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Agosto | 2012

Ratings e o futuro de nossos clássicos, por Sergio Barcellos
26/08/2012 - 13h29min

RATINGS E O FUTURO DE NOSSOS CLÁSSICOS

Como se sabe – nos anos de 2012, 2013 e 2014 – estará sendo avaliada a forma da programação clássica brasileira como hoje a conhecemos.

Assim, a manutenção dos atuais calendários clássicos de nossas sociedades promotoras de corridas (leia–se, os Jockey Clubes), vai depender, em última análise, da qualidade dos cavalos que disputam suas provas de Grupo e Listed Races – qualidade esta, medida pela média dos “ratings” dos quatro primeiros colocados em cada uma delas, durante o referido período de três anos.

A partir de janeiro de 2015, portanto, começa o processo de  reavaliação anual das citadas provas e, com ele, a possibilidade de eventuais mudanças em sua graduação. Em outras palavras, a graduação das provas de nossos calendários clássicos deixará de ser estática, induzindo a acessos e decessos, e mesmo à eventual perda dessa graduação em certas provas, nos casos extremos.

Esta perspectiva decorre da adesão do turfe do continente sul–americano às regras internacionais que regulam o assunto, decidida em maio de 2010 quando da criação do Comitê de Ratings da OSAF.

Parece razoável entender como este assunto está evoluindo, e quais serão as consequências de não podermos, a partir de janeiro de 2015, simplesmente repetir, ano após ano, nossas atuais programações clássicas, sem antes cotejá–las com o que dispõe a norma internacional a respeito.

Em resumo, o turfe globalizou–se de vez. Ignorar este movimento, significaria decidirmos nos colocar à parte do mundo desenvolvido e passar a praticar um turfe eminentemente paroquial, sem qualquer relação com o mercado internacional do cavalo de corrida.

Para quem estiver interessado, o relatório a seguir, elaborado em junho de 2010, discutido e aprovado pela Diretoria da ABCPCC, condensa as principais medidas tomadas pela OSAF no encontro de Buenos Aires a respeito dos ratings dos animais sul–americanos.

I – RESUMO DO ENCONTRO DE BUENOS AIRES

No dia 24 de maio de 2010, realizou–se nas dependências do Hipódromo de San Isidro o “Primer Encuentro Sudamericano de Handicappers”, patrocinado pela OSAF em consonância com as recomendações da Federação Internacional das Autoridades Hípicas (FIAH). 

A reunião contou com a presença de representantes de todos os países–membros, e, ainda, dos senhores Ciaran Kennely, consultor técnico dos hipódromos de Hong Kong, Irlanda e Inglaterra [mais recentemente, da própria Federação Internacional das Autoridades Hípicas (FIAH)], e Melvin Davis, “handicapper” do hipódromo de Meydan, Dubai, que, a convite do Jockey Club Argentino, proferiram palestras sobre a metodologia de avaliação dos méritos de um cavalo de corridas (leia–se, “ratings”).

As citadas palestras dividiram–se em 5 capítulos:

(i) história, objetivo, usos práticos da classificação internacional (IC) dos cavalos de corrida, e elaboração dos “rankings” mundiais do thoroughbred, conhecidos pela sigla WTR (World Thoroughbred Rankings);

(ii)
aplicações do mencionado “ranking”;

(iii) demonstração “on line” do site da INTERNET (www.racingadmin.co.uk/iccs) que condensa a evolução dos “ratings” de todos os ganhadores de provas do calendário clássico internacional;

(iv) a forma de avaliar o mérito de um cavalo de corrida, e a comparação entre os parâmetros usados pela WTR, com aqueles adotados na América do Sul;

(v) exemplos de construção e revisão dos “ratings” dos participantes de 3 grandes provas do turfe mundial, a saber: o Prix de l´Arc du Triomphe; a Breeders’ Cup Turf; e a Dubai World Cup.

Comentário

A classificação internacional dos cavalos de corrida, através da atribuição de “ratings” (expressos em libras–peso) teve seu início em 1977, tendo sido adotada inicialmente por França, Inglaterra e Irlanda. Em 1985, Alemanha e Itália aderiram ao sistema. Em 1995, os EUA foram incluídos.

A partir daquele ano, o Japão, a União dos Emirados Árabes UEA), Hong Kong, Austrália e Nova Zelândia juntaram–se aos países acima citados e instituíram formalmente o que se conhece hoje como a “Classificação Internacional”, rebatizada, em 2004, com o nome de “Rankings do Cavalo de Corrida Mundial” (WTR, em inglês).

A partir desse momento, a mencionada classificação passou a ter uma influência decisiva sobre o mundo do thoroughbred e, especialmente, sobre os movimentos do mercado mundial da indústria.

Hoje, praticamente todas as avaliações (e, conseqüentemente, o valor monetário dos animais no mercado internacional) tomam como base os “ratings” em questão. Eles é que, em última análise, indicam quem vale o quê nesta atividade.

Parece razoável, assim, conhecer quais são os quatro conceitos básicos que orientam a confecção e a estrutura dos “ratings”. Como se segue:

. Diferenças em corpos medidas no disco de chegada – este é o primeiro conceito, a indicar a forma como cada animal se comportou durante determinada corrida. Por óbvio, tais diferenças indicam, ou pelo menos sugerem, o quanto de “reservas” cada competidor ainda dispunha ao terminar a prova. Tais diferenças (medidas em corpos) são correlacionadas a margens (teóricas) de peso para avaliar a performance de cada animal.

Apenas como exemplo, na escala internacional (“International Handicapping Scale”), 1 corpo de diferença no disco de chegada equivale, respectivamente: a 1,5 quilos dos 1.000 aos 1.450 metros; a 1 quilo, dos 1450 metros aos 1.800 metros; de 0,5 quilo a 1 quilo, entre 1850 e 2150 metros; idem, entre 2.200 a 2750 metros; e de 0,5 quilo dos 2.800 metros em diante.

Isso tem a ver com a velocidade média atingida pelos bons cavalos de corrida, que é de 18 metros por segundo. Dessa forma – para efeito de elaboração dos “rankings” dos animais – as diferenças em corpos no disco são expressas em quilos (ou libras–peso).

Caso haja interesse em conhecer a evolução do “International Handicapping Scale”, de 0.2 a 6.0 corpos, e seus correspondentes pesos e distâncias, a tabela está à disposição de todos na INTERNET.

. Performance vs. Idade Hípica – o conceito aqui, parte do pressuposto de que a avaliação da qualidade de um cavalo – vale dizer, seu “rating” – é tanto mais verdadeiro, quanto mais intensamente o animal se mede na pista contra seus adversários.

No caso, a primeira dificuldade de avaliação, se refere aos produtos de 2 anos de idade, os chamados juvenis, eis que esses só correm, normalmente, entre si. A segunda dificuldade, diz respeito aos 3 anos, que só são realmente testados a partir dos confrontos contra os animais de 4 anos.

Isso significa, que produtos de 3 anos só obtêm “ratings” mais altos, quando são capazes de competir em igualdade de condição contra os melhores da geração precedente.

. O cavalo–âncora – o terceiro conceito, ou terceiro critério de avaliação, diz respeito à escolha do chamado cavalo–âncora (em inglês, “link–horse”). “Link–horse” é todo competidor – desde que genuíno e consistente – que corre, invariavelmente, tudo o que é capaz, não importam as circunstâncias do momento (hipódromo, estado da pista, etc. etc.).

Exemplo: o “link–horse” utilizado para confirmar o “rating” de Sea The Stars, foi Conduit, pelo fato de ser um dos animais mais consistentes a ter–se medido contra o craque irlandês da família Tsui.

A grande característica de Sea The Stars – a de decidir uma corrida em algumas rápidas passadas –, leia–se, a capacidade de trocar de marcha, foi devidamente avaliada a partir das distâncias no disco entre ele e Conduit, visando confirmar seu “rating” ao final da campanha nas pistas.

Na eventual ausência de  Conduit, Youmzain (três vezes segundo nos três últimos Prix de l’Arc disputados), ou mesmo a égua Dar Re Mi, poderiam muito bem ter servido de “link–horse” para testar os méritos individuais de Sea The Stars.

. Evolução gradual – a idéia por trás desse conceito, é de que “ratings” não são obtidos com base apenas em algumas poucas performances. E não oscilam com freqüência, mesmo na hipótese de derrotas (a que qualquer cavalo está sujeito).

Portanto, o quarto conceito corresponde ao aforisma “quando mais se expõe ao confronto, mais se sabe a respeito das reais qualidades de um cavalo.”

Por outras palavras, o processo de avaliação e reavaliação dos “ratings” é sempre mais lento do que se possa imaginar. Às vezes, se prolonga por mais de duas (ou três) temporadas. Assim, a variação dos índices teóricos de determinado animal, ano a ano, em termos de quilos (ou de libras–peso), tende a oscilar numa escala menor do que, eventualmente, supõem nossas conclusões (ou nossas ansiedades...) a respeito de suas qualidades como corredor.

Eis aí, consideradas as provas de Grupo e “Listed Racings” da programação clássica, os quatro conceitos básicos de construção de um “rating” individual.

1.1. “Ratings” europeus e seus correspondentes na América do Sul (em libras–peso)        

Que condições o turfe do hemisfério norte, e a Federação Internacional das Autoridades Hípicas (FIAH), exigem para que uma prova seja efetivamente considerada como de Grupo?

A resposta é simples: uma prova é considerada de Grupo (I, II, ou III) quando mantém a média de seu “rating” anual num período de três anos seguidos. E o que vem a ser o “rating” anual de uma prova de Grupo? A média dos “ratings” individuais dos quatro primeiros animais no disco de chegada.

Em resumo: o que define a classificação de prova de Grupo em termos do hemisfério norte, não é o valor monetário de sua premiação; tampouco, as distâncias a serem percorridas; menos ainda, o estado da pista, ou a capacidade técnica dos jóqueis que a disputam.

O fator que confirma, promove, ou rebaixa, a classificação de uma prova como sendo de Grupo I, II ou III, é a qualidade dos animais que a disputam durante três anos seguidos, qualidade esta medida a partir da média dos “ratings” individuais dos quatro primeiros colocados.

Para efeito de comparação, hoje os parâmetros internacionais (“benchmarks”) das provas de Grupo são os seguintes (em libras–peso):

Grupo I na Europa, EUA, e Ásia
3 anos e mais idade: 115 libras–peso (110 para as fêmeas)
2 anos: 110 libras–peso (105 para as fêmeas)

Grupo II
3 anos e mais idade: 110 libras–peso (105 para as fêmeas)
2 anos: 105 libras–peso (100 para as fêmeas)

Grupo III
3 anos e mais idade: 105 libras–peso (100 para as fêmeas)
2 anos: 100 libras–peso (95 para as fêmeas)

Quando as provas em questão não atingem tais “ratings” anuais num período de três anos, as sociedades promotoras de corridas dos países membros são instadas pelos organismos internacionais a rever sua classificação no âmbito das respectivas programações clássicas. Para menos, ou para mais, dependendo, repita–se, da categoria dos animais que delas participam.

II

Comentário

A Austrália e a Nova Zelândia, seja pelo fato de sua posição geográfica peculiar, seja pelas características climáticas a que estão submetidas, seja até mesmo pela importância de seu turfe no contexto mundial, estabeleceram “ratings” anuais para suas provas de Grupo (note–se: devidamente aceitos pela Federação Internacional) ligeiramente diferentes.

Por outras palavras, suavizaram as exigências que vigoram para a classificação das provas de Grupo no turfe do hemisfério norte.

Assim, no turfe australiano e neo–zelandês há um desconto em torno de 5 libras–peso, visando confirmar a classificação de tais provas no âmbito das respectivas programações clássicas.

Como se vê abaixo:

Grupo I na Austrália e Nova Zelândia
3 anos e mais idade: 110 libras–peso (106 para as fêmeas)
2 anos: 105 libras–peso (101 para as fêmeas)

Grupo II
3 anos e mais idade: 105 libras–peso (101 para as fêmeas)
2 anos: 100 libras–peso (96 para as fêmeas)

Grupo III
3 anos e mais idade: 100 libras–peso (96 para as fêmeas)
2 anos: 95 libras–peso (91 para as fêmeas)

É esta a classificação que será adotada, a partir de agora [maio de 2010] para os animais e provas de Grupo dos calendários sul–americanos, como adiante veremos em maior detalhe.

III – AS DECISÕES DA OSAF NO ENCONTRO DE BUENOS AIRES

Até o presente momento, os critérios de formação dos “ratings” dos cavalos sul–americanos não obedeciam a um modelo uniforme, que permitisse ao continente se fazer melhor representar junto às autoridades do turfe mundial (com todas as conseqüências técnicas e econômicas daí resultantes). Não importa aqui, examinar motivos e razões que informaram, até agora, este comportamento.

Assim, como forma de: (1) padronizar a confecção dos “ratings” dos animais sul–americanos; (2) estabelecer a periodicidade mínima de sua apresentação; (3) debater as avaliações adotadas pelos “handicappers” de cada sociedade membro; e (4) tentar dar peso e proeminência internacional aos “ratings” do continente sul–americano, a reunião da OSAF adotou as seguintes deliberações:

1ª) Com efeito a partir de junho de 2010, os “ratings” individuais (prévios e posteriores às corridas)  dos cavalos que disputam a programação clássica de cada país–membro serão levantados mensalmente pelos “handicappers” locais;

2ª) Fica instituído o “Comitê Regional da OSAF de Ratings e Corridas de Grupo”, reconhecido pela Federação Internacional, que se reunirá periodicamente para harmonizar e unificar os critérios de avaliação dos corredores do continente;

3ª) Passa a ser adotado o sistema australiano de pontos de referência (“benchmarks”) para orientar a construção dos “ratings” individuais dos animais, e, em conseqüência, a categorização das provas do calendário clássico de cada país–membro, conforme acima mencionado.

Comentário

A partir das três decisões da OSAF, parece imperioso que o Brasil, bem assim as autoridades que respondem pelo turfe nacional, passem a dar a devida importância e a valorizar o trabalho de elaboração dos “ratings” de nossos animais clássicos.

Diante da atual precariedade das sociedades promotoras de corridas de cavalo entre nós (leia–se, os Jockeys Clubes), aliada à ausência de uma estrutura técnica que permita dar suporte a iniciativas dessa natureza, e, mais ainda, face à inexistência de um modelo que garanta independência técnica ao turfe do país, não parece haver saída para nós, senão concentrar no Grupo de Ratings da ABCPCC a tarefa em questão.

Não se sensibilizar com a importância desse tema, é correr o intolerável risco de assistirmos, impotentes, ao progressivo rebaixamento – ou mesmo a extinção – de várias de nossas provas de Grupo, a partir de 2015.

De há muito, o turfe mundial deixou de ser simples lazer para transformar–se em indústria.

Como tal, é lícito observar que, ou nos preparamos tecnicamente para fazê–lo funcionar, e nos apresentamos como respeitado membro das organizações internacionais que o supervisionam, ou abdicamos de pretender ter voz na defesa dos melhores interesses da criação e das corridas de cavalo no país. Com todos os graves prejuízos materiais daí decorrentes.

ABCPCC
Rio de Janeiro
Junho de 2010



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