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Janeiro | 2011

Tragédia das chuvas pode ser o marco da ressurreição, por Paulo Gama
13/01/2011 - 16h52min

No meio dos escombros de um prédio em Nova Friburgo, o bombeiro conseguiu ouvir um suspiro. Por um momento duvidou da própria audição. Não era possível haver sobrevivente debaixo daquele concreto. Do outro lado da rua havia o som da buzina impaciente. Ao seu lado, o choro convulsivo dos parentes das vítimas resgatadas. Balançou a cabeça negativamente. Não havia esperança. Mais uma vez ouviu o mesmo suspiro. Agora não tinha dúvida. Alguém estava vivo ali embaixo daquele monte de pedras. Desesperado pediu ajuda aos colegas que já recolhiam o material de serviço.

Recomeçaram as buscas. Os vizinhos sobreviventes se juntaram aos bombeiros. Seis horas depois, aquele suspiro desesperado, quase uma lágrima em meio aquele aguaceiro, transformou–se num choro de bebê. Incrível! Era mesmo o choro de uma pequenina criatura. Num minúsculo vão, formado pelas pedras de concreto por mera coincidência do destino, formou–se corrente de ar. Aquele milagroso oxigênio permitiu ao pai e a criança de seis meses, abraçados, respirarem por 12 horas. Gritos, lágrimas, sorrisos e euforia. Nas mãos do bombeiro o bebê de olho arregalado era o símbolo absoluto da ressurreição.

A solidariedade é marca registrada da natureza humana. Ela brota no povo brasileiro como o instinto de sobrevivência aflora da alma dos homens nos momentos de alto risco. A tragédia da enxurrada que castigou os centros de treinamento na região serrana pode ser um marco de recuperação do turfe nacional.  Este sentimento de dor une os opostos, aproxima os diferentes e despoja a todos das vaidades. Pode ser um bom exemplo para os responsáveis pelos destinos do nosso esporte.

É preciso dar um suspiro forte como aquele do pequeno sobrevivente capaz de ser escutado pelo bombeiro em meio ao caos. A morte de cavalos e de cavalariços não deve ser em vão. O sacrifício destas vidas precisa ser suficiente para cultivar nas consciências turfísticas a necessidade de se unir, de lutar, de construir, de combater e de se superar. Todos viveram os seus problemas, enfrentaram os seus dramas e lutaram por sua dignidade. Nós, particularmente, do Stud Cafelândia tivemos as nossas perdas.

A maior de todas foi o cava lariço Valdeci Miguel dos Santos Filho, para nós, eternamente Miguel. Ele foi levado pela violência das águas e não sobreviveu. Aos 36 anos, este alagoano de Maceió conquistou a simpatia de todos por sua dedicação aos cavalos, a alegria com o trabalho e acima de tudo o respeito pela profissão. Miguel morreu por causa da sua fidelidade a nossa farda. Nem mesmo a aproximação da avalanche de água lhe afastou de perto dos cavalos. Enquanto os colegas gritavam para que desistisse, ele não quis arredar o pé de perto deles. E por isso foi carregado pelas águas.

Miguel não se foi sem deixar um substituto. No dia anterior a sua morte havia dado por encerrada a missão de preparar o jovem Bruno, que foi resgatado das águas junto os com cavalariços Felipe e Luiz. O treinamento do garoto foi detalhado e o principal que lhe passou foi ter paciência e carinho com os animais. “Agora estou quite com Deus. Ensinei o meu ofício para alguém. Não vá me decepcionar”, alertou ao discípulo, como se pudesse prever a tragédia de algumas horas mais tarde.

Miguel era tão calmo que escovava os cavalos mais bravos do haras, Tatame e Vittel, ambos desaparecidos na enxurrada. E os cachorros de Marcos Ferreira, que antes davam enorme trabalho para se alimentar, não podiam vê–lo que corriam, atrás dele para brincar. Acabou ficando encarregado de lhes servir a ração. Irmão de Conceição Borioni, mulher do treinador Marcelo Borioni, Miguel já trabalhava como escovador há mais de 15 anos. Que todos os criadores, proprietários, aficionados, jornalistas, dirigentes, enfim, todos que de alguma forma estejam ligados ao turfe, possam honrar a sua memória. Que o espírito livre, alegre, solidário, modesto, humilde e encantador deste herói anônimo possa iluminar as mentes, as idéias e os caminhos do turfe brasileiro.



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