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Dezembro | 2009

Ecos de um Pellegrini de 80 mil espectadores, por Sergio Barcellos
18/12/2009 - 12h01min

Segundo as manchetes dos jornais portenhos da manhã seguinte, domingo, dia 13 de dezembro, os portões do estacionamento de San Isidro – que não é pequeno – tiveram que ser fechados duas horas antes da prova principal, realizada no sábado, dia 12. Não havia mais lugar para nenhum veículo nas dependências do belíssimo hipódromo. E o público, àquela hora, já havia batido em 78.000 espectadores; mais de 80.000, momentos antes da largada.

Por coincidência, nessa mesma tarde disputava–se a final do aberto argentino de pólo, considerado o maior torneio desse esporte do mundo. Nas arquibancadas do estádio, localizado nos terrenos da Remonta e Veterinária do Exército, em Palermo, 15.000 espectadores viram o La Dolfina (do renomado Cambiaso, um ídolo nacional capaz de façanhas similares às de Maradona no futebol) derrotar o Ellerstina por 17 x 16. Ambos os eventos, o Pellegrini e a grande final do pólo, foram televisionados ao vivo.

Então, eis a tese: os argentinos são apaixonados pelo cavalo e há sempre público para os diversos esportes hípicos, principalmente o turfe. Verdade. Porém, mais verdadeiro ainda é que esta paixão só é possível porque amparada e protegida por uma impecável estrutura de organização da atividade – totalmente autônoma do ponto de vista técnico – onde  improvisação e superposição de funções não têm vez.

Parece interessante desenvolver o tema, antes de entrar nos aspectos concretos do 124° Gran Premio Internacional Carlos Pellegrini (disputado desde 1887) – e este ano patrocinado por nove entidades públicas e privadas argentinas (a Secretaria de Turismo da Presidencia da La Nacion; o Gobierno Municipal de San Isidro; a Lotería de la Provincia; o canal de TV ESPN; o Casino Victoria; os Aeropuertos de Argentina 2000; o Buquebus; o Hope Funds; e a VIZORA Desarrolos Inmobiliarios), fato que elevou a bolsa da prova a 1.320.000 pesos (cerca de US$ 350,000), sendo 840.000 pesos (US$ 225,000) ao primeiro colocado.

De saída, o convite para as delegações estrangeiras diz quase tudo sobre a forma como o turfe daquele país é administrado: quem convida para a festa não é apenas o presidente do Jockey Club Argentino (Bruno Quintana). Junto com ele, também convida e assina o convite, o presidente da “Comision de Carreras” (Emilio Raúl Dumais).

Fácil de entender: num clube com maior número de sócios que o Jockey Club Brasileiro (são cerca de 7.000), e que desenvolve atividades as mais díspares, como o golfe e o pólo, o turfe só sobreviveria a partir da segregação de sua gerência do contexto mais amplo e heterogêneo da instituição.

Por outras palavras, quem dirige o turfe no Jockey Club Argentino, há décadas, são os chamados “homens do cavalo”, sejam criadores, sejam proprietários, aqueles que, desde Carlos Pellegrini, em 11 de outubro de 1882, criaram e conduzem a centenária entidade.

Cavalo de corrida, pelo menos na Argentina, é com quem gosta e conhece isso. Quem não gosta, ou não entende, ou gosta pouco, ou não se interessa diretamente pelo esporte, estes exibem a modéstia dos sábios, rendem–se às circunstâncias de suas preferências pessoais, e delegam o exercício da atividade a seus pares do corpo técnico da “Comision de Carreras.” É a eles que incumbe a tarefa de dirigir os destinos do turfe. E a mais ninguém.

Nos dias que antecedem a festa, os seminários internacionais promovidos pelo Jockey Club sobre os vários e múltiplos aspectos da indústria se sucedem. E não se fala de outro assunto nos salões dourados da Avenida Alvear, 1345, como se tudo fosse apenas uma preparação para o instante máximo da realização do Pellegrini.

Na quinta–feira, por exemplo, os membros da “Comision de Carreras”, acompanhados de suas mulheres, se encontram com os médicos–veterinários e suas famílias para o ritual do almoço nos salões refrigerados de San Isidro (de terno e gravata), uma tradição que se renova a cada ano.

Na noite de sexta–feira, véspera da prova, o Jockey Clube Argentino acolhe as delegações estrangeiras (este ano eram seis: Brasil – São Paulo e Rio de Janeiro, Turquia, Peru, Uruguai, e Chile) para o coquetel e jantar de gala nos impecáveis salões de sua majestosa sede da Recoleta, sustentados por colunas de Carrara grená e veios brancos, paredes decoradas por imensos Gobelins, e óleos de cavalos famosos.

Convenhamos tratar–se de outra história, e outro modo de ser. Na verdade, uma outra gente, que cultiva, prestigia, e preserva intocada a liturgia de tradições hípicas que se perdem na memória do tempo. 

Vestígios do dia

Percorrer a lista dos ganhadores do GP Internacional Carlos Pellegrini ao longo dos anos, pode despertar emoção estética em quem gosta de corridas de cavalo e cavalos de corrida.

Lá estão nomes como os de Botafogo (1917); Macon (1925 e 1926); Congreve (1928); Romantico (1939 e 1940); Filon (1944 e 1945); Cruz Montiel (1949); o fantástico Yatasto (1951); Branding (1952); El Aragonés (1953); Tatan (1956); Manantial (1958); o nosso imortal Escorial (1959); Atlas (1960); El Centauro (1963); o alazão Forli (1966, até hoje a maior influência do turfe sul–americano na criação do PSI mundial); Praticante (1969); o fenômeno Immensity (1983); o inesquecível Much Better (1994), e tantos outros.

Este ano, como se sabe, venceu–o um excelente potro de 3 anos, Interaction, filho do americano Easing Alone (Storm Cat, em mãe por Ride the Hails), pilotado por Edwin Talaverano, jóquei que é dotado de um dos percursos mais perfeitos de quantos já apareceram em pistas sul–americanas.

Para os brasileiros presentes a San Isidro, porém, ficou a bela impressão do nosso Jeune–Turc (Know Heights e Creature du Ciel, por Machiavellian), que, tendo de encontrar seu caminho em meio a um verdadeiro muro de animais batidos à sua frente, ainda assim, na base do puro coração, veio reclamar seu lugar de honra nos metros finais da prova. Com o detalhe de dar nada menos que 7 quilos ao vencedor, fato que, em 2.400 metros, representa uma desvantagem considerável (para se ter idéia do que isso pode significar, a tabela internacional de pesos é construída com base no conceito teórico de que 1 quilo de diferença no peso é igual a 3 metros de distância no disco, em 2.000 metros de percurso...).

Na milha do Joaquin de Anchorena (Grupo I), como nos 1.000 metros do Felix de Alzaga Unzué (Grupo I), outra vez brilhou a habilidade de Talaverano. Na milha (disputada na grama leve e dura, a ponto de soltar uma nuvem de poeira na entrada da reta), alguns acham que Marcos Mazini talvez tenha exigido Lieve (Golden Voyager e Valerie, por Baynoun) cedo demais, sem se exatamente dar conta que a reta de San Isidro é bem maior que as da Gávea e Cidade Jardim.

De qualquer forma, Lieve, correu excepcionalmente bem, tendo perdido para um tempo que não se vê com freqüência em nenhum hipódromo do mundo. Da mesma forma, apesar de nervoso, escoiceando e arrastando o segurador (talvez não tenha gostado da proximidade da multidão em torno do paddock), Kapo di Tutti (Redattore e Grany’s Pie, por Ghadeer) também se apresentou de modo inteiramente satisfatório.

Não, não temos nada a reclamar. Ao contrário, os cavalos brasileiros, apesar dos percalços naturais da viagem e da mudança brusca de ambiente, nada ficaram a dever nos confrontos com a elite do Continente.

Novamente, a hipótese se confirma: estamos criando animais duráveis que competem e continuam a vencer e a se colocar em importantes provas de Grupo no exterior, não importa o hemisfério, os hipódromos e as pistas em que se apresentam; os investimentos dos haras em novas matrizes, “shuttle” de reprodutores, e melhoria do solo, continuam a acontecer; há um importante núcleo de proprietários que, apesar dos pesares, mantém preservado seu interesse pelo esporte; e nossos profissionais do ofício têm dado mostra de sua competência.

Se alguma coisa está faltando – e está – é que as sociedades promotoras de corridas se coloquem, afinal, à altura da indústria doméstica do PSI. Infelizmente, hoje nosso grande problema, a pedra no caminho do turfe brasileiro, é a duvidosa administração dos Jockeys Clubs do país. Libertar a atividade, parece ser, a esta altura, a única e fundamental solução para seu crescimento.

A programação do dia do Pellegrini

Os horários e a quantidade das provas nos dias de festa do turfe argentino não são escolhidos ao acaso. Aliás, nada mais acontece por acaso nos turfes desenvolvidos do mundo.

Assim, começar a programação de corridas às 13:00 hs, e estendê–la até às 22:30 hs, no total de 9 horas e meia de duração e 18 páreos, atende rigorosamente aos gostos e preferências do público local, medido por pesquisa dos hábitos de turfistas e adeptos desse esporte. O que a nós pode parecer um exagero, para eles não é. E as pesquisas indicam isso.

Dos 18 páreos, nove deles foram destinados aos potros e potrancas de 2 e 3 anos de idade (50% do total); quatro aos cavalos e éguas de 4 anos; dois aos animais de 6 anos e mais idade; além dos três clássicos de Grupo I, e como tal  abertos aos 3 anos e mais idade.

Finalmente, durante a semana que precedeu o Pellegrini 2009, diversas chamadas diárias na TV, e o “mobiliário urbano” de Buenos Aires – principalmente aquele localizado em áreas de maior renda e nas cercanias dos hotéis cinco estrelas – exibia farto material publicitário em torno do evento, baseado no moto: “Pellegrini, a grande final do turfe.”

Eis aí, um breve resumo do que foi a maior festa do turfe argentino.

Se um dia quisermos pôr 80 mil pessoas (algo parecido com a final do Campeonato Brasileiro de Futebol) para assistir ao vivo as grandes provas do turfe nacional, é razoável que paremos de deblaterar sobre nossas fragilidades, e coloquemos mãos à obra, no sentido de resgatar este esporte do abismo em que se meteu.

Começando, é claro, pela melhoria das acomodações de nossos principais hipódromos, ao invés de entregá–los à sua própria sorte, e vê–los degradar–se e ruir diante de nossos olhos, como hoje desgraçadamente ocorre.

Este é, sem dúvida, um caminho longo e difícil, que começa, antes de tudo, pela reforma da postura dos dirigentes das principais sociedades promotoras de corridas entre nós – todos hoje desafiados, em variados graus de intensidade, a demonstrar que exibem competência, conhecimento, e a qualidade da imaginação necessária para lidar com a atividade que tanto ambicionaram dirigir.



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