Nos tempos do craque Falcon Jet, por Paulo Gama 24/02/2011 - 15h25min
arquivo RL
Falcon Jet e Ricardo no "Brasil" de 92
Na última semana, o Jockey Club Brasileiro homenageou um dos melhores puros–sangues que tive o privilégio de ver correr. Falcon Jet, alazão de criação e propriedade do Haras Santa Ana do Rio Grande. Rever o fantástico Grande Prêmio Brasil de 1992, em que o filho de Ghadeer e Victress derrotou corredores extraordinários como Flying Finn, Pour Henri, Implausible, Ozanan e April Trip, entre outros, foi emocionante. Naquele tempo, o Haras Santa Ana do Rio Grande tinha um time de craques dentro e fora das pistas. Se o plantel de puros–sangues era espetacular, não menos gabaritados eram os responsáveis diretos pelos resultados, o treinador, João Luiz Maciel, o jóquei, Jorge Antônio Ricardo, e o veterinário, José Roberto Taranto.
Falcon Jet desde os primeiros treinos demonstrou ser potro futuroso, mas tinha a peculiaridade de esperar seus sparings, ou seja, os cavalos que trabalhavam de parelha com ele. O veterinário, José Roberto Taranto, defendia a teoria de que ele era um animal inteligente, embora todos saibam que essa não é uma característica dos cavalos. Eles são dotados de excepcional memória, mas não primam pela esperteza. Doutor Taranto afirmava ser ele uma das exceções e repetia após os exercícios:
”Está vendo! Ele lembra o Northern Dancer. Só corre o que é preciso e depois espera os pobres coitados que trabalham com ele”. Depois disso, o notório profissional contava a mesma história. Da brincadeira dos funcionários do haras em que estava alojado Northern Dancer. Eles jogavam um pedaço de pau ou uma bolinha e o cavalo corria, pegava com a boca e trazia até as mãos de quem jogou como se fosse um cachorro. Bastava o Falcon Jet trabalhar e lá vinha o doutor com a mesma ladainha do Northern Dancer.
Falcon Jet vencendo a Copa ANCP de 1990
Mas o doutor Taranto estava certo. Falcon Jet era muito inteligente. Na verdade, ele só se empregava o suficiente para entrar em forma. Nos treinos era como aqueles jogadores de futebol que preferem a sandália de dedo aos exercícios físicos. Mas quem ficava realmente encafifado nos trabalhos de Falcon Jet era o jóquei Jorge Ricardo. Com seu jeito moleirão, o craque várias vezes acabava por derrotar por cabeça ou pescoço sparings de categoria bem inferior. E a exemplo do que acontecia com o doutor Taranto, Jorge Ricardo tinha sua própria justificativa pessoal.
“Este cavalo que trabalhou com Falcon Jet está tinindo João. Quando é que tem páreo para ele?”. O treinador João Maciel limitava–se a sorrir e repetia. ”Ricardinho. Você conhece o Falcon Jet. Ele só corre o necessário e aí espera o outro. Todo trabalho dele você elogia o sparing. Chega lá na Gávea ele ganha um clássico e o outro não faz nada no páreo de turma”. E foi assim com Falknov, responsável pelo ritmo forte da corrida no dia em que Falcon Jet derrotou Ramirito e bateu o recorde dos 2.000 metros, na grama, que permanece até hoje. E também com Faith Woman, da mesma geração. Uma égua que o derrotou por pequena diferença no apronto para o GP Brasil de 1992. Ricardinho encheu a bola dela após o treino. No final de semana, o craque ganhou o GP Brasil e ela não fez dupla no páreo de quatro anos duas vitórias.
Outra curiosidade interessante dos tempos de Falcon Jet era a preocupação obsessiva do doutor Taranto pelo controle do peso dos cavalos do Haras Santa Ana do Rio Grande. João Maciel era um cara genial e evitava qualquer tipo de problema por algo que considerasse irrelevante. Maciel tinha o hábito de repetir que só se devia esquentar a cabeça com os grandes problemas. Segundo ele, as pequenas preocupações se resolviam sozinhas sem que a pessoa movesse sequer uma palha.
Um dos funcionários responsáveis pelo peso dos animais no Serviço de Veterinária do Jockey Club Brasileiro era conhecido do treinador. O sujeito adorava levar uma caixinha. Bastava Falcon Jet ser inscrito e ele faturava uma gorjeta para ignorar o peso do craque na balança e divulgar para os alto–falantes justamente o peso que o doutor Taranto considerava o ideal para aquela corrida. Durante a semana que antecedia a corrida se o doutor falasse que o cavalo deveria correr com mais uns dois quilos, com certeza o locutor oficial encheria os pulmões: “Falcon Jet, mais dois!”.