Foi com esta frase que a farta publicidade da France Galop divulgou o GP Arco do Triunfo de 2010, corrido no primeiro domingo de outubro no hipódromo de Longchamp, em meio aos castanheiros dourados do bosque de Boulogne nos arredores de Paris, e que reuniu dessa vez 17 ganhadores de 43 provas de Grupo.
No sábado, dia 2 de outubro, o Paris–Turf, jornal dedicado às corridas na França, comentava sobre a importância do evento:
“O Prix de l’Arc é hoje o mais belo momento do turfe mundial. Porque seu presente e seu futuro se alimentam de seu glorioso passado, o que não é o caso de alguns Grupos I, ainda muito jovens na cena mundial, que, graças a dotações mirabolantes, tentam nos olhar de cima, com a arrogância da primeira juventude. Honestamente, que corrida pode orgulhar–se de haver oferecido a esse esporte as jóias de atuações de campeões imortais, todos eles reunidos no panteão dos cavalos de exceção?”
A par do orgulho que os franceses dedicam à principal prova de seu calendário – hoje transformada numa espécie de campeonato mundial do puro–sangue –, o fato é que a ambiência tipicamente européia de Longchamp, tem muito a ver com o prestígio internacional do evento. E quem gosta de cavalos de corrida e corridas de cavalo, é lá que tem que estar quando chega a primeira semana de outubro.
Na verdade, há coisas que só acontecem em Longchamp, como as quatro mulheres da família proprietária do animal japonês que disputou o Arco de 2010, presentes ao paddock, e vestidas a caráter como gueixas em seus impecáveis quimonos de seda pura. Nem mesmo no famosíssimo Royal Meeting de Ascot é visto algo semelhante.
Do ponto de vista técnico, ainda há a imaculada perfeição da pista (desta vez, como havia chovido muito durante toda a semana, a cerca móvel, no sábado, foi colocada a 18 metros para preservar o estado da grama no dia seguinte). Além da sagrada obediência ao horário das largadas; o rigor no exame dos eventuais prejuízos de percurso; o estado impecável do treinamento dos concorrentes; e a tradicional forma européia de correr, deixando que os animais, primeiro, encontrem naturalmente seu ritmo, para só depois exigir que se empreguem nos metros finais da disputa (na França, corre–se 1.000 metros, largando, baixando a mão, deixando galopar e respirar, esperando os 400 finais).
Tudo isso colabora para fazer da semana do Arco uma data especial para o público e os turfistas de todo o mundo.
E a maioria dos animais é iniciada dessa forma nas clareiras de Chantilly – aprendendo ritmo e respiração, antes de aprender a correr.
Relógio não existe, balança não existe, trabalhos e aprontos suicidas também não. Remédio muito menos. É proibido medicar para correr. Ponto.
O que existe, acima de tudo, é a compreensão, baseada no ancestral conhecimento da raça, de que cavalos de corrida atuam sempre melhor quando são superiormente criados, superiormente treinados, dirigidos com técnica, e, principalmente, com a inteligência de seus jóqueis. E, claro, bater além da conta, dá, invariavelmente, pesadas multas e suspensão. É assim que funciona o turfe europeu de elite em nossos dias.
Três cavalos e uma certa Goldikova
Dos 20 animais que disputaram o Arco deste ano, 8 deles tinham 3 anos de idade (nos últimos 15 anos, potros e potrancas venceram nada menos que 12 vezes a prova).
Desta vez, não foi diferente: o ganhador, Workforce ( por King’s Best e Soviet Moon, por Sadler´s Wells), é um potro inglês de 3 anos, vencedor do Derby Stakes por surpreendentes 7 corpos. Antes disso, só havia corrido 2 vezes (uma vitória esmagadora os dois anos de idade, na estréia, e um segundo lugar no Dante Stakes, Grupo II, em York, uma das preparatórias do Derby). Seu pai, King’s Best é um milheiro, filho do também notável milheiro Kingmambo, e aos 3 anos de idade venceu os 2000 Guinéus, a milha da primeira prova da tríplice coroa inglesa, batendo a Giant’s Causeway. Hoje, King’s Best faz a monta na Darley, França, por Euros 15.000 a cobertura.
Treinado na Ilha por Sir Michael Stoute, Workforce fracassou em seu reaparecimento antes do Arco, tendo chegado em 5° lugar no King George VI & Queen Elizabeth Stakes (Grupo I). Cavalo grande, de físico poderoso, Workforce corre com uma cabeçada em “x”, própria dos animais de salto, e ainda usa o auxílio de um bridão australiano de grande diâmetro, a revelar quão difícil deve ser contê–lo.
No Arco, seu jóquei, o jovem Ryan Moore, foi instruído para “encaixotá–lo” propositadamente, como forma de tentar acalmá–lo e deixá–lo galopar na difícil pista de Longchamp com seus inúmeros aclives e declives (sobe–se uma longa ladeira na reta oposta, desce–se outra na grande curva, e sobe–se outra vez nos 300 metros finais).
Quando teve o caminho livre, parecia um virtual ganhador, não fosse a enorme coragem do japonês Nakayama Festa (por Stay Gold, um filho do craque e líder de estatística Sunday Silence, em mãe, Dear Wink, por His Majesty, raça de Ribot), que acabou derrotado por cabeça.
Nakayama Festa, nascido e criado no Japão, é treinado pelo mesmo homem, Y. Ninomya, que há 11 anos atrás, trouxe El Condor Passa à França para ser segundo na mesma prova para o fenômeno Montjeu. Após o páreo, Ninomya declarou: “Não vamos ter mais que esperar 11 anos; em 2011, meu cavalo volta a Longchamp para ganhar o Arco!”
Se isso acontecerá, não se sabe. Mas é bem provável que, mais dia, menos dia, a criação japonesa chegue lá e leve a taça e os milhões do patrocínio do Qatar, para a terra do sol nascente.
De tudo, ficou a impressão da ótima corrida da potranca Sarafina (por Refuse To Bend, hoje fazendo a monta no Brasil em regime de “shuttling”, em Sanariya, esta uma filha do inesgotável Darshaan, um dos maiores avós maternos do moderno turfe internacional).
De criação e propriedade do Aga Khan, treinada por Alan de Royer–Dupré, Sarafina é pequena, feminina, elegantíssima, “racing like”, com uma estupenda cabeça, que mantém sempre alta e curiosa (no passeio do paddock, em meio à multidão, parou por alguns segundos, e olhou o ambiente ao redor, mostrando quão confiante e calma pode ser).
Antes da corrida, a dúvida é se ela tinha a distância e a experiência necessárias para abordar Longchamp. Depois dela, não há mais dúvida: tem. Seu terceiro lugar, a dois corpos do cavalo japonês, tendo de vir por fora de todos e pelo pior caminho (na véspera, os animais enterravam até o boleto na pista encharcada) fala melhor sobre sua excepcional qualidade.
Na quinta–feira após o Arco, sentado com Afonso Burlamaqui no restaurante de Saint–Cloud, Royer–Dupré (com 2 Arcos em seu cartel, os de Dalakhani, em 2003, e Zarkava, em 2009), se perguntava o que poderia ter acontecido, caso sua potranca tivesse encontrado passagem entre o muro de animais à sua frente, e não perdesse tanto tempo, tendo de contorná–lo e procurar o meio da pista onde o terreno era mais firme. De qualquer forma, quem mais descontou a distância que a separava dos líderes nos metros finais da corrida foi ela, vindo de uma posição julgada impossível.
Muito bom saber que seu pai, Refuse To Bend, esteja hoje entre nós, contribuindo para a melhoria da criação nacional.
A outra sensação do dia do Arco foi a égua Goldikova, de 5 anos, filha de Annaba e Born Gold, por Blushing Groom, propriedade dos irmãos Wertheimer, brilhante ganhadora do Prix de La Forêt (Grupo I) – sua 11ª vitória de Grupo I –, superando o recorde de 10 vitórias da campeã Miesque, e igualando–se à fenomenal Dahlia. Esta foi sua despedida das pistas francesas, antes de tentar o tri–campeonato da milha da Breeders’ Cup no final do ano, e daí seguir para a reprodução.
Recebida após a corrida com a ovação que Longchamp só dedica aos cavalos imortais, Goldikova, a “Rainha da Milha”, é dotada de velocidade explosiva, e corre sempre na corrida.
No Prix de La Forêt, seu jóquei, Olivier Pelier, um mestre, esperou até o último instante para exigi–la, fato que tornou especial sua vitória, e dá mostras de seu enorme espírito de competição. Diga–se, que a chamada do La Forêt, em 1.400 metros, é aberta a qualquer animal de 3 anos e mais idade, fato que coloca imediatamente seus ganhadores entre os melhores sprinters–milers do turfe mundial. E a diferença de peso entre os 3 anos e os 4 anos e mais idade é de apenas 1 quilo (1 quilo e meio, no caso das fêmeas).
Muito tempo vai se passar, antes que seja possível ver em ação outra égua do calibre de Goldikova.
As potrancas de 2 anos
Entre as outras 6 provas de Grupo I corridas no mesmo dia do Arco (Prix de Cadran, em 4.000 metros; Prix de L’Abbaye de Longchamp, em 1.000 metros; Prix Marcel Boussac – Criterium de Potrancas, 1.600 metros; Prix Jean–Luc Lagardère – Grand Criterium, 1.400 metros; Prix de La Forêt, 1.400 metros; e Prix de L’Opera, 2.000 metros), o destaque foi a disputa entre a francesa, e até então, invicta Helleborine (por Observatory, um filho do americano Distant View, e New Orchid, por Quest For Fame), criação e propriedade de Khalid Abdullah, treinada na França por Criquette Head, e a inglesa Misty For Me (por Galileo e Butterfly Cove, por Storm Cat), propriedade da dupla John Magnier–M.Tabor, treinada por Aydan O’Brien na Irlanda.
Embora a disputa tenha se resumido a uma justa de morte entre as duas melhores potrancas de 2 anos da Europa neste momento, ninguém esperava que a inglesa Misty For Me fosse tão especial.
Tendo sido dominada a 200 metros do disco, voltou junto à cerca, demonstrando em toda sua extensão a principal característica dos descendentes de Galileo: a de exibir uma inequívoca vontade de vencer. Depois da demonstração de Longchamp, Misty For Me foi eleita pela crônica a favorita dos próximos 1000 Guineas e do Oaks inglês do próximo ano.
Campeão nas pistas e na reprodução, Galileo, o pai de Misty For Me, por Sadler’s Wells e Urban Sea, por Miswaki, é irmão materno de Sea The Stars, e do campeão italiano Black Sam Bellamy, entre outros. Sua segunda–mãe, a 100% alemã Alegretta (por Lombard e Anatekva, por Expresso), é, por sua vez, a mãe de King’s Best (por Kingmambo, como acima mencionado).
A germânica Alegretta é, sem nenhuma dúvida, uma das mais espetaculares matrizes da atual criação mundial.
E seu neto Galileo, ganhador do Derby Stakes, do Derby Irlandês, e do King George Stakes & Queen Elizabeth Stakes, segue os passos de sua magnífica estirpe, já aparecendo como uma das super–estrelas do parque reprodutor de nossos dias, considerado o grande sucessor do inesgotável Sadler’s Wells.
Medicação, China, e o turfe do Continente
Na segunda–feira depois do Arco, a Federação Internacional das Autoridades Hípicas (FIAH) – entidade que congrega representantes de 71 países – realizou sua tradicional reunião anual nas magníficas dependências da France Galop para debater a situação e os problemas do turfe mundial e da poderosa indústria do puro–sangue de corridas.
Este ano, um dos principais temas foi a histórica decisão da OSAF – Organização Sul–Americana de Fomento de recomendar a proibição do uso de furosemida a partir de 2012 nas carreiras consideradas “black type” do Continente, como já informado em artigo anterior sobre o mesmo assunto.
A decisão em exame tem efeitos óbvios sobre o mercado regional da América do Sul, e está em consonância com a tendência universal que aponta na direção de se ir progressivamente proibindo o uso de qualquer medicação em relação às provas dos calendários clássicos dos Jockey Clubes do mundo.
. China
Este assunto ganha ainda maior destaque quando se sabe que os chineses estão concluindo a construção de vários hipódromos em seu país (além daqueles que funcionam em Hong Kong e Macau), com projeções estratosféricas de volume de apostas e de importação de animais (principalmente da Ásia, num primeiro momento) para formação de seus programas de corridas.
Muito provavelmente, como já ocorre em Hong Kong, a China vai aderir ao famoso artigo VI dos regulamentos da FIAH, que proíbe medicar para correr. A partir daí, quem estiver fora desse padrão estará simplesmente se condenando a ficar à margem do mercado mundial de compra e venda, e criação de cavalos de corridas.
No que respeita ao Brasil, parece, portanto, ter chegado a hora de se antecipar à tendência universal e proibir, de vez, o uso da furosemida em qualquer das provas de nossa programação clássica. A rigor, não faz mais nenhum sentido manter–se aberta tal possibilidade para competições de Grupo III e “Listed Races” nos dois principais hipódromos do país.
. Nós e o turfe europeu
Desde seus primórdios, o turfe brasileiro esteve cultural e historicamente ligado às seculares tradições do esporte, como ele é praticado na Europa. Nossas provas de elite são corridas na grama, nossas distâncias clássicas seguem o padrão das distâncias clássicas européias, nosso calendário toma como base o calendário europeu.
Não causa surpresa, pois, que, em sua média, o perfil funcional do cavalo de corrida brasileiro se aproxime e se identifique muito mais com o cavalo criado e corrido na Europa, do que com qualquer outro produzido em outras regiões do mundo.
O modelo de competidor perseguido há décadas pelo Brasil, guarda estreita correlação com as grandes linhagens européias, de que são exemplo os reprodutores de padrão clássico, recentemente importados pelos criadores nacionais em regime de “shuttling.” Com a vantagem acessória de serem totalmente livres de medicação.
Assim, a ter que escolher entre as várias opções possíveis, não parece haver dúvida de que nossas melhores oportunidades de inserção no mercado mundial se localizam em sementais com campanhas desenvolvidas na Europa. E a longa história do turfe brasileiro está aí para confirmar a hipótese.
Nós e a FIAH
O Brasil está entre os países mais distinguidos pela Federação Internacional das Autoridades Hípicas em matéria de participação e representatividade em seus conclaves, algo que devemos ao trabalho e a competência de gerações e gerações de notáveis dirigentes de nosso turfe.
Nos últimos anos, infelizmente, a distinção concedida ao turfe brasileiro não tem sido contrapartida pelas administrações de nossas duas principais sociedades promotoras de corridas. Ao ponto delas simplesmente terem desistido de se fazerem representar nas reuniões anuais da entidade que hoje preside e regula o turfe mundial.
Os motivos para esta mudança de comportamento são vários. Mas o principal deles, ancora–se no desconhecimento, exibido pelas atuais direções dos Jockey Clubes, dos efeitos danosos de que tais ausências representam em matéria de prestígio para a indústria nacional do puro–sangue, e os relevantes interesses patrimoniais daí decorrentes.
Diante desse quadro de inexplicável alienação, não parece haver outra alternativa para o país, senão a de localizar na Associação Brasileira de Criadores e Proprietários de Cavalos de Corrida (ABCPCC) a responsabilidade de participar ativamente dos debates técnicos sobre a atividade, trocar informações, e, eventualmente ter que defender os superiores interesses do Brasil num fórum mundial dessa importância e magnitude.
Ou é isso, ou dia virá em que acordaremos diante da desagradável surpresa de ver eliminada uma parte ponderável das provas de Grupo de nossa programação clássica, entre outras hipóteses ainda mais dramáticas.