E lá se vão 31 anos. O turfe brasileiro possuía, então, rotina promissora com espaço generoso na mídia. Eu tinha pouco mais de 22 anos e a minha patota, em Copacabana, dividia os interesses esportivos entre o Maracanã e o Hipódromo da Gávea. Os principais jornais da cidade – O Globo, Jornal do Brasil e O Dia – tinham página inteira para falar das corridas. Nas pistas, brilhava o craque Boticão de Ouro, criado no Haras Sideral e propriedade do Stud D.S., do turfista Délio Santos. As manchetes das corridas de domingo fervilhavam nas tardes em que o pensionista de João Limeira se apresentava. As entrevistas instigavam a nossa caravana a pegar o ônibus circular, deixar de lado o ponto de bicho da Rua Sá Ferreira, esquina com a Rua Saint Roman, e prestigiar de perto, na Tribuna Especial A, mais um triunfo do pilotado de Jorge Pinto.
Boticão de Ouro era um cavalo espetacular. O filho de Locris e La Malma corria com fúria, tinha apetite voraz e parecia querer provar sua superioridade a cada apresentação. Passava por cima dos rivais como se fosse um predador: sem qualquer tipo de pena das suas vítimas. Eu, Alexandre Carlos, mais conhecido como Bode, Lanny Campos, apelidado de Lampadinha, pois nos estudos tinha sempre as melhores notas, e Paulo Romero, o popular Parrumpa, ficamos fãs de Boticão de Ouro, desde suas primeiras atuações. Cada um de nós tinha a própria preferência de jóquei. Eu era fã incondicional de Juvenal Machado da Silva. Quis o destino que, num domingo nublado, mas com grama leve, uma prova colocasse em confronto Boticão de Ouro, montado por Jorge Pinto, e Zaibo, do Stud Maquiné, conduzido pelo Juvenal. O nosso grupo foi ao prado reforçado por Albino Pinto Resende, os filhos Celso e Carlinhos, o Armação de Pipa, assim chamado porque era muito magro. Além deles, os irmãos Jairzinho e Guilherme se juntaram ao time, todos para torcer por Boticão de Ouro. A princípio fiquei dividido, mas falou mais alto minha idolatria por Juvenal. Fui o único espírito de porco a torcer por Zaibo.
Boticão de Ouro devolvia o capital. Quando fui ao guichê, todos me olharam desconfiados. Disfarcei e disse que tinha apostado na dupla com Zaibo. Para decepção da tribuna lotada, o defensor do Haras Maquiné alcançou Boticão de Ouro em cima do disco e livrou cabeça, com uma daquelas joqueadas incríveis do bridão alagoano. Gritei feito doido diante de centenas de pessoas irritadas e entristecidas com a derrota do craque. Foi uma sensação estranha. Estava contente por ter acertado nas corridas e ainda mais por ter sido um azarão montado pelo Juvenal. Mas alguma coisa estava errada Tinha muita gente frustrada, ao meu lado, nas arquibancadas. Aprendi, para sempre, uma lição naquele dia: a derrota de um cavalo fora de série representa muito mais do que o resultado de um páreo comum. A derrota do craque significa uma derrota para o turfe.
Mas tudo é mais fácil quando se é jovem. A frustração da rapaziada com aquele inesperado infortúnio durou pouco. Decidimos organizar uma grande caravana para prestigiar Boticão de Ouro no Grande Prêmio Ipiranga, 1ª prova da Tríplice Coroa do turfe paulista, no Hipódromo de Cidade Jardim. Pegamos o ônibus da Viação Cometa na meia–noite de sábado e amanhecemos no Hipódromo Paulistano. O craque treinado por João Limeira estava na ponta dos cascos, pronto para encarar uma das melhores gerações de 3 anos de todos os tempos no turfe paulista. Montado com a classe de sempre por Jorge Pinto, o filho de Locris obteve vitória incontestável. Toda a galera acertou nas corridas e, antes de pegar o ônibus de volta, ainda tivemos tempo de comer o incomparável Filé do Moraes, na Praça Júlio Mesquita, acompanhado de batatas cozidas e agrião. Particularmente, senti–me reconciliado para a eternidade com o craque Boticão de Ouro. Um mês depois, o inesquecível craque voltaria a Cidade Jardim para tentar a Tríplice Coroa e sofreria um dos mais trágicos acidentes da história do turfe brasileiro. Mas essa é outra história...
por Paulo Gama