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Julho | 2012

“Só de Raiva”, Vagner Borges levanta a estatística, por Paulo Gama
01/07/2012 - 13h08min

Gerson Martins

Vagner Borges é o campeão da estatística 2011/2012

A vitória do alazão Só de Raiva, do Stud Gargamel, no penúltimo páreo do sábado, dia 30 de junho, sacramentou a primeira estatística da carreira de Vagner Borges. Poucas vezes o destino foi tão irônico. Só de Raiva, com o seu nome curioso para um cavalo de corrida, simbolizou bem a via crucis enfrentada pelo jovem gaúcho, de 19 anos, para escrever o seu nome na história. Agora, menino tímido de Rio Grande, interior do Rio Grande do Sul faz parte da gloriosa galeria de vencedores da estatística carioca, ao lado de Jorge Ricardo, Luís Rigoni, Juvenal Machado da Silva, Manoel Bezerra da Silva, e, mais recentemente Marcos Mazini, Dalto Duarte, e tantos outros campeões.

Vagner Borges viveu longas noites de incerteza no dormitório da escola de aprendizes do Jockey Club Brasileiro. Chegou ao Rio de Janeiro com apenas 17 anos e a escuridão das madrugadas pareciam não ter fim. Estava longe de sua mãe, dos irmãos, do frio aconchegante dos pampas gaúchos, do cheiro forte do mato e do inseparável chimarrão. As lágrimas rolavam abundantes pelo rosto, as escondidas dos outros alunos, na penumbra da escolinha iluminada apenas pelas luzes dos gigantes dos arranha–céus da cidade grande. Havia ainda, o calor sufocante e desconhecido, os hábitos estranhos das pessoas a sua volta, as quedas que provocaram fraturas, a hipocrisia de alguns e a falsidade de outros. Um mundo muito diferente daquele em que foi criado lá no sul.

Mais de mil vezes pensou em desistir. Largar tudo e correr para tardes de conversa fiada no interior, as canchas retas, os cavalos penqueiros e a pista do prado de Pelotas, tão conhecida dele desde criança. Mas o seu talento para montar cavalos era a maior esperança de uma vida melhor para a sua família. Resistiu à tentação de ir embora. Sufocou no peito aquela saudade do cotidiano no interior. Com a ajuda do supervisor da escola, Paulo Mileno, que por capricho do destino virou seu rival agora, por ser agente de montarias de Dalto Duarte, superou a tentação de largar a profissão. Havia os cavalos e as corridas. Nos treinos matinais e nos páreos da Gávea ele sentia–se a vontade.

Concentrou–se nos aprontos e nas corridas e procurou uma melhor adaptação as diferenças culturais de sua nova vida. Íntimo dos puros–sangues desde os 12 anos, quando começou a competir nas canchas retas de todo interior até a fronteira com o Uruguai, procurou se concentrar no serviço e esquecer a saudade de Rio Grande. A timidez da sua natureza o deixou em apuros algumas vezes. As críticas dos treinadores e a exigência do mundo do turfe muitas vezes o irritaram. Sentia aquele ímpeto de responder, mas sempre preferia sair de fininho. Baixava a cabeça e pedia desculpas com a promessa de tentar melhorar.

Só de Raiva, Vagner Borges e o seu agente de montarias que aqui escreve gostariam de agradecer a um mundo de gente. Em primeiro lugar aos cavalos de corridas. Afinal nós dois sustentamos as nossas famílias graças à existência deles. Depois aos parentes e aos amigos por compartilhar as alegrias das vitórias e as incertezas dos momentos difíceis. Ficamos com medo de citar alguns nomes por que com certeza vamos esquecer outros igualmente importantes. Mas não podemos deixar de ressaltar Álvaro Novis, titular do Stud Alvarenga, que acolheu Vagner Borges como se fosse um filho. Teve a sensibilidade de vislumbrar o seu talento e o contratou ainda aprendiz. Depois de Vagner passar a categoria de jóquei disponibilizou a suíte de sua cocheira para que morasse sem qualquer despesa. Foi também uma maneira estratégica de não o deixar afastado do local de trabalho.

Gostaríamos de agradecer a todos os treinadores da Gávea que ofereceram montarias ao campeão da estatística. Mas alguns merecem uma referência pessoal. Dulcino Guignoni nos deu preferência por toda a temporada. Foi o campeão entre os treinadores e por isso funcionou como a mola mestra do nosso triunfo. Júlio César Sampaio foi outro que municiou Borges com excelentes cavalos. Aborreceu–se com ele no último mês devido a uma resposta atravessada do garoto, mas não seremos ingratos ao ponto de esquecer as boas montarias que nos deu durante todo o ano hípico. José Luiz Pedrosa Júnior foi peça fundamental com todo o seu talento. Seria hipocrisia deixar de citar o seu nome por causa das punições sofridas. Alcides Morales, Leo Cury, Adriano Lobo, Venâncio Nahid, Vítor Paim, Jairo Borges, Roberto Morgado Netto, Carlos Henrique Coutinho, Leo Reis, José Ferreira Reis, Givanildo Duarte, Darci Minetto, Manoel Renato Lopes, Álvaro Castilho, Luís Henrique Vieira, Lênio Roberto Vieira, Breno Piovesan, Jaime Moniz Aragão, Cláudio Peixoto Almeida, César Gustavo Netto, Marcus Vinicius Lanza (PR) e tantos outros. E também o nosso guru, Jorge Ricardo, que torceu pela gente lá de Buenos Aires.

Para a turma que torceu contra esperamos vocês para uma revanche a partir de hoje à tarde. Numa boa. Podem ficar tranquilos que não vamos apelar. Não é o nosso estilo. Mas para ganhar da nossa dupla tem que trabalhar duro, gostar do que faz e ter atitudes transparentes. A gente ganha na moral. Sem apelações ou tráfico de influência. Parabéns ao Dalto Duarte e ao seu agente Paulo Mileno. Correram atrás e venderam caro a derrota. Aliás, os culpados por ela não foram vocês. Mas havia alguns membros da sua torcida que não acreditam em Deus. E por acaso, neste último final de semana de junho, o lá de cima estava de plantão.



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