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Novembro | 2011

Ou o JCB aprende a se defender, ou sucumbe, por Sergio Barcellos
01/11/2011 - 18h13min

Um turfe organizado se constrói com base em 3 pilares:

1. Investimento nas instalações e facilidades dos hipódromos. O princípio, elementar, por trás disso é muito simples: não há esporte moderno sem público para freqüentá–lo.

2. O incentivo permanente à criação de novos adeptos da atividade, aí incluídos o público em geral, os apostadores, e, claro, os proprietários de cavalos, sem os quais não há matéria–prima para a formação do programa de corridas.

3. A criação (e preservação) de uma sólida estrutura técnica e funcional que garanta o desenvolvimento ordenado da atividade, gere empregos, e proteja sua imagem pública.

Todo o resto decorre desses 3 princípios fundamentais.

Em outras palavras, sem hipódromos preservados; sem a busca permanente de novos adeptos e novos proprietários; sem uma estrutura racional de jogos de apostas; sem a garantia de que a atividade irá funcionar livre de interrupções e desvios (principalmente os de conduta), não há turfe moderno. Na verdade, não há turfe.

II

Como isso se conjuga com nossa atual realidade, é a grande questão a ser resolvida pelo Jockey Club Brasileiro.

Num clube de corridas em que não há mais sequer laboratório antidoping próprio (o que havia – dos melhores do país – foi consumido pelo fogo e jamais reconstruído); em que não existe convicção firmada, a menor, sobre a necessidade vital de garantir a funcionalidade das instalações do hipódromo e zelar pela manutenção de seu entorno; em que se extinguem, da noite para o dia, facilidades que estão na origem mesma da existência do número de animais necessários à formação de 4 programas semanais de corrida, fica difícil imaginar a sobrevivência, no tempo, do turfe do Rio de Janeiro.

Não importam os motivos e razões, não faz o menor sentido desativar instalações que serviram, durante anos, aos propósitos de conter os custos de manutenção dos animais, e, com isso, fazer crescer o número de cavalos disponíveis, como é o caso da derrubada dos armazéns das vilas hípicas da Gávea.

Como não faz sentido algum, substituir tais instalações pelo que quer que seja, se o que vier em seu lugar não corresponder diretamente aos reclamos e necessidades dos proprietários e profissionais da atividade, vale dizer do esporte das corridas de cavalo no estado.

III

Já estivemos prestes a derrubar as cocheiras das vilas hípicas, um fantástico patrimônio do Jockey Club Brasileiro. O meteoro que iria destruir qualquer sinal de vida do turfe do Rio de Janeiro – como aquele que, há 65 milhões de anos, destruiu a maioria da vida do planeta – passou muito perto de nós.

Contudo, não aprendemos a lição.

Como uma instituição que parece não revelar traço de inteligência (nem mesmo a inteligência emocional, aquela que está na origem do instinto de sobrevivência), prosseguimos insistindo na tentativa das soluções “imobiliárias” para um problema que não é – nem nunca foi – imobiliário.

Um problema que é, sobretudo, de falta de confiança no futuro da atividade, aliado ao desconhecimento do que, em essência, ela significa para milhares de pessoas em uma sociedade da grandeza e das tradições do JCB.

IV

O JCB viveu, durante anos e anos, amparado pelo gosto da coisa comum, o turfe, e protegido de quaisquer  soluções exóticas pela certeza de relacionamento de seus dirigentes com os cavalos de corrida, as corridas de cavalo, e a soberba obra que herdou de seus fundadores.

A nova geração de dirigentes do clube, entretanto, dá mostras de desprezar tudo isso. Abomina os valores e crenças do passado, e imagina ser competente para reinventar os rumos e o objeto social da instituição. Supõe que o JCB começou com ela, numa palavra. Haja hubris!...

Não resta dúvida que, daqui para a frente, o Jockey Club Brasileiro, bem assim, o turfe do Rio de Janeiro, vão, ambos, ter que aprender a se defender de um ambiente que lhes é inteiramente hostil.

Para o Jockey Club Brasileiro, para seu quadro social, e para o turfe, chegou finalmente a hora da verdade: ou aprende a se defender, e a defender o soberbo patrimônio que recebeu dos fundadores da instituição, ou sucumbe.

E, no caso, sucumbe por entropia, destruído de dentro para fora pela desordem dos conceitos, e pela falta de respeito de sua elite dirigente pela própria instituição.



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