Em 1984, o Haras Santa Ana do Rio Grande, através de uma geração de ouro oriunda dos campos de criação da Fazenda Mondesir, em Bagé, brilhou intensamente nas pistas nacionais Numa safra de éguas de enorme qualidade como Asola, Anis e Anamour, entre outras, a tordilha Anilité, filha de St. Chad e Menga, por Waldmeister, teve o atrevimento de ganhar o Grande Prêmio Brasil. Eram tempos de grande divulgação das coisas do turfe. O espaço nos jornais eram generosos e a cobertura na televisão e nas rádios também.
Anilité tinha preparo de Alcides Morales, o popular Parrudo, que agora, 28 anos depois, ainda possui aquela incomparável classe de grande treinador. Anilité havia disputado a Tríplice Coroa das potrancas com Asola, companheira de cocheira. José Carlos Fragoso Pires, titular do Haras Santa Ana do Rio Grande, não quis tomar partido entre as duas craques. Preferiu perder a Tríplice Coroa a favorecer qualquer uma delas. E foi o que aconteceu. Anilité ganhou o GP Henrique Possolo para cima de Asola, que acabou por levar a melhor no GP Diana e no GP Marciano de Aguiar Moreira.
No Grande Prêmio Brasil de 1984, a tordilha Anilité estava algo abandonada pelos carreiristas. Era uma prova equilibrada, com cavalos de muita qualidade, entre eles o favorito Old Master, do Haras Santa Maria de Araras, que acabara de se sagrar tríplice Coroado. As outras representantes da ala feminina eram Fantasie, dos Haras São José e Expedictus, e Bretagne, da Fazenda Mondesir. Anilité levou a melhor numa atropelada sensacional, com Full Love em segundo. Fantasie terminou em terceiro, Bretagne em quarto (beneficiada pela desclassificação de Old Master, que completou o placar). Ou seja, dos cinco primeiros colocados, três éguas extraordinárias marcaram presença no marcador.
Quatro dias antes da realização da prova, este jornalista havia feito uma visita ao Haras Santa Ana do Rio Grande, em Bagé, a convite do titular da coudelaria, como agradecimento a uma reportagem publicada no Jornal do Brasil sobre recorde de vitórias na estatística de proprietários batido pelo velocista Vida Mansa. Passei um dia inesquecível no haras, acompanhado pelo saudoso veterinário Jorge Morgado, pelo também veterinário José Roberto Taranto e pelo então estagiário, Flávio Geo Siqueira. Conheci o pavilhão das matrizes, dos reprodutores e até o túmulo de Waldmeister. Como a minha estrela sempre foi do tamanho de um bonde, Anilité ganhou o páreo no domingo e pude escrever uma matéria exclusiva, de página inteira, na segunda–feira, sobre o fantástico campo de criação adquirido por Fragoso Pires junto à família Peixoto de Castro.
O gaúcho Adail Oliveira, jóquei de Anilité, era frio e calculista no percurso. Nos trabalhos matinais, na Gávea, ficava mais de 20 minutos na raia com Anilité. Sabia de suas qualidades e tinha enorme carinho por ela. Subia a reta final ao contrário e parava na altura dos 500 metros finais. Deixava que a tordilha olhasse a paisagem e depois de uns dois minutos galopava lentamente em direção ao disco de chegada. Os exercícios fortes eram quase sempre partidas de 800 metros. Mas Anilité galopava muito na raia pequena para pegar fôlego. O ritual de preparação da craque seguiu assim, combinando a paciência de Adail Oliveira e o feeling desse maravilhoso treinador que é Alcides Morales.
A tática de corrida elaborada pelo staff do Haras Santa Ana do Rio Grande foi perfeita. Adail deixou Anilité correr nas últimas posições e, com isso, evitou os prejuízos de uma das mais acidentadas retas finais de GP Brasil de todos os tempos. Old Master, com Francisco Pereira Filho, prejudicou os competidores na largada e repetiu a dose em toda a reta final. Full Love foi prejudicado, Fantasie e Bretagne também. Adail assistiu a toda confusão de camarote. Começou a progredir com a tordilha nos 800metros. Arrancou sua conduzida por fora da turbulência do trânsito à sua frente e passou, sem luta, para obter o triunfo. O treinamento havia dado certo. O fôlego dos galopes diários permitiu à craque seguir o ritmo forte do páreo. E as partidas de 800 metros, tantas vezes repetidas nos matinais, funcionaram no dia da corrida. Anilité só precisou acelerar 800 metros para chegar à glória. No mesmo ritmo que já estava condicionada pelos fantásticos profissionais Alcides Morales e Adail Oliveira. No próximo domingo, cuidado com Hunka Hunka, a única égua no campo do GP Brasil de 2012.
por Paulo Gama