Um turfista veterano, Said Nasser, me perguntou, hoje de manhã, em frente à banca de jornal na Rua Miguel Lemos, em Copacabana, onde nós dois comprávamos a Revista Turfe Brasil, a razão de tantas alterações de montaria nas corridas da Gávea nos últimos tempos. O sábio e estudioso árabe começou a perceber, ao fazer suas acumuladas e apostas especiais, a enorme incidência de trocas de jóqueis durante as corridas. Segundo ele, em alguns casos, de forma repetitiva para determinados jóqueis. Perspicaz e astucioso, Said passou a se resguardar com alguns pilotos de ponta, quase sempre substituídos, e nem sempre por jóqueis à altura de sua categoria e sim, por colegas que estavam em disponibilidade naquele momento.
Said, um árabe dos mais observadores, começou a notar que, na maioria dos casos de substituição, os jóqueis eram aqueles que mais sofriam com a balança. Depois de lhe informar que se o jóquei passar dois quilos do peso do programa é impedido de montar e cumpre suspensão de uma semana, Said sorriu de forma irônica e sorrateira e me perguntou. “Então é por isso que eles têm queda de pressão e passam mal?”. Diplomaticamente, tentei sair pela tangente. Argumentei que a vida de jóquei é muito sacrificada e que lutar contra a balança não é nada fácil. Mas Said voltou à carga.
“Sou turfista desde os tempos de Farwell e de Escorial. Nunca vi tanta benevolência com os jóqueis. Os caras ganham boas comissões e treinam cavalos das 5 horas às 9 horas da manhã. Depois, têm o dia livre. Por que o Ricardinho nunca teve dor de barriga, dor de dente ou queda de pressão? Por acaso ele é algum super–herói? É claro que não. Ele apenas é um atleta com atitude profissional. Não espera por benefícios ou favorecimentos. Ele sabe que o seu sustento vem dos cavalos e das corridas e, por isso, sempre cumpre o regulamento. Às vezes, tenho vontade de me mudar para a Argentina só para acompanhar sua jornada”, exagerou Said Nasser.
A conversa de cerca de dez minutos me fez lembrar um caso incrível dos tempos em que fui agente de Jorge Ricardo, o atual recordista mundial de vitórias. Ricardinho sofreu uma queda sem maiores consequências para o corpo, mas ficou com a visão dobrada, ou seja, via as coisas com a imagem duplicada. Era segunda–feira, dia de assinatura de montarias, e ele procurou o doutor Perrota, médico de plantão no Serviço Médico do Jockey Club Brasileiro. Perrota lhe explicou que, algumas vezes, isso acontecia depois de uma pancada forte, mas que não ficasse apavorado pois havia uns óculos especiais capazes de corrigir a imagem até que o problema voltasse ao normal. Ricardo nada me contou e assinei compromissos de montaria para as corridas da semana seguinte. Sexta, domingo e segunda no Rio, sábado em São Paulo, onde ele montaria Evil Knievel numa prova de Grupo.
De noite, no restaurante da Tribuna Social, eu assistia às corridas ao lado do meu saudoso amigo Mauro de Faria. Ricardo havia sido liberado de montar. De repente, entrou no restaurante com a mão no olho direito. Não pude deixar de sorrir e lhe perguntei se estava brincando de pirata. Irrequieto, ele explicou. “Com a mão tapando esse olho estou te vendo normalmente. Mas se retirar a mão, eu vejo dois de você. Aliás, vejo duas mesas, dois pratos, duas facas e dois garfos também. A minha visão está duplicada”, esclareceu. Sem perder o bom humor ainda brincou. “Os páreos de dez cavalos vão ser de 20 para mim. Então, em vez de nove rivais eu vou ter 18”, brincou na tentativa de minimizar o grave problema.
Tomei um tremendo susto e lhe expliquei que havia assinado montarias em quase todos os páreos da Gávea e pelo menos em umas oito provas de Cidade Jardim. Era preciso ligar para todo mundo e desfazer os compromissos. Ricardinho, já com os programas do Rio e de São Paulo na mão respondeu. “Nada disso, vou montar assim mesmo. Já marquei consulta numa clínica e deixei de sobreaviso o pessoal da ótica lá perto de casa. O doutor Perrota me indicou um especialista. Assim que eu saí do exame com a receita, os caras da ótica já se mobilizaram para fazer o tal óculos, que deve ficar pronto amanhã mesmo. Vou gastar uma grana, mas o cavalo é uma tremenda barbada lá em São Paulo e vai valer a pena o investimento”, sacramentou.
Eu conhecia o Ricardinho há muito tempo. Sabia da sua obstinação. Tinha pouco tempo como seu agente, mas longos anos de amizade. Ele já tinha montado com o dedo do pé quebrado e com duas costelas trincadas. Esse último problema ele amenizou apertando o colete protetor para tentar diminuir a dor. O homem, enfim, era um tarado pela profissão. Mas, com esse problema de visão dobrada, achei que ele tinha ficado maluco. Coloquei–me em seu lugar e pensei: “Se fosse eu, estaria apavorado. Só me preocuparia em recuperar a visão. Nem conseguiria pensar em outra coisa. Muito menos em montar um cavalo a mais de 60 quilômetros por hora”, pensei.
Jorge Ricardo comprou o tal óculos especial. Foi o primeiro jóquei no mundo a montar com seis olhos. Os seus dois normais, com a visão dobrada, os outros dois dos óculos que todos os jóqueis utilizam para proteger a vista dos torrões de areia e de outros detritos da pista e, finalmente, os outros dois dos óculos especiais. Os jóqueis adversários olhavam surpresos para ele no padoque. Parecia um extraterrestre. Alguns riam, outros cochichavam e tinha também os que zombavam. “Esse cara está ficando cego. Agora eu quero ver se ele é bom mesmo. Deve estar com algum problema nos olhos, pois só um maluco pode montar assim”, comentavam, enquanto faziam piadas no alinhamento. O resumo da história foram 13 vitórias, nove na Gávea e quatro em Cidade Jardim, incluindo o clássico com Evil Knievel.
Ao me lembrar desse episódio, que pode se comprovado pelo doutor Perrota, tive que dar um pouco de razão a Said Nasser. Por essas e outras, Ricardinho é o jóquei mais vencedor do mundo. Jamais deixou de cumprir qualquer compromisso de montaria por motivo torpe.
por Paulo Gama