A realidade é dura, mas a
gente precisa encarar. Não adianta procurar nos programas oficiais o nome de Jorge Ricardo. Ele não estará mais
lá. Não podemos mais, nas Superpules ou na Quinexata, colocar o Ricardo e alguns. Os 30 anos de Gávea são páginas
viradas na vida do maior ídolo do turfe brasileiro, que começa esta semana um novo desafio.
Deixar a
cidade e o hipódromo onde sempre foi o número um e praticamente recomeçar em outro país, onde também existem
ídolos, significa galgar, passo a passo, uma nova trajetória, mesmo se tratando de um campeão e, no caso de
Ricardo, do maior ganhador do mundo, em atividade.
Lembrando o saudoso poeta Drummond e, trazendo para o
presente um de seus mais memoráveis trabalhos, podemos afirmar que “No meio do caminho ‘tem’ uma pedra. ‘Tem’ uma
pedra no meio do caminho”.
E esta pedra tem nacionalidade e nome: ela é uruguaia e se chama Pablo
Falero. Tomando por base excelente matéria de Carlos Delfino, publicada no Clarín, vamos conhecer um pouco da
história deste craque do turfe, ou o “Ricardo” das pistas argentinas.
Aos 39 anos, Pablo
Falero tem um cartel de fazer inveja. Tudo começou no pequeno Hipódromo de Colônia, no interior do
Uruguai.
Pablo Gustavo Falero, na infância, jamais pensara em ser jóquei ou tinha noção do que
eram as corridas de cavalo. Até que seu pai foi convidado para gerenciar um stud no Hipódromo Real de San Carlos
de Colônia, no interior do Uruguai. Na oportunidade, aos 11 anos, Falero passou a vivenciar o turfe, a observar as
corridas e os pilotos. Teve despertada a paixão pelos cavalos e não foi difícil descobrir seu talento e vocação
para o ofício.
A estréia aconteceu aos 14 anos, exatamente em 1981, montando em um páreo
destinado a aprendizes.
Em Colônia não havia uma escola de preparação de jóqueis. De tanto
observar os jóqueis em ação, inclusive, já galopando e trabalhando corredores, o jovem Falero conseguiu a
matrícula de aprendiz. Estreou numa prova apenas para aprendizes, no dia 6 de dezembro de 1981. Conseguiu a
segunda colocação, montando o cavalo Jorgito. A primeira vitória veio, no mesmo mês, no dorso da égua Unica.
Durante cinco anos ganhou muitas corridas e passou a montar em Maroñas, o principal hipódromo uruguaio,
tornando–se o ídolo local. Chegou a montar em provas importantes na Argentina e logo conseguiu vencer um clássico
com o cavalo uruguaio Topacio. Nos cinco anos que atuou em Maroñas, foi campeão de todas as
estatísticas.
A transferência definitiva para o turfe argentino foi em
1991.
Devido ao grande sucesso no turfe uruguaio, Falero foi convidado pelo proprietário
Armando Martineghi, titular do Stud Tori, para se radicar na Argentina. Depois de conversar com a família e
estudar bem o contrato oferecido, aceitou e, em 1991, seguiu para Buenos Aires a fim de continuar a trajetória de
sucesso de sua carreira.
Um início difícil e a consagração pouco tempo
depois.
Na Argentina, Falero ficou um mês sem vencer e começou a imaginar o quão seria difícil a
nova vida do outro lado do Rio da Plata. Sua chegada acontecera em setembro de 91 e a primeira vitória só ocorreu
no fim de outubro, no Hipódromo de La Plata. No mês seguinte, os êxitos começaram em Palermo e também em San
Isidro. E, no início de dezembro, houve a consagração: Falero venceu o GP Carlos Pellegrini com Potrillon. No ano
seguinte, repetiu a dose com Potri Pe. Somente oito anos depois, em 2000, conquistou seu terceiro Pellegrini, com
Guarachero.
A homenagem recente por ter ultrapassado as cinco mil vitórias emocionou o
piloto.
Na festa do último dia 1° de maio, Falero foi homenageado e recebeu uma placa comemorativa
por ter ultrapassado cinco mil vitórias na carreira. Sem dúvida, um momento de emoção, assim como nas sete vezes
em que conquistou o Prêmio Olympia de Plata, oferecido pela crônica especializada, como destaque de várias
temporadas.
Um pai de família, dedicado, que sai muito pouco e adora
cozinhar.
Falero se casou muito cedo com Patrícia Yanet e tem três filhos: Vanessa, 22 anos,
Paula, 16, e Pablo, 11. Assiste muito pouco televisão, mas não dispensa uma boa comédia. Adora cozinhar e, quando
sobra tempo, passa muito tempo preparando refeições, elogiadas pela família. Gosta de fazer compras no
supermercado e fica contente quando é reconhecido nas ruas. Afirma que o açougueiro lhe prepara as melhores carnes
e, certa vez, confidenciou que sonhara em ser jóquei.
A importância da forma física é vital para
o sucesso de um jóquei, segundo o vitorioso profissional.
“Graças a Deus nunca tive problemas
com peso. Mantenho os 54 quilos com tranqüilidade, mas cuido da alimentação e, sempre que não estou montando,
procuro me exercitar, principalmente correndo”, diz Falero.
A vida familiar, segundo o uruguaio,
é fundamental para o sucesso em qualquer profissão. O apoio nas horas difíceis é muito
importante.
O piloto relembra que em 1998 sofreu sério acidente, que afetou a coluna cervical,
ficando fora de atividade por nove meses. O apoio da família, segundo ele, foi fundamental para que conseguisse a
recuperação e voltasse a brilhar nas pistas.
A fidelidade a treinadores e proprietários é uma
tônica na carreira deste grande ídolo.
Falero faz questão de ser fiel a treinadores e
proprietários que sempre o apoiaram. Muitas vezes, são–lhe oferecidas várias montarias em um mesmo páreo, mas
afirma que nem sempre dá preferência à que tem mais chance. Gosta de lembrar de quem esteve ao seu lado em
momentos difíceis e, mesmo sabendo que existem melhores oportunidades na prova, assina compromissos com aqueles a
quem deve muito. Segundo ele, as corridas são disputadas sete dias na semana e se perder um páreo hoje, certamente
ganhará outro amanhã.
As marcas da vitoriosa carreira no turfe argentino.
Além dos
três Pellegrinis, Falero é o recordista de vitórias numa só temporada. Somando os três principais hipódromos,
conquistou 414 primeiros lugares em 2005. É também o jóquei com maior número de êxitos em uma só reunião. Por duas
vezes, em San Isidro, em 2003, ganhou oito páreos.
Os principais
concorrentes.
Falero lembra que quando chegou ao turfe argentino, Jorge Valdivieso e Jacinto
Herrera eram os jóqueis de maior sucesso. Diz ser bom amigo de Valdivieso (maior ídolo local), mas teve alguns
atropelos com Herrera, apesar de respeitá–lo como profissional. Quanto a Jorge Ricardo, que acaba de se
transferir, conta tê–lo conhecido no Uruguai e admira a simplicidade do brasileiro, que, mesmo já consagrado,
participou normalmente de uma reunião no Hipódromo de Las Piedras, no interior uruguaio. Até a reunião de hoje, em
Palermo, Falero estava a 67 vitórias do recorde de Jorge Valdivieso, maior ganhador do turfe argentino, que tem
4.508 êxitos, contra 4.441 do uruguaio.
Um antigo contrato.
Desde 1995, Pablo
Falero tem contrato com o Haras Vacación e afirma que é uma ligação muito boa e definitiva. O piloto afirma que,
certamente, quando parar de montar, pretende de alguma forma continuar trabalhando para a coudelaria.
Este
é o perfil de Pablo Gustavo Falero, 39 anos, um expressivo nome do turfe sul–americano, que construiu uma carreira
vitoriosa na Argentina. Com ele, primeiramente, nosso campeão Jorge Ricardo deverá travar um “Duelo de Gigantes”
e, se o saudoso e grande poeta Carlos Drummond de Andrade estivesse ainda entre nós, certamente diria a Ricardo
que: “No meio do caminho ‘tem’ um Falero, ‘tem’ um Falero no meio do caminho”.
por
Marco Aurélio Ribeiro
fontes: Carlos Delfino/La Nación e site
Los Andes On Line.