardo, correu com a farda azul, costuras e boné ouro. Dirigido por Juan Zuniga, o filho de Town Guard e Tutrix derrotou Mississipi na marca de 185s. Ernani de Freitas começava a escrever seu nome na história da maior prova do nosso turfe.
Linneo morre num acidente aéreo, em 1942, sem ver sua farda passar na frente. Um ano depois, a jaqueta cruza vitoriosa com Albatroz.
O destino não quis que Linneo de Paula Machado visse sua farda ganhar o GP Brasil. Criador e importador de grandes campeões, morreu num acidente aéreo em 1942. No ano seguinte, exatamente no dia 1° de agosto, Albatroz atropelava de forma fulminante para levantar a carreira, conduzido por Juan Zuniga. O filho de Trinidad e Myrthée cruzou o disco com meio corpo de vantagem sobre Álibi, em 186s4/5.
No ano seguinte, o bicampeonato de Albatroz e a terceira vitória de Ernani de Freitas.
Aos oito anos, Albatroz entrou para a história do turfe brasileiro ao tornar–se o primeiro bicampeão do GP Brasil. No dia 6 de agosto de 1944, o craque, dirigido pelo chileno Luiz Gonzalez, derrotava Ever Ready por um corpo e meio, assinalando o tempo de 185s para os 3.000 metros, em pista de grama leve. Era o tricampeonato de seu “Nhonhô”. Na Gávea, o público delirava.
Depois de um argentino e um uruguaio, a vez do tetra, com outro corredor fantástico.
Em 1945 a vitória pertenceu ao argentino Filon, com o legendário Irineo Leguisamo, e no ano seguinte foi a vez do uruguaio Mirón, com Pierre Vaz. “Seu” Freitas, como também era conhecido, já estava ansioso e em 1947 veio a vitória de outra “máquina”: Helíaco, filho de Formasterus e Saphinha. Dirigido por Oswaldo Ulloa, o alazão bateu por um corpo e meio a Heron, companheiro de stud e formando a “dobradinha”. Helíaco assinalou o tempo de 193s para os três quilômetros, em pista de grama pesada.
O fantástico bicampeonato de Helíaco e o penta de Ernani de Freitas, logo no ano seguinte.
E, repetindo o feito de Albatroz, Helíaco, que era um fenômeno na pista pesada e havia perdido o GP São Paulo para Garbosa Bruleur, na raia leve, bisou a vitória no GP Brasil de 1948. Novamente sob a direção de Oswaldo Ulloa, derrotou Apuvo por vários corpos, assinalando 191s3/5, na grama pesada e naquele chuvoso 1° de agosto. Era a quinta vitória de Ernani, o mestre dos mestres, numa época de fantásticos treinadores e jóqueis incomparáveis. O mundo do turfe se rendia à categoria do profissional.
Vinte e sete anos depois, a sabedoria de transformar um forfait praticamente declarado, num ganhador incontestável.
Já aos 75 anos, ainda na ativa, Ernani de Freitas continuava à frente dos corredores dos Haras São José & Expedictus. Chegava o GP Brasil e só se falava no argentino Keats, invicto em seu país, na pista de areia. No campo da prova, entre 18 participantes, o tordilho Orpheus, já aos 6 anos, montaria do freio Paulo Alves. Na semana da corrida, uma grande dúvida envolvia o Hipódromo da Gávea. O assunto era um só: Orpheus estava manco e, provavelmente, não iria correr. Parecia assunto decidido, mas “seu” Freitas não se deu por vencido e usou toda a experiência para mandar o filho de Alípio e Emmet para a pista. E, para supresa geral, Orpheus venceu com autoridade, por três corpos, derrotando Snow Body. O tempo, para os 2.400 metros, na grama leve, foi de 147s1/5. Era o hexacampeonato de um monstro sagrado da história do turfe. A consagração de uma carreira irretocável, que terminaria três anos depois, quando um ataque do coração o levou. Trabalhou até o fim e foi exemplo para todos que escolheram a árdua profissão de treinar cavalos de corrida.
O turfe não tem memória, mas até os mais jovens já ouviram falar em Ernani de Freitas, o maior treinador de todos os tempos.
Ele começou como jóquei e não foi lá grande coisa. Depois, contratado por Linneo de Paula Machado, começou a carreira fabulosa. Coincidência ou não, um jóquei igualmente sem expressão, tempos depois, foi escolhido pela família Paula Machado e já chegou ao tricampeonato no GP Brasil – com animais de outros proprietários, preparados no Vale do Itajara. É Dulcino Guignoni, que vem se destacando na profissão há alguns anos, principalmente nas provas clássicas. Ernani de Freitas virou nome de clássico, mas por tudo o que fez pelo turfe, merecia mesmo um Grupo I.
por Marco Aurélio Ribeiro
fonte: Retrospectiva GP Brasil / Sérgio Tapajós Gonçalves