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Janeiro | 2011
Só John Lennon pode salvar o Turfe..., por Paulo Gama 05/01/2011 - 13h51min
Antes de ser turfista, ainda menino, eu era fã dos Beatles. Algumas vezes ficava cerca de 10 horas entretido com as músicas de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star. Eles fizeram muita coisa boa. Mas o mais importante no conjunto da obra foi mostrar à humanidade o poder, a força e a volúpia dos ídolos. O ídolo pode tudo. Ele muda o rumo das coisas. Ele faz a cabeça das pessoas. Ele hipnotiza as multidões. Antes dos Beatles, na década de 60, o mundo já havia conhecido outros seres humanos especiais. Mas graças a um dos Beatles, John Lennon, foi possível entender que nada e nem ninguém pode ficar indiferente aos indivíduos de exceção. E até o mais ignorante membro da plebe rude sabe que tais personagens só aparecem no planeta Terra de vez em quando.
Um belo dia, no auge da idolatria dos fãs, numa entrevista coletiva, John Lennon teve a ousadia de dizer a um repórter que naquele segundo, os Beatles eram mais conhecidos, em qualquer parte do mundo, do que o próprio Jesus Cristo. Os cristãos consideraram uma heresia aquela fala. Os ateus concordaram e com ironia bateram palmas de pé para o mais polêmico dos rapazes de Liverpool. Eu preferi ficar neutro. Minha mãe rezava que nem uma freira todos os dias. E o meu pai não acreditava nem que santo de casa faz milagre. Era ateu convicto. Lembro–me que ao pensar no assunto dei certa razão a Lennon. Afinal, as roupas que eles usavam estavam na moda. Os garotos cortavam o cabelo igual ao deles. E a mulherada se ajoelhava muito mais perto dos rádios e das televisões do que nos sermões dos padres nas igrejas. Enfim, deixei isso para lá.
A polêmica frase de Lennon me abriu os olhos para sempre com relação ao fascínio que os ídolos exercem sobre a sociedade de uma forma geral. Fanático por esportes percebi que as coisas sempre ficavam para ser resolvidas pelos craques. Assim, não foi surpresa testemunhar que embora o Brasil sempre tenha sido o país do futebol, este fato só foi reconhecido em cartório depois do Bicampeonato Mundial, quando os franceses elegeram Pelé, o rei do futebol.
O mesmo aconteceu com o tênis. Depois de Maria Ester Bueno brilhar nas quadras mais famosas do mundo durante longos anos não se falou no esporte aqui no Brasil. Até que em Florianópolis surgiu Gustavo Kuerten, o Guga, para conquistar a admiração e a simpatia dos brasileiros e de todo o circuito mundial. Ele sozinho proporcionou autêntica febre no esporte. E durante décadas ninguém falava no assunto. Hoje temos ótimas promessas e muita gente jogando tênis por aí.
No vôlei então, nem se fala. A lista de ídolos é extensa. De Bernard, Renan, Giovane, Giba, Nalbert, Jaqueline, Isabel, o treinador, Bernardinho e tantos outros, várias gerações de campeões que transformaram o país no mais respeitado neste esporte em todo o mundo. Hoje o Brasil é modelo para todos. O interesse despertado pelos ídolos é tanto que as quadras estão sempre lotadas de adolescentes nas partidas mais importantes. E a renovação se dá de forma imediata. Com tanta garotada praticando o vôlei cada nova geração surge ainda mais talentosa, mais forte, mais alta e mais vitoriosa do que a anterior. Eu poderia falar de Michael Jordan, no basquete americano, de Nadal e Federer, no tênis, de Ayrton Senna e Michael Schumaker, na Fórnula 1, e por aí adiante. Mas o que nos interessa é o turfe.
Vivemos um momento de crise no turfe brasileiro. Muita coisa está errada e precisa melhorar. Se cada um de nós for levantar um tópico diferente vamos encontrar centenas de necessidades. Mas podem ter certeza de uma coisa. John Lennon sabia das coisas. Assim como só os fortes sobrevivem no mundo moderno, qualquer esporte só sobrevive através da presença de ídolos. O turfe paulista perdeu Albênzio Barroso. Parecia difícil surgir outro jóquei tão ganhador. Apareceu João Moreira. Não foi possível segurá–lo no país. Não houve peça de reposição.
No Rio, depois da aposentadoria de Juvenal Machado da Silva, Jorge Ricardo segurou a barra durante muito tempo. Transferiu–se para o turfe argentino na maior cochilada dos dirigentes brasileiros. Valia qualquer esforço para mantê–lo por aqui. Representava credibilidade, bilheteria, imagem, carisma e espaço na mídia. No ano em que foi embora esteve presente em cerca de sete programas de grande audiência na televisão aberta e a cabo. Era o garoto propaganda mais barato de todos os tempos. Na sua despedida, o prado estava vazio, nenhuma homenagem, e o gerente de marketing ao ser perguntado por mim o motivo de tanto descaso limitou–se a dizer: ”Não vamos colocar azeitona na empada de ninguém”. Ricardo só pode despedir–se dos fãs devido a uma festa organizada por Luís Felipe Brandão dos Santos, no Clube de Regatas Flamengo.
Não acompanho na intimidade o turfe paulista, o paranaense e o gaúcho. Assisto todos os páreos na televisão, mas não vivencio o dia a dia dos prados, os matinais, as cocheiras e nem tenho contato direto com os profissionais. Seria leviandade apontar candidato ao tão penoso cargo de ídolo. Aqui no Rio posso falar de cadeira. Temos profissionais experientes e vitoriosos nas profissões de jóquei e de treinador. Mas como todos sabem são vários componentes que transformam o ser humano num super–herói. Afinal, o fã adora o seu ídolo como se fosse uma entidade sobrenatural, capaz de resolver qualquer impasse e de ultrapassar qualquer obstáculo.
Como dizia o inesquecível cronista de turfe, Heitor de Lima e Silva, a história não fala dos covardes. Aposto todas as minhas fichas no jovem aprendiz Henderson Fernandes como real candidato a ocupar no coração do turfista brasileiro a posição de ídolo do esporte dos reis. Henderson tem qualidades inerentes a um verdadeiro campeão. É talentoso, sereno, modesto, educado e carismático. Conquistou em pouco tempo a simpatia do público, alguns turfistas o apelidaram de “Divino”. Nunca foi vaiado embora monte dezenas de favoritos e nem todos ganhem, evidentemente. Não há restrições a ele por parte de nenhum proprietário ou treinador. E o incrível e vertiginoso sucesso que o fez o primeiro aprendiz da história do turfe nacional a liderar uma estatística em nenhum momento lhe subiu a cabeça. Com certeza, John Lennon jogaria suas fichas comigo nesta parada. E possivelmente, conseguiria convencer Paul, George e Ringo a apostarem até o Submarino Amarelo... |

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