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Dezembro | 2009

2009: Um bom ano para o Turfe brasileiro?, por Victor Corrêa
30/12/2009 - 15h33min

Gerson Martins

Jorge Ricardo: motivo de orgulho para todos os brasileiros

Enfim, chegamos aos últimos dias de dezembro. E quando, a princípio, já conseguimos colocar tudo “em ordem”, costumamos olhar para trás. Analisar e balancear, os prós e os contras, de outros doze meses que passaram. Os principais canais televisivos começam a exibir as suas “retrospectivas”, e cada um de nós, com o seu próprio juízo, também faz a sua. E com o nosso turfe, não poderia ser diferente.

Em mais um ano, criadores, proprietários e profissionais resistiram bravamente nesta missão que em muitos casos chega a ser heróica em dias atuais: promover a sobrevivência do “esporte dos reis” no Brasil. No entanto, o quadro não deve render qualquer tipo de comemoração. As dificuldades seguem minando a estrutura da atividade, regida por entidades que, entre erros e acertos, seguem correndo contra o tempo em busca de melhores perspectivas.

E 2009 começou já de maneira bastante agitada, principalmente para os lados da Gávea. A mais do que necessária reforma na pista de grama do Jockey Club Brasileiro obrigou a Comissão de Turfe do JCB a confirmar a abertura das Tríplices Coroas – e depois as respectivas segundas etapas – para a pista de areia. Um cenário inusitado para provas de grupo I tradicionalmente disputadas no gramado, mas que começou a fazer brilhar a estrela de Smile Jenny (Wild Event). Se no exterior Zenyatta (Street Cry), Rachel Alexandra (Medaglia d’Oro) e Vodka (Tanino Gimlet) deixaram os “meninos” a verem navios em alguns dos principais embates do turfe mundial, as pistas brasileiras também se deram ao luxo de contar com uma fêmea acima da média neste ano.

Fácil ganhadora das duas primeiras Coroas – GGPP Henrique Possolo (gr.I) e Diana (gr.I) – a potranca do Stud Torna Surriento perdeu no galão trocado o título de Tríplice Coroada no GP Zélia Gonzaga Peixoto de Castro (gr.I), vencido por Estrela Anki (Thignon Lafré) e já corrido na nova pista de grama da Gávea. Passada a dor pela escamada derrota nos 2.400 metros da última etapa, a crioula do Haras Santa Maria de Araras brindou a mais importante vitória de sua campanha. Batendo os machos, Smile Jenny se tornou a primeira fêmea a vencer o GP Copa ABCPCCP Clássica – Matias Machline (gr.I) em toda a história da disputa.

Ainda na primeira metade de 2009, pudemos vibrar com outros ótimos corredores, e em alguns casos viver um flashback, que nos remeteu a momentos brilhantes vividos anteriormente pela comunidade turfística brasileira.

A começar pelo fato de que, depois de treze anos, o Brasil voltava a abrigar uma edição do GP Associação Latino Americana de Jockey Clubes e Hipódromos (gr.I). No dia 14 de março, o Hipódromo de Cidade Jardim sediou o importante embate, que marcou a nona conquista de um animal brasileiro – a terceira de um crioulo do Haras J.B.Barros – no prestigioso páreo, no caso a do tordilho Hot Six (Burooj).

Três dias depois, Light Green (Blush Rambler) deu à criação brasileira o Prix Apollonia, vencido de maneira categórica no gramado de Longchamp, que meses mais tarde teria naquele mesmo Hot Six o segundo animal brasileiro a participar do Prix l’Arc de Triomphe (gr.I).

Aos mais saudosos, valeu também a recordação do excepcional Siphon (Itajara), que teve a sua vitória no Santa Anita Handicap (gr.I) de 1997 revivida pelas patas do inesgotável Einstein (Spend A Buck), e o seu segundo lugar para Singspiel (In The Wings) na Dubai World Cup (gr.I) do mesmo ano reeditado por Glória de Campeão (Impression), o segundo colocado para Well Armed (Tiznow) em 2009. Aliás, este neto de Clackson (I Say) foi uma das melhores revelações do ano. Quando exportado, Glória de Campeão deixou o país na condição de bom milheiro. Nada Mais. No entanto, sua evolução ocorreu de modo bastante significativo, e após se destacar em Nad Al Sheba, o castanho ainda encontraria forças para vencer a Singapore International Cup (gr.I), em maio, quebrando o recorde da distância dos 2.000 metros na pista de grama do Hipódromo de Kranji.

E o turfista que pela manhã se dava conta da vitória de Glória de Campeão do outro lado do Mundo, à tarde acompanhou um Flymetothemoon (Roi Normand) impecável no Grande Prêmio São Paulo (gr.I). Livre de sua “balda” de procurar “colar” na cerca interna a todo custo, o castanho do Haras Doce Vale levou a melhor sobre o seu rival Hot Six, que finalizando em segundo, “caiu de pé” na prova máxima do turfe paulista.

Paulistas em festa, gaúchos e paranaenses também. Estes inclusive, em comemorações já no mês de abril, uma vez que tanto o Cristal quanto o Tarumã ganharam novos Tríplices Coroados. Capo Lavoro, um filho de Dodge (Mr.Prospector) que só fez melhorar com o aumento da distância, roubou a cena em Porto Alegre, enquanto Vitalino Mestre (Torrential), vencendo as duas primeiras Coroas em recorde, deu “pinta” de craque em Curitiba.

Hot Six ganhou o “Latino” e teve seu algoz em Flymetothemoon. Flymetothemoon ganhou o “São Paulo” e teve o seu algoz em Jeune–Turc. Um exemplar brilhante da produção de Know Heights (Shirley Heights), que desde a sua vitória no GP São Paulo de 2008 vinha devendo uma atuação mais convincente. E ele o fez em agosto, na sua vitória massacrante no Grande Prêmio Brasil (gr.I), quando se pôs ao lado de consagrados corredores que conseguiram emplacar o doublé nas duas principais disputas do nosso calendário. O seu terceiro lugar conquistado na mais recente edição do Gran Prêmio Carlos Pellegrini (gr.I) só fez confirmar a condição de Jeune–Turc como a principal “estrela” do turfe nacional no segundo semestre de 2009.

Ainda de pistas portenhas, vieram atuações das mais honrosas como as de Lieve (Golden Voyager) e Kapo di Tutti (Redattore) na milha do Gran Prêmio Joaquin S.de Anchorena (gr.I) – respectivamente segundo e terceiro colocados – e de Odds On (Roi Normand), terceiro colocado no Derby do Gran Prêmio Nacional (gr.I), disputado em novembro na pista de Palermo.

No Uruguai, em mais um ano, os resultados agradaram em cheio: desde a dobradinha brasileira no Gran Prêmio José Pedro Ramírez (gr.I), protagonizada por Relento (Fahim) e Bucaneer (Boatman), até o laurel de Fortuna Certa (Arambaré) na Segunda Coroa do Gran Prêmio Jockey Club (gr.I).

E seguindo num âmbito internacional, não há como não citar o feito de Fluke (Wild Event), que ao vencer o Citation Handicap (gr.I) em Hollywood Park no mês de novembro, assumiu o posto de décimo terceiro animal brasileiro a levantar prova de graduação máxima nos Estados Unidos. Um êxito que enalteceu a memória de Bobby Frankel, falecido na semana anterior ao páreo, e que deu um tom bastante especial ao mês de novembro, que por sua vez já havia sido marcado positivamente para nós brasileiros, pela vitória de Tenarin (Romarin) no Grande Prêmio Derby Paulista (gr.I), que teve o seu recorde quebrado pelo qualificado alazão.

Fatos consumados dentro das pistas, fora delas, nos “bastidores”, dentre outros acontecimentos, alguns fatos concentraram de maneira mais precisa a nossa atenção.

Depois de muitos anos, enfim o turfe brasileiro foi agraciado com um evento à altura da premiação dos melhores de seu ano hípico. O Troféu Mossoró, antes entregue numa tímida celebração no Salão das Rosas do JCB, que concorria com a jornada do sábado do GP Brasil, neste ano contou com uma bela cerimônia no Clube Veneza, em Botafogo, numa mais do que louvável atitude da Associação Brasileira dos Criadores e Proprietários do Cavalo de Corrida.

Outra ocorrência interessante foi a aproximação de potências do turfe num contexto mundial com coudelarias e entidades brasileiras, que de pronto proporcionou a vinda de valiosos e renomados reprodutores ao Brasil, além de patrocínios estendidos a páreos e promoções por aqui realizadas.

E por fim, vem a menção daquele que segue sendo motivo de muito orgulho, não apenas para o turfista, e sim para todos os brasileiros que tomam partido dos seus feitos. Jorge Ricardo, não bastasse todos os seus recordes e vitórias expressivas, foi mais uma vez exemplo vivo e prático de força de vontade e superação. Em julho, o bridão anunciou o seu afastamento das pistas para o tratamento de um linfoma, e apenas quatro meses depois lá estava ele, nos matinais da Gávea, retomando a sua posição mais confortável: o dorso de um Puro Sangue Inglês. Com a gana de vencer que é sua marca registrada, Ricardinho levou a melhor no páreo mais complicado de toda a sua carreira profissional, e vê–lo voltar a entrar em ação nas imediações da festa do “Pellegrini”, foi, ainda que um bocado adiantado, o melhor presente de Natal que o turfe brasileiro poderia ter recebido.

Transcrito do Jornal Informativo N°320 da APFT



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