Na última quarta–feira, à tarde, durante o intervalo comercial da televisão, ao mudar de canal deixei de lado um bom jogo de tênis – US Open, em Nova Iorque –, ao dar de cara, mais uma vez, com a exibição do filme “Secretariat, uma história Impossível”. Acompanhei com o mesmo interesse de outras dezenas de vezes a história do fantástico puro–sangue. O famoso “Big Red” é considerado por muitos, até hoje, o melhor cavalo de corrida de todos os tempos. Não há como não se emocionar com a saga da dona de casa Penny Chenery, que enfrenta a própria família, que quer, a todo custo, negociar Secretariat para saldar dificuldades financeiras. A heroína desafia com sucesso a pressão familiar e de alguns proprietários poderosos, que tentam comprar o craque por preço de banana e resiste a tudo e a todos para realizar o sonho de conquistar a chamada “Triple Crown”, ou seja, vencer em curto espaço de tempo, o Kentucky Derby, o Preakness Stakes e o Belmont Stakes.
Embalado por bela trilha sonora, que inclui músicas religiosas, resguardado pela fidelidade do cavalariço Edie, conduzido pelo destemperado e polêmico jóquei Ronnie Turcotte, preparado pelo talentoso – mas depressivo e inseguro – treinador Lucien Laurie, Secretariat supera todas as dificuldades. Tudo, graças, à liderança determinada da protagonista, Penny Chenery, que rege com pulso firme essa singular orquestra. A história, passada em 1973, é fiel aos figurinos e costumes daquele período, inclusive com a presença da juventude americana da paz e do amor. Secretariat embrulha tudo para presente. Em pouco tempo, além de derrotar os rivais na pista, conquista a simpatia de todas as camadas sociais norte–americanas.
O filme tem flashes empolgantes dos páreos e mostra os bastidores do turfe, incluindo treinos matinais na penumbra, intimidade da cocheira, chás dançantes antes dos grandes eventos de Grupo I e a tensão nas tribunas e nos padoques, em diversos hipódromos. A cena final, com o triunfo de Secretariat no Belmont Stakes por 32 corpos, é antológica. Quanto mais o craque deixa para trás os rivais, a expressão de incredulidade e – por que não, de perplexidade – aumenta nos rosto dos personagens do filme. Como se estivessem diante de algo impossível de acontecer. Guardadas as devidas proporções, eu só presenciei reação idêntica no público presente ao Hipódromo da Gávea, em 1987, quando Itajara ganhou o Grande Prêmio Cruzeiro do Sul, o Derby carioca.
Outro filme fantástico do cinema americano, sobre cavalos de corrida, foi “Seabiscuit, alma de herói”, também frequentador assíduo do Telecine, na televisão fechada. Aliás, quando o filme foi exibido pela primeira vez no Brasil, o turfman Luiz Antônio Ribeiro Pinto fez questão de apresentá–lo em sala fechada, no centro da cidade. Não teve a divulgação merecida e ficou pouco tempo em cartaz. Passado no período da lei seca nos Estados Unidos, o filme retrata com fidelidade a crise financeira da sociedade americana, naquele momento, e as características de vida do cidadão médio americano. Seabiscuit, cavalo de pequeno porte, feio e abandonado à própria sorte, é resgatado por homem rico, que caiu em desgraça depois da morte do filho de 10 anos, em um acidente automobilístico num dos calhambeques de sua propriedade. Ele junta seus cacos aos de um treinador quase mendigo e ao jóquei beberrão, cego de uma vista e degenerado. Da união de todas essas mazelas, surge o cavalo mais famoso da época.
Nos Estados Unidos, existe toda essa cultura turfística. Na Argentina, também. Centenas de tangos (estilo de música mais tradicional e famoso do país) exaltam as corridas de cavalos. Gostaria muito que isso também acontecesse no Brasil. Imaginem poder ligar a televisão ou ir ao cinema para ver a história da fantástica Emerald Hill, criada no Haras Guanabara e de propriedade do Haras Rosa do Sul, invicta após nove corridas no país e depois vitoriosa nos Estados Unidos. Tenho certeza de que sua história, passada no final da década de 70, sendo interpretada por grandes atores e atrizes brasileiros, teria sucesso nas bilheterias. Como também o invicto Itajara, dos Haras São José e Expedictus, com toda sua incrível trajetória, o drama da contusão e a despedida das pistas, aplaudido por uma multidão que o idolatrava.
E o desbravador Much Better? Criado no Haras J.B. Barros, de propriedade do Stud TNT, aventureiro como Marco Polo, correndo pela América do Sul atrás de conquistas impossíveis. E os personagens de sua existência? O saudoso treinador João Maciel, que faleceu de forma precoce, no auge da carreira. O jóquei, Jorge Ricardo, que quase 20 anos depois de jornadas gloriosas no dorso do filho de Baynoun se tornaria recordista mundial. Belos enredos. E ainda existem muitos outros. Pode parecer um sonho. Mas tenho a esperança de que, um dia, meus netos possam ver estas histórias e tantas outras numa sala de cinema ou, pelo menos, na internet, se até lá estas salas não existirem mais. Eles vão saber que o avô deles foi feliz, pois viveu numa época fantástica, com grandes heróis de quatro patas. E esses heróis escreveram com paixão, com suor e com bravura a história do turfe brasileiro.
por Paulo Gama