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Novembro | 2011

Relatório do II Congresso da Indústria Hípica Americana, por Sergio Barcellos
26/11/2011 - 15h12min

Nota da redação: por especial deferência do presidente da ABCPCC, Dr Afonso Cesar Burlamaqui, o Raia Leve publica, a seguir, o relatório do representante daquela Associação, Dr Sergio Barcellos, no II Congresso da Indústria Hípica Americana, realizado nos dias 14 e 15 de novembro em Montevideo, Uruguai. Acreditamos que a matéria interessa a todos os turfistas e leitores do Raia Leve.

RELATÓRIO

II Congresso da Indústria Hípica Americana

Para:
Dr. Afonso Burlamaqui
DD Presidente da ABCPCC

De:
Sergio Barcellos

Senhor Presidente,

O relatório a seguir, resume as principais conclusões do “II Congreso de la Industria Hípica Americana”, que teve lugar nos dias 14 e 15 de novembro, nas dependências do Hipódromo de Maroñas, Montevideo, sob os auspícios da LARC – Latin America Racing Channel. Como se segue.

Introdução

Nos dias 14 e 15 de novembro, tiveram lugar, em Montevideo, as várias sessões do Congresso acima mencionado, patrocinado pelas seguintes entidades:

Hipódromo Argentino de Palermo SA, Loteria de La Província (Argentina), The Stronach Group, Churchill Downs Incorporated (EUA), AmTote International, Haras de La Pomme (Arg), Jockey Club Argentino, Club Hípico de Santiago, Hipódromo Chile, Hipódromo de Monterrico, Valparaiso Sport Club, Pimlico Racetrack, GBI Racing (Inglaterra e Irlanda), Racing Post Journal, SIS, Calder Casino & Race Course, Laurel Park Racetrack, Haras La Mission, Haras El Sheik, Haras Don Alfredo (Uruguai), Haras Firmamento, Haras Cuatro Piedras (Uruguai), NTRA (EUA), France Galop (França), OSAF, TRA, Keeneland Association, ESPN, Teledoce, e Revista Palermo Rosa.

O Congresso se dividiu em 12 sessões, debatidas por 43 expositores durante dois dias de sessões, que abordaram os seguintes temas:

Medicamentos; Processo Seletivo; Treinamento; o Hipódromo Argentino de Palermo SA; A integração da América do Sul ao mercado internacional; Imprensa Turfística (o desafio de se comunicar em um mundo hípico sem fronteiras); Integração internacional de apostas; O hipódromo de Churchill Downs (EUA); A convivência entre hipódromo e cassino; O Grupo Stronach; INTERNET e apostas hípicas; A France Galop (França); O papel do estado nas corridas de cavalo; Oaklawn Park (EUA); Empresários: uma visão da indústria hípica no mundo; O turfe uruguaio; e o balanço final do Congresso.

O balanço do primeiro dia de sessões foi feito pelo Sr. Hubert Monzat, CEO da France Galop; o do segundo dia, pelo Sr. Alexander Waldrop, presidente da National Thoroughbred Racing Association (NTRA), USA.

De todos os temas debatidos, ganham destaque os seguintes:

Sessão 1 – Medicamentos

Dada a evidente concentração do “pool genético” da raça ao longo dos últimos 100 anos, fato que exacerba a consangüinidade, o cavalo de corrida tende cada vez mais a fragilizar–se fisicamente.

Dos primeiros reprodutores berberes, árabes e turcomanos utilizados na formação do thoroughbred, um deles, Eclipse, se tornou responsável por mais de 90% dos ganhadores de seu tempo. Um século depois, Saint Simon repetiu a mesma dominância e seu alterego, o invicto Nearco (com 16 cruzamentos sobre Saint Simon até a sexta geração), é hoje responsável por 55% dos ganhadores das pattern races de nossos dias. O resto é Native Dancer. De Nearco e Native Dancer descendem mais de 90% dos animais clássicos do mundo moderno.

Por sua vez, sob o aspecto materno, as 43 famílias iniciais conhecidas com as “Royal Mares” se reduziram a menos de 30, o que, novamente, agrava os aspectos consangüíneos. Diante desta situação, parece inevitável preservar a sanidade dos animais sob pena de estarmos caminhando para criar uma raça de sangradores.

Esse processo, porém, pode ser estancado, seja impedindo que sua elite corra medicada, seja levando para a reprodução apenas aqueles indivíduos sabidamente sãos. Este é o conceito básico que está por trás das atuais regras de não–medicação para correr vigentes na grande maioria dos turfes do mundo desenvolvido (Europa, Ásia, Oceania, África do Sul, e parte da América do Sul).

Sessão 3 – Treinamento

Com a participação de renomados profissionais do treinamento, como Criquette Head Maareck (França), Carlos Etchechourry (Argentina), Roberto Bullrich (Argentina), Pablo Graña (Uruguai), as conclusões do painel podem ser melhor conhecidas através de alguns princípios enunciados pelos expositores. Como se segue.

“Treinar cavalos de corrida é, antes de tudo, procurar entendê–los. Se não conseguimos isso, tudo se torna muito mais difícil. Reconheço que para nós, franceses, que dispomos dos 250 hectares do centro de treinamento de Chantilly, é mais fácil e mais rápido entender um cavalo. Ainda assim, a melhor atitude para com eles, principalmente se potros, é munir–se de infinita paciência.” (Criquette Head)

“Jamais peço a um cavalo, algo que ele não possa me dar.” (Roberto Bullrich)

“Cavalos, quaisquer que eles sejam, são inteiramente diferentes entre si. Cada um é uma entidade em si mesmo. Aplicar um mesmo método de treinamento para todos, é o caminho do desastre.” (Carlos Etchechourry)

“Cavalos que sabidamente se empregam, não precisam de trabalho e aprontos fortes. Insistir nisso, é correr o risco de fazê–los sangrar. E, nesse caso, eles sangram por treinamento e não por qualquer outro motivo.” (Pablo Graña)

Todos, porém, concordam que é essencial aos Jockey Clubs programar semestralmente as corridas, ao invés de fazê–las mensalmente, como ocorre na maioria dos casos. Sem uma programação semestral, é difícil treinar com método e racionalidade um cavalo de corrida. Esta é a principal conclusão do painel.

Sessão 6 – Imprensa, o desafio de comunicar–se em um mundo hípico sem fronteiras.

A palestra principal foi dada pelo Sr. Kevin Moretti, editor do “Racing Post”, Inglaterra, e as conclusões são óbvias: não haverá imprensa turfística nos próximos anos, senão a virtual.

Notícias impressas estão condenadas ao desaparecimento, não só pelo alto custo que representam para qualquer empresa jornalística, como também, pela dificuldade de se atingir a todas as camadas de público que interessam ao esporte. Sem mencionar que a distribuição de matéria impressa se tornará, doravante, proibitiva em termos econômicos. Ponto. E mais não disse.

Sessão 7 – Integração internacional de apostas

Sob este título, leia–se, o simulcasting internacional. Entre os expositores estavam: o gerente de projetos internacionais do PMU, França; o presidente da Monarch, USA; o vice presidente de vendas do Singapore Turf Club, Singapura; e o CEO da At The Races, da Inglaterra. A conclusão do painel foi muito bem definida pelo Sr. Hubert Monzat, CEO da France Galop:

“Não existe a menor possibilidade de desenvolvimento de simulcastings internacionais de apostas sem uma palavra–chave que define qualquer projeto nessa área: reciprocidade. O simulcasting internacional só existe quando há 100% de reciprocidade entre os hipódromos e/ou países que participam desse processo. Simulcasting internacional é sempre uma via de duas mãos em matéria de apostas.”

Neste momento, no que respeita a América do Sul, a LARC já começou a mandar imagens das corridas na Argentina para a França e vice–versa. E os clubes de corridas nas duas pontas da operação se beneficiam de percentagens iguais sobre o volume de apostas realizado em cada uma delas. É o que se entende por reciprocidade.

Outro aspecto da questão, diz respeito à qualidade das imagens recebidas, que devem atender a critérios de excelência muito bem definidos, como: iluminação adequada da pista, perfeição técnica do televisionamento das corridas, obediência estrita aos horários de largada, padronização das regras de interferência na raia, etc. etc. Sem essas condições prévias, não há possibilidade de simulcasting internacional.

Sessão 4 (segundo dia) – INTERNET e as apostas hípicas

A palestra foi desenvolvida pelo Sr. Ron Lunievski, presidente da XpressBet, USA, e diz respeito aos avanços das apostas em todo o mundo, via INTERNET, e em tempo real.

Na verdade, como ocorrerá com a imprensa turfística, acredita–se que 70% das apostas em corridas de cavalo em todo o mundo irão migrar, nos próximos 10 anos, para a INTERNET, seja através do uso de computadores fixos e laptops, seja, principalmente, usando–se os “smart phones” e Ipads.

Assim sendo, o investimento maciço em sistemas mecanizados e tecnologia da informação (TI) é fundamental a qualquer hipódromo ou instituição que queira fazer crescer seu volume de apostas.

Os outros 30% do MGA ainda estarão localizados nas redes de distribuição “off track.” Ao espaço físico dos hipódromos, caberá complementar fatias do MGA, principalmente nas datas de seus grandes eventos.

O papel dos hipódromos no turfe dos próximos anos, será outro, embora não menos importante: o de servir como porta de entrada de novos adeptos do esporte, embora sua contribuição à evolução do MGA tenda a diminuir de importância com o passar dos anos.

Esta é a conclusão do painel em questão.

Sessão 5 (segundo dia) – a France Galop e o PMU

Desenvolvida pelo Sr. Hubert Monzat, a palestra abordou os principais aspectos da France Galop, bem assim, do PMU, as duas principais entidades do turfe francês (que, respectivamente, administram as corridas e as apostas), um dos mais organizados e que mais cresce no mundo. Não há máquinas caça–níqueis, nem a existência de cassinos nos hipódromos franceses.

O PMU – hoje o maior operador de apostas esportivas da Europa – possui 11.000 agências espalhadas por todo o território da França, preferencialmente em restaurantes, cafés, e bares. Fora da França, o PMU está presente, através do simulcasting internacional, em 11 países. E possui 2 canais de TV (Equídia I e Equídia II) cuja programação é especialmente dedicada às corridas de cavalo, seja na França (3 reuniões por dia em hipódromos diferentes), seja no exterior.  

O PMU vende nada menos de 10 bilhões de euros por ano em apostas hípicas, com um crescimento ininterrupto nos últimos 14 anos. A distribuição do volume anual de apostas em corridas de cavalo na França é a seguinte: 75% do volume jogado retornam aos apostadores; dos 25% restantes, 11% são recolhidos em impostos ao governo, 8% são aplicados na criação e nos prêmios aos proprietários – cerca de 800 milhões de euros por ano! –, e 6% correspondem aos custos de operação da empresa.

Sessão 9 (segundo dia) – A visão dos empresários sobre a indústria hípica no mundo

O painel foi desenvolvido pelo Sr. Gillermo Liberman, proprietário do Haras de La Pomme, um dos maiores da Argentina, e também acionista da operação do Hipódromo de Maroñas, Uruguai.

O expositor abordou, respectivamente: (i) o papel da TV na difusão do esporte das corridas de cavalo; (ii) os problemas da “canibalização” das apostas turfísticas; (iii) o papel dos grandes eventos do turfe; e (iv) as condições mínimas para se ter um hipódromo que realmente funcione. Parece razoável condensar as conclusões do painel, que encerrou o segundo dia de debates. Como se segue.

“Os investimentos na difusão diária das corridas pela TV são muito altos, não só na compra de espaço nas redes fechadas, como na montagem das equipes de difusão. Normalmente, tais investimentos não são recuperáveis, nem a curto, nem a médio prazo, o que inviabiliza sua manutenção no tempo. O mesmo não ocorre, porém, com o chamado “jogo móvel” em corridas de cavalo, através da INTERNET. É este o caminho que deve ser trilhado por todos aqueles que pretendem fazer crescer seus respectivos MGA’s.”

“A canibalização das apostas em corridas de cavalo vem, hoje em dia, essencialmente, da concorrência do poker, dos cassinos (principalmente aqueles situados dentro dos hipódromos), e do apelo de outros esportes, de que é exemplo o futebol, nos países onde se pode apostar nesse e em outros esportes. Raros são os países onde o único jogo permitido ainda é o das corridas de cavalo, e isso representa um valiosíssimo ativo para qualquer sociedade promotora de corridas.”

“É nos grandes eventos do turfe, que este esporte consegue competir com outras formas de lazer do mundo moderno. Nessas ocasiões, torna–se fundamental explorar todas as possibilidades de difusão do espetáculo. Esta é uma das formas mais efetivas de captar novos adeptos para a atividade, com custos relativamente mais baixos.”

“Um hipódromo de sucesso, seja aqui, seja no resto do mundo, tem que atender a quatro condições básicas: (1) uma boa pista de corrida; (2) o absoluto respeito aos horários da programação; (3) a plena integração entre o público e os animais, através do uso de  seus espaços abertos (leia–se, a existência de pelouses gramadas, jardins bem cuidados, bem assim, bares e restaurantes próximos da pista, etc.); e (4) a mais ampla difusão das corridas nos dias dos grandes eventos do esporte.”

Sob este último aspecto, considera–se essencial a criação de vínculos comerciais permanentes entre a indústria local do turismo (leia–se, agências de viagem) e os hipódromos, de forma a dirigir o chamado “turismo de recepção” para esses últimos. A condição básica para que isso ocorra, porém, é a existência de espaços, serviços, e instalações nos hipódromos à altura das exigências de conforto do turismo de lazer de nossos dias.

Eis aí, um resumo dos principais temas abordados no Congresso em questão.

Observações finais

Por especial gentileza dos organizadores do evento, foi possível obter a coleção completa dos CD’s, contendo todas as palestras e todos os debates, a viva voz, de todas as sessões do Congresso, inclusive com a necessária tradução simultânea.

Caso seja do interesse da ABCPCC, os referidos CD’s (em número de sete discos) estão à disposição dos interessados para serem copiados e difundidos.

Ao agradecer a V.Sa. a honra de representar a ABCPCC no referido evento, coloco–me, desde já, à inteira disposição da diretoria da Associação para esclarecer qualquer ponto que não tenha ficado suficientemente esclarecido neste relatório.

Atenciosamente,
Sergio Barcellos

Rio de Janeiro, 21 de novembro de 2011



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