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Novembro | 2010

Namir, o Dom Quixote libanês, enfrenta os moinhos de ventos
16/11/2010 - 12h04min

Todo herói tem direito a descanso. Namir Hamdan, o bom libanês, já esteve aqui no Raia leve por duas vezes. E sempre com passagens marcantes. Cansado de dar murro em ponta de faca decidiu dar uma alça, como se diz na gíria do turfe, para recuperar o fôlego. Mas o seu espírito indomável falou mais forte e ele está de volta para alegria de sua legião de fãs. Crítico mordaz, polêmico e contestador toda vez que deixa os agentes credenciados de sua preferência para visitar o hipódromo, aproveita para devorar alguns quibes na lanchonete da Tribuna Social e também fazer críticas ferozes as coisas erradas que vê pela frente.

Bravo Dom Quixote turfista! Namir veste de maneira despojada e arrebatada os trajes do seu personagem no intuito de defender os direitos e expectativas da classe turfística. Eleito num plebiscito realizado nos credenciados da Zona Sul como defensor público dos fracos e oprimidos turfistas, o destemido árabe arregaçou as mangas, afiou sua língua ferina e deu tratos a bola. Jogador compulsivo assumido, Namir colecionou pules do simulcasting Gávea/Cidade Jardim. Inconformado com a ausência de alguma modalidade de aposta em que o lucro pudesse ser expressivo levantou a bandeira da volta da Quinexata.

“Não é possível você explorar as apostas de forma tão tímida e sem perspectiva. Eu já estive em Las Vegas e em casas de apostas clandestinas nos países aonde por religião o jogo é proibido. Em todos estes lugares existe algum tipo de aposta em que o jogador pode ficar rico. O Hipódromo da Gávea virou convento de freiras ou se preferir um mosteiro para tibetanos exilados. O melhor jogo disparado é o Pick 3, por causa da bonificação de 100%. O Pick 7 quebra um galho, mas sem bonificação limita o apostador a ganhar no máximo R$ 30 mil. Em outros tempos já foram pagos prêmios acima de R$ 1 milhão. Este tipo de jogo atrai até gente que nunca assistiu uma corrida de cavalos”, ensina o libanês.

Inconformado com as alterações de peso da balança oficial do Jockey Club Brasileiro, Namir contestou a sua credibilidade. Observador e detalhista, como todo bom papeleiro, o árabe chamou a atenção que em alguns páreos as alterações eram absurdas, com os cavalos exibindo muitos quilos acima ou abaixo, sem que isto influenciasse no seu desempenho nas competições.

“Jogar por peso nunca mais. As alterações exibidas são estapafúrdias, sem nexo. Num determinado páreo todos os cavalos estavam ou muito acima do peso ou muito abaixo. Apenas um concorrente estava com um quilo a mais. Como bom malandro que sou não perdi tempo e apostei nele. Para minha surpresa foi justamente o cavalo que fechou a raia. Todos os cavalos com pesos absurdos chegaram a sua frente. Isto tonteia o apostador”, esbraveja.

A cerca móvel de 12 metros na raia de grama foi motivo de crítica do bravo libanês. Ele chama a atenção também para a chegada do verão e com isso a necessidade de maior tolerância no penetrômetro. Namir considera perigoso para jóqueis e cavalos alguns páreos com a cerca móvel tão distante e ressalta que o período de chuvas fortes praticamente vai eliminar a raia de grama.

“Com estes índices muito baixos qualquer copo d’água muda a pista. Já que os páreos foram limitados aos sábados e domingos não se faz necessário zelo exagerado pela grama. Afinal ela está ali para proporcionar corridas e não para fazer uma salada. Embora muita gente desprovida de inteligência esteja de olho numa relva tão bem cuidada”.

Namir Hamdan aproveitou para sugerir uma cobertura das corridas na Gávea parecida com o modelo da equipe do Paraná. Fã incondicional das entrevistas do Lobinho e das indicações de Vítor Correa, o libanês gostaria de ver entrevistas com jóqueis e treinadores cariocas. “A turma daqui é boa, mas está sendo pouco explorada. Todo turfistas gosta de ouvir entrevistas com os jóqueis e treinadores, principalmente dos cavalos favoritos. O sujeito bota a cara na televisão e fica comprometido. Este tipo de matéria empresta credibilidade à transmissão. Os meninos Afonso e Cunha são desprendidos e simpáticos, Com certeza vão colher sempre ótimas impressões dos entrevistados”, sugere.

Admirador de carteirinha do treinador Teófilo Oliveira, responsável pelos animais do Stud Escorial, Namir lamentou a suspensão do profissional por diversidade de performance do cavalo Truman Show. Segundo ele, o julgamento não foi feito por carreiristas e sim a luz fria do retrospecto. O bom libanês gosta muito do trabalho do profissional, que segundo ele, possui poucos animais, mas sempre encaixa umas pules com bons rateios. Namir afirma que não houve dolo.

“No dia em que o cavalo chegou descolocado não teve boa partida e o jóquei, por saber que ele só corre bem na ponta, se apavorou. Quando venceu montou um aprendiz e ele largou solto na frente. Isto mudou completamente a história da sua atuação. Qualquer bom estudioso de corrida sabia que isto poderia acontecer. Tanto que o cavalo foi o segundo mais apostado”, argumenta.

Autêntico Dom Quixote do mundo turfístico, Namir Hamdan, carinhosamente chamado de Libana, por seus amigos mais próximos, promete seguir na sua saga contra os moinhos de ventos que assolam o turfe carioca. Extenuado diante de tantos obstáculos ele espera encontrar a ajuda de algum Sancho Pança. Este fiel escudeiro poderá carregar o elmo, a armadura e a espada, todos os fardos bastante pesados, para quem terá pela frente, na próxima aventura de em suas andanças, o Monstro do Jardim Boulevard.

por Paulo Gama



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