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Janeiro | 2010

JCB: Banco de talentos menosprezado..., por Sergio Barcellos
04/01/2010 - 12h18min

O Jockey Club Brasileiro tem mais de 5.000 sócios efetivos, a maioria deles detentora de sólida formação acadêmica e experiência profissional, alguns inclusive personagens de comprovadas histórias de sucesso na empresa privada e no setor público do país. Custaria uma fortuna para qualquer empresa recrutar, de uma só vez, os serviços desse verdadeiro banco de talentos representado pelo quadro social do clube.

Contudo, não foi preciso pôr os mais hábeis “head hunters” à sua procura: eles mesmos tomaram a iniciativa de se incorporar ao Jockey Club Brasileiro quando compraram um título de sócio, e decidiram livremente participar de sua vida e compartilhar de seu destino como instituição.

Não perceber o tesouro funcional que se contém nas informações dos registros de sócios do JCB, constitui notável ensaio sobre a cegueira, algo que faria inveja ao famoso romance de Saramago.
 
Alguém precisa de profissionais competentes em diversos ramos da medicina? O JCB tem vários sócios com essa formação. Advogados brilhantes, magistrados e procuradores insignes para defendê–lo em todas as instâncias e tribunais? Há exemplos notáveis de saber jurídico no quadro social. Engenheiros e arquitetos? Alguns dos melhores do país. Banqueiros, bancários de ilibadas e impecáveis carreiras, gente que sabe fazer conta e lidar com os humores do dinheiro? Alguns dos mais competentes do Brasil estão lá. Políticos brilhantes e respeitados? Vários deles. Militares ilustres e oficiais superiores de alta patente, ex–comandantes de exército? Idem. Mestres e PhD’s em informática, em organização, em planejamento estratégico, em pesquisa operacional, professores de economia formados nas mais reputadas universidades, daqui e do exterior? Dezenas constam das fichas de sócios do clube. Estatísticos, contadores, médicos–veterinários, comerciantes de sucesso, jornalistas, empresários, homens de televisão, publicitários de fama e engenho, diplomatas de passado irretocável na defesa dos superiores interesses do Brasil? É só procurar que encontra. 

Não há um só campo da administração e do conhecimento moderno que não conte com representante entre os milhares de sócios do JCB.

Há até, quem diria, gente que conhece turfe, corridas de cavalo e cavalos de corrida em todos os seus pormenores e entranhas.

Há criadores excepcionais que estão construindo a história da indústria nacional do PSI; há proprietários entusiasmados que continuam a investir tempo e dinheiro na atividade e mantêm – com seu bolso e sua paixão – os milhares de empregos, de milhares de profissionais da atividade. Há gente integrante da elite do país que praticamente foi criada dentro do JCB, vendo corridas e amando esse esporte. Há dezenas e dezenas de notáveis exemplos de “homens do cavalo” entre os sócios do Jockey Clube Brasileiro.

Se é assim, então, qual a dificuldade de convocá–los a contribuir para repor o clube e o turfe do Rio de Janeiro em sua rota, e fazer do JCB a instituição respeitada, equilibrada e próspera que ela deve ser – e pode ser?

Parece razoável desenvolver o tema.

Liderança

Quando Linneo de Paula Machado construiu o majestoso conjunto arquitetônico do Hipódromo Brasileiro (e parte das vilas hípicas, inclusive), contando apenas com a “sympathia” das autoridades públicas de então (leiam o que diz a placa de bronze em uma das colunas da tribuna), foi recrutar no quadro social do JCB, à época bem menor, o que havia de melhor em termos de colaboradores. Independente de gostos e de “partidos.”

Seu sonho não se detinha diante de considerações dessa espécie, muito menos sofria dos reducionismos que separam o mundo em probos e réprobos, de acordo com nossa limitada perspectiva pessoal. Graças a Dr. Linneo e ao seu espírito empreendedor, hoje existe um Jockey Club Brasileiro. 

Mas os anos se passaram e, cada vez mais e com maior intensidade, o orgulho da estirpe e a consciência do valor contribuíram para ir, aos poucos, separando e dividindo os homens do JCB. Divergências de opinião e idéias fazem parte do espírito humano. Nada mais previsível, portanto. 

Até o instante, porém, em que o nobre empreendimento, como um todo, passou a sofrer na carne as cicatrizes e conseqüências do cisma. Perdeu o respeito próprio, perdeu importância no seio da sociedade, perdeu o velho charme, virou pasto de fomes pretéritas por poder e representatividade. Estiolou–se. É esta, infelizmente, a atual situação do Jockey Clube Brasileiro, e, dentro dele, do turfe do Rio de Janeiro.

De tanto olhar o abismo, o abismo passou a olhar o Jockey Club Brasileiro.

E hoje, o clube vive um dos mais conturbados períodos de sua longa história, navegando à deriva entre os escolhos de irremediáveis dissensões internas. Seu rumo não é outro, senão o da colisão.

Inútil tentar fazer voltar o relógio do tempo e deter–se na análise do que ocorreu nesses últimos anos, à cata de eventuais culpados. Culpados somos todos nós. Além do que, isso só agrava a atual quadra de decomposição da instituição, acirra os ânimos e amplia o ranger de dentes. 

O lugar para discutir o que poderia ter sido e não foi, não é mais aqui no JCB. Passou. É jornal de ontem. Aqui e agora, a questão é inteiramente objetiva: como tirar o clube do impasse – principalmente político – em que se meteu, e fazê–lo caminhar na direção de sua normalidade. 

A questão, neste momento, não é outra senão a de reunir as lideranças de cada um dos setores da entidade, fazer com que elas dialoguem a exaustão – superem os narcisismos das pequenas diferenças – e, afinal, promovam o rompimento da inércia que aí está, paralisa o clube, e, nesse ritmo, acabará por destruí–lo.

A questão agora, é a de como convocar as melhores cabeças do quadro social, independente de sua origem, e emulá–las para colaborar no processo de recolocar o clube e o turfe novamente de pé, e fazê–lo caminhar com as próprias pernas.

Há algumas idéias de como conseguir isso. Duas delas, entretanto, parecem mais urgentes: (i) acabar com o prejuízo do turfe, e (ii) estruturá–lo de forma mais racional e mais eficiente.

O prejuízo do turfe

A primeira constatação, é a de que o JCB não vai a lugar algum enquanto continuar tolerando a permanência do prejuízo do turfe, que, entre outras mazelas, vulnera a própria estrutura patrimonial do JCB. E esta é uma questão que transcende os esforços individuais de qualquer administração, pois afeta diretamente os interesses do quadro social como um todo, turfistas ou não.

Na verdade, o grande e decisivo argumento para mobilizar todas as lideranças da instituição é exatamente este: trabalhar no sentido de diminuir o prejuízo do turfe num primeiro momento e, afinal, equilibrar a atividade. 

Embora difícil, a tarefa é perfeitamente possível (já foi conseguida no passado, em circunstâncias tão ou mais graves que a atual), sem que se tenha de apelar para soluções exóticas e disparatadas como a de destruir as vilas hípicas, ou alienar patrimônio. Isso só agravaria o quadro geral, sem resolver a questão principal.

De saída, a administração de um clube – ou de uma empresa – que tenha 70%(!) de suas vendas entregues a terceiros e se recuse a fiscalizar esses terceiros, está flertando com o desastre. Em qualquer empresa do mundo, os acionistas já teriam demitido o Chief Executive Officer (CEO) e seus auxiliares diretos há muito tempo. E não só por simples incompetência; mas por sinais evidentes de estarem fora de seu juízo mental.

Aqui, porém, não se trata só de fiscalizar os credenciados. Trata–se de promover uma constante interação com eles; suprir suas carências (consertar imediatamente as máquinas que quebram, por exemplo...); premiar a excelência e punir os desvios de conduta; mantê–los perto e prestigiados, ao invés de longe e entregues à própria sorte. Quem não sabe como se faz isso, deveria ficar de fora, ou ir para casa. Pois é inimaginável que ninguém tome conta, no dia a dia, de 70%(!) do faturamento de vendas do JCB. 

Mas o que fazer, se o JCB não tem – e se recusa a ter – um diretor de apostas que interaja com os credenciados? Inimaginável, posto que ridículo.

Mas a esse diretor de apostas não incumbe somente isso.

Em qualquer turfe organizado, do Japão à África do Sul; dos EUA a Cingapura; da Nova Zelândia ao Chile, um dos segmentos mais importantes de uma sociedade promotora de corridas – talvez mesmo o mais importante – é a chamada “casa de apostas.” Tautológico: o turfe mundial vive do volume de apostas que arrecada (entre nós, chamado de MGA). Assim, ao diretor de apostas cabe, também, verificar se a “estrutura dos jogos ofertados ao apostador” (é esse o nome do problema): (a) atende aos hábitos e cultura locais; e (b) exibe a melhor correlação custo/benefício para a entidade.

Provavelmente, nossa “estrutura de jogos” em corridas de cavalo – complicadíssima, cambiante, de difícil entendimento até para quem é turfista e apostador – está errada! E está errada, simplesmente, pelo fato de que ela é produto dos “achismos” de ocasião, e não do estudo sério e consciente de suas múltiplas e variadas possibilidades.

Se a alguém interessa saber, os jogos em corridas de cavalo tendem hoje em dia (no mundo!) à simplicidade; aqui, tendem a uma pretensa sofisticação, na qual uma determinada espécie de aposta invariavelmente “canibaliza” outra. Neste particular, praticamos, há anos, a autofagia.

Esta, também, é tarefa de um diretor de apostas que saiba o que está fazendo, e discuta – com a vice–presidência de turfe – os prós e contras de cada modalidade de apostas. E, claro, conheça a fundo a estrutura dos jogos nos países onde o turfe deu, e dá certo.

Em outras palavras, ao invés de contratar “superintendente(s)” a peso de ouro para cuidar do hipódromo (coisa relativamente fácil para quem é do ramo), o que uma administração inteligente do JCB teria que fazer é entregar o hipódromo a quem sabe (há dezenas de pessoas no quadro social que saberiam exatamente como gerenciá–lo), e alocar os escassos recursos disponíveis na montagem de uma equipe que cuidasse, prioritariamente, dos agentes credenciados e da estrutura das apostas.

Mesmo porque, sem volume de apostas (MGA) não há hipódromo (muito menos “superintendente”) que resista por muito tempo.

Infelizmente, porém, a inversão de prioridades parece ser a tônica do atual JCB. E se não for por mera teimosia, ou orgulho de julgar–se melhor e mais criativo do que aconselha e informa a experiência mundial, ninguém realmente sabe o que é. Assim, até o instante em que essa postura mude, seguiremos tentando reinventar a roda. Muitos já pretenderam isso. Até o dia em que ela passou por cima deles e os esmagou.

Estrutura de organização do turfe

A segunda constatação, é a de que turfe não é mais brincadeira de gente diletante. Foi. No tempo dos reis absolutistas e da nobreza que os cercava. Neste início do século XXI, turfe é uma indústria que movimenta recursos astronômicos, criou um mercado mundial que emprega milhares de pessoas, é supervisionado por entidades nacionais e internacionais, e sua administração pressupõe um mínimo de conhecimento da atividade. Mínimo!

Por outro lado, ao turfe de qualquer país desenvolvido se permite uma estrutura de organização tecnicamente autônoma para poder modernizar–se e crescer. Embora seja assim em qualquer lugar do planeta, é exatamente aqui que começam os atuais problemas do JCB, quando se nega à atividade sua capacidade de autogovernar–se.

Hoje, quem dirige o turfe da Gávea não é mais o vice–presidente de turfe. Sumiram com a função. Tampouco, sequer existe presidente da Comissão de Corridas. E a estrutura formal de organização não passa de mera ficção. Em matéria de turfe, tudo hoje no JCB, infelizmente, funciona seguro pela inércia. Se soprar, desmonta.

Supostamente, quem hoje tenta, aos trancos e barrancos, “gerenciar” a atividade – diga–se de passagem, uma perspectiva sui generis em termos internacionais, agravada pela pouca, ou nenhuma, experiência com o assunto – é o presidente do clube. O resultado final dessa miscelânea de conceitos e posturas não poderia ser outro: perplexidade, desorientação e, claro, a permanência do prejuízo.

Enquanto o turfe do Rio não recuperar sua estrutura formal de comando; enquanto continuar a ser tratado com o diletantismo próprio dos improvisados; enquanto não exibir independência técnica e programática em relação aos poderes da presidência; enquanto não cuidar de perto de seu volume de vendas e melhorar sua estrutura básica de apostas; enquanto não for bem representado junto aos poderes deliberativos do clube, não há saída: o prejuízo permanecerá.

Uma historinha útil

Voltamos a maio de 1940. A França foi derrotada em duas semanas, Paris ocupada, os alemães chegaram aos portos do Canal e tomaram as pequenas ilhas entre França e Inglaterra. Vai começar a Batalha da Inglaterra. O Parlamento inglês pressiona, pede, implora, que Chamberlain, então primeiro–ministro, se vá. Ele, afinal, atende ao pedido, e é substituído por Winston Spencer Churchill (até aquele instante, Primeiro Lord do Almirantado, leia–se, ministro da Marinha).

Primeira providência de Churchill assim que assumiu: montar um “governo de coalizão”, ou seja, pôr todas as lideranças da Ilha e todos os homens de bem, de todas as tendências e partidos, no mesmo e único barco, àquela altura ameaçando afundar. Inclusive, convocou seu maior rival, Clement Attlee, líder trabalhista, e lhe entregou o importantíssimo Ministério do Interior (toda a política interna inglesa), enquanto ele, Chuchill, foi cuidar da Guerra. O resto é história.

Hoje, o JCB, e dentro dele o turfe do Rio de Janeiro, vivem, guardadas as devidas proporções, situação parecida. Tudo no clube rapidamente se degrada, da manutenção de suas instalações, à absoluta falta de perspectiva do turfe, princípio e razão última da existência da entidade. A atual crise institucional do JCB não é somente econômica, mas, principalmente, política.

Não há outra saída, senão a de colocar os homens de bem do Jockey Clube Brasileiro no mesmo barco, independente de sua origem e “partido”, criando as condições e a estrutura de organização que lhes permita trabalhar.

Posta em termos realistas, hoje o problema do JCB é encontrar quem consinta em conduzir o clube a partir da penumbra do proscênio, trazendo para a boca de cena (1) o Conselho, único representante dos superiores interesses dos sócios; e (2) os responsáveis indicados por esse órgão para conduzir, no dia a dia, as três grandes áreas de interesse em que se divide a instituição: turfe, sede social, e sede da Lagoa.

Alguém que, como nas organizações complexas, se comporte apenas e tão somente como o coordenador e principal incentivador dos esforços comuns da instituição, e seja o súdito leal da vontade dos sócios, traduzida em um programa–orçamento exaustivamente debatido e, afinal, aprovado pelo Conselho dos pares.

O que o JCB precisa hoje é dos homens comuns, os anti–heróis, com a certeza de conhecer seu ofício, e dotados da modéstia de perguntar antes de agir.

Desse tipo de pessoas, felizmente para o JCB, o quadro social é pródigo.

Pois imaginar que um clube grande e complexo como esse possa ser conduzido pela “clarividência” e os poderes divinatórios de uns poucos, sem contar com o apoio da maioria dos sócios, é rasgar os manuais que definem colaboração e liderança nos empreendimentos humanos.

E se alguém achar que pode, sozinho, travestir–se de Deus e operar o milagre de recolocar o Jockey Club Brasileiro em seu eixo, estará apenas colaborando para prolongar sua agonia.



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