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Janeiro | 2012

Jogadores profissionais e o Cânter, por Sergio Barcellos
02/01/2012 - 10h41min

Phil Bull, criador do “Timeform” (1948), foi o maior e mais bem sucedido jogador profissional do turfe inglês. Consta que tenha posto no bolso algo como £ 4,4 milhões entre os anos de 1943 a 1975, e algumas casas famosas chegaram mesmo a proibir seus operadores de aceitar apostas dele.

Sobre o cânter, diz Phil Bull:

“O cânter diferencia os cavalos que caminham bem (“good walkers”), dos que galopam bem (“good movers”). Um bom cânter – desses que atraem o dinheiro do apostador –, pressupõe um animal equilibrado, disciplinado (“on the bit”), orelhas posicionadas para frente, movendo–se com fluidez (principalmente no instante em que todo o peso dos ombros está sendo suportado em apenas uma das mãos), e que diminui seu ritmo assim que solicitado pelo jóquei.”

E prossegue:

“Desconfie dos galopes desabridos, dos cavalos incontroláveis, das cabeças tortas pela pressão das rédeas, e desconfie, ainda mais, daqueles que disparam no cânter. Ou, ao contrário, dos que têm de ser incentivados pelo chicote para iniciá–lo. Nestes casos, diminua a aposta. Ou simplesmente a cancele.”

Em resumo, Phil Bull sugeria que os apostadores vissem o cânter sob três óticas. Como se segue.

Os três F´s

Um bom analista de cânter tem que ter presente três F’s quando os animais galopam à sua frente: Forma (ou fitness, em inglês), Foco (no sentido de atenção) e Fluidez (referida esta, ao galope do cavalo).

A Forma de um cavalo de corrida se expressa, antes de tudo, no estado de seu pelo. Pelos opacos, por exemplo, principalmente no verão, são um péssimo indicador. Mas não é só o pelo que indica uma boa forma: a “atitude” no momento da disputa, e a quantidade certa de graxa também devem ser levadas em consideração.

Animais muito acima do peso demonstram que ainda não estão “fit” para correr (principalmente quando se trata de juvenis). E sobre “atitude”, esta é perfeitamente distinguível observando–se o galope do animal. Cavalos sem “atitude” geralmente estão “off the bit” no cânter.

Para Tesio, forma é “Uno estato físico morale, in cui un essere vivente puó dare il massimo rendimento.” E completa: “Questo stato di grazia è molto instabile.”

Forma é das coisas mais difíceis de ser conseguida em um cavalo de corrida – e a mais fácil de ser rapidamente perdida (ou ultrapassada, o que é pior).

Colocar um cavalo em plena forma para correr determinada prova, demanda conhecimento perfeito do animal e do ofício de treinar. Mantê–lo nesse estado por um período longo de tempo, porém, implica as virtudes da paciência e da observação somente ao alcance dos mestres da profissão.   

Sobre Foco, descobre–se se um cavalo está mobilizado para a disputa da pista, examinando os movimentos de suas orelhas durante o cânter (como se sabe, as orelhas revelam o estado de ânimo do animal, e esses estados de ânimo podem variar muito, expressando nervosismo, tensão,  agressividade, ou simples ausência, leia–se, a tradicional “falta de foco”).

É um erro imaginar que os cavalos estão sempre atentos (“focados”) na missão para a qual foram criados, principalmente os potros (em outras palavras, desânimo e tédio não são apanágio apenas do homem).

Nem sempre eles estão. Pode acontecer que em determinados dias, alguns animais decidam permanecer alheios e desinteressados, e resolvam se divertir prestando atenção a tudo ao seu redor (e isso inclui as árvores, as tribunas, manchas na pista, determinados ruídos, e até as nuvens no céu), menos a corrida. O cânter é sempre uma boa indicação do que pode acontecer com eles, no momento em que os boxes de largada se abrem.

Sobre Fluidez, o que se tenta descobrir num cânter é se há dor ou não. Principalmente, quando se observa os membros anteriores durante o galope.

Dado que os eqüinos se movem a partir do apoio duplo sobre as diagonais, qualquer sinal de dor se expressa no modo como eles colocam os membros durante o galope, principalmente os anteriores (no jargão do turfe, se “defendem”). Galopes curtos, significando diagonais “presas”, sem fluidez, podem muito bem ser um sinal de dor. E isso não é bom para quem vai ter que competir dali a minutos.

Eis aí, em resumo, os detalhes fundamentais que qualquer apostador profissional observa em um cânter.

Mas isso só é realmente possível, quando o apostador está concentrado no desenrolar do cânter dos animais – e possui um binóculo para observar de perto todos seus movimentos e reações. Ou simplesmente encosta na cerca e se obriga a vê–los passar galopando, um a um. 

Querer ver cânter apenas através da TV, pode ser complicado. Mesmo porque, a TV às vezes “corta” o desenrolar de um cânter para mostrar o galope de um outro cavalo.

Para Phill Bull, ser jogador profissional neste esporte significa, antes de tudo, ir ao hipódromo e deter–se nos cavalos – e só eles –, seja no passeio do paddock, seja no cânter, seja na corrida.

Aliás, para ele, este é o único esporte em que é possível dispensar informações de terceiros, e desenvolver seu próprio raciocínio, observando atentamente os animais.

E esta é exatamente a suprema beleza do turfe, e do jogo em corridas de cavalo: poder formar seu próprio juízo a respeito.

Boa sorte da próxima vez!



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