A ausência de ídolos nas pistas, de público nas tribunas e de divulgação dos seus principais eventos nos meios de comunicação mergulhou o turfe carioca num labirinto cheio de armadilhas, desafios e missões quase impossíveis. Praticamente, um beco sem saída. A nova direção tem trabalhado de maneira incansável, mas a administração anterior deixou o esporte em situação lamentável. As arquibancadas vazias, as instalações do hipódromo em estado precário – com problemas de todas as ordens – e um público turfista ansioso e carente, com tolerância zero. Os novos dirigentes têm confrontado situações difíceis por todas as áreas. E as dezenas de mangas arregaçadas para trabalhar têm esbarrado no caos instalado depois de muitos anos de ignorância administrativa.
O turfe carioca tem três problemas crônicos e urgentes para serem resolvidos. O primeiro deles é a pouca presença de público no prado. Um espetáculo sem pessoas para desfrutar e aplaudir não tem alma. Mas para superar tal situação, o Jockey Club Brasileiro tem colidido com a total ausência de infraestrutura no hipódromo. As tribunas populares não possuem bares, lanchonetes, restaurantes e, muito menos, área de lazer para crianças. Como você vai convidar alguém para visitar a sua casa se nada tem a oferecer às visitas? Uma distribuição de convites nos colégios e nas faculdades da cidade certamente atrairia crianças e adolescentes. No entanto, eles ficariam por pouco tempo no prado, pois não têm nada para comer ou beber.
Atualmente, a única tribuna com algumas opções é a social. Mas o local é privilégio dos sócios. A fiscalização por carteiras de identificação aumentou devido à presença de pessoas sem educação, moral ou bons costumes no local. Com isso, os possíveis novos turfistas precisam se dirigir às tribunas abandonadas, ao Deus dará. De imediato, volta–se ao mesmo ciclo: sem conforto e sem atrações, essas pessoas não voltam nunca mais. O citado teorema nos permite concluir que o carro não pode vir diante dos bois. Será preciso investir numa melhor estrutura nos locais populares. Aí sim, pode–se elitizar a única tribuna atraente e em condições de receber turistas de outros estados e de outros países. Aliás, fato que vai acontecer de maneira inevitável com a chegada da Copa do Mundo e, posteriormente, das Olimpíadas.
Na primeira visita ao Corcovado, os turistas vão avistar lá de cima o Hipódromo da Gávea e agendar sua ida ao prado no dia seguinte. E nós, sem uma Coca–Cola para oferecer. Os adultos vão se virar na loja da Codere. E os menores de idade? Eu respondo: vão ter de atravessar a Praça Santos Dumont para não morrer de sede e de fome. A parceria com grandes empresas seria um dos melhores caminhos para aparelhar a infraestrutura do hipódromo e receber bem as pessoas.
O segundo grande problema a ser resolvido (o quanto antes) é a falta de divulgação do turfe carioca nos meios de comunicação de massa. Não existe assessoria de imprensa com profissionais gabaritados para manter contato com televisões, rádios, jornais e sites. É preciso divulgar os diversos aspectos da atividade hípica. O intercâmbio entre a assessoria do clube e a mídia permitiria cobertura jornalística dos nossos principais eventos e personagens. Esses mesmos profissionais tentariam desmistificar a imagem preconceituosa do turfe junto à sociedade. Para os leigos, o turfe é apenas sinônimo de jogo de azar. As novelas, os filmes e as minisséries sempre apresentam os personagens turfísticos como perdedores natos, apostadores inveterados e indivíduos irresponsáveis que levam suas famílias à ruína. Isso precisa ser combatido com veemência.
O outro fator preponderante para o sucesso de qualquer esporte é a presença de ídolos. O turfe carioca não os possui atualmente. Devido ao conjunto formado entre o jóquei e o cavalo fica sempre mais fácil para os jóqueis atingirem esse status. Os treinadores, embora tenham papel fundamental no preparo dos puros–sangues, misturam–se ao público na hora do páreo e, por isso, precisam de resultado significativo para sair do anonimato. Os jóqueis estão no dorso dos cavalos, levantam o chicote, os capacetes, vibram, enfim, estão interligados aos campeões.
A maioria dos jovens alunos e aprendizes vem do interior, sem instrução, oriundos de famílias com situação financeira precária. Seria necessária uma orientação pedagógica mais eficiente, com psicólogos e professores. Os meninos mais talentosos deveriam ser abraçados e amparados. A tendência, depois que passam à categoria de jóquei, é fazer gigantescas besteiras com a própria vida e a carreira. Passam a ter situação financeira jamais sonhada e metem os pés pelas mãos. O Jockey Club prefere punir esses adolescentes recém–saídos das fraldas por seus desvios de conduta do que resguardá–los como verdadeiras galinhas dos ovos de ouro. Entre eles pode estar um novo Juvenal ou Jorge Ricardo.
Se aparecer um ídolo nesse porte, ele sozinho pode mover montanhas. O esporte ganha duas décadas em apenas uma temporada. Ou alguém tem dúvida de que se desse uma louca no Jorge Ricardo, o recordista mundial, e voltasse a montar aqui, muitos dos nossos problemas estariam resolvidos num piscar de olhos? Alguém já fez um cálculo do prejuízo que causou ao turfe carioca sua ida para o turfe argentino? No último ano no Brasil, em 2006, Ricardinho esteve na TV Globo, no programa do Jô Soares, na TV Bandeirantes foi entrevistado por Marília Gabriela, na TV Educativa esteve no Programa Sem Censura, da Leda Nagle, além de ter participado do programa Tá na Área, do Sportv, e no Globo Esporte, da TV Globo. Vocês têm ideia de quanto isso representou em marketing gratuito para o Jockey Club Brasileiro? O Departamento de Marketing do Jockey Club daquela época não tem a menor noção. Quando perguntei ao gerente se haveria alguma homenagem ao Ricardinho antes de sua ida para Buenos Aires, ele me respondeu: “Claro que não. Você acha que nós vamos colocar azeitona na empada dos outros?”.
Graças a Deus a atual diretoria não parece ter a mentalidade tacanha e conservadorista de que o Jockey Club Brasileiro não precisa de ninguém. No mundo globalizado, todos precisam de alguém.
por Paulo Gama