Alex Sander Barros Mota é treinador de cavalos de corrida e ex–jóquei de peso e reconhecimento no país. Como profissional atuante na área, A.Mota contou ao Raia Leve um pouco de sua história, seu presente e até mesmo perspectiva futura. Tudo isso, é claro, contextualizando com a atual situação do turfe brasileiro.
Borboleta, como é conhecido no Hipódromo da Gávea, conheceu cedo o universo do Jockey Club Brasileiro e foi parte principal de alguns dos melhores espetáculos de cavalos já realizados na cidade. Atualmente como treinador, Alex Mota almeja conquistar vitórias que deixem, mais uma vez, seu nome marcado na história turfística.
Acostumado a lidar com cavalos de corrida desde os 11 anos de idade, hoje, aos 29, o treinador ressalta que a beleza do esporte não pode ser perdida, a começar pelo incentivo dado aos profissionais. Segundo ele, se as melhorias vierem o esporte só tem a crescer.
Veja a entrevista.
Raia Leve: Como é a rotina de um profissional do turfe?
Alex Mota: Normalmente, fico no centro de treinamento durante toda a semana. No fim de semana, os animais descem para correr e os profissionais descem também para acompanhar os desempenhos deles. Mas confesso que o melhor é sempre ficar no CT, porque o acompanhamento dos cavalos acontece mais de perto, dia a dia. E acredito que a minha resposta é igual a de todos os outros treinadores: estar perto dos animais é sempre melhor do que estar perto de pessoas. Os cavalos dão menos dores de cabeça.
RL: Na sua opinião, como pode ser avaliado o turfe brasileiro hoje?
A.Mota: O turfe em geral está precisando de melhorias, de pessoas novas que ajam de formas diferentes para levantar o esporte. Isso não quer dizer que o turfe não evolui porque é comandado por turfistas antigos. Mas parece que o turfe está estagnado no tempo e por isso, se faz pouco para a sua melhora. Hoje, eu penso que, principalmente no Rio de Janeiro, onde convivo mais de perto, estão mais preocupados com o clube do que com a corrida de cavalos, motivo pelo qual o clube foi criado. Creio que o presidente Lecca está tentando fazer algumas melhorias para o animal, mas ainda falta muito. Acho que as mudanças ainda estão muito aquém do que poderia ser feito.
RL: Então o esporte e clube deveriam ser coordenados por partes distintas, cada uma voltada para seu interesse específico?
A.Mota: Os dois não necessariamente precisam caminhar separados. Mas é claro, que o Jockey Club Brasileiro tem que destinar a primeira atenção ao dono do espetáculo, o cavalo de corrida. E o pior, é que ele está sendo deixado para trás pouco a pouco. É muito polêmico falar sobre isso, mas é a situação atual, a realidade.
RL: Você falou de melhorias para o turfe, quais seriam elas, por exemplo?
A.Mota: Hoje, o turfe é comandado no Rio por pessoas que não são turfistas, que não vivem o turfe. O primeiro passo seria instaurar na diretoria alguém que entendesse do animal, do cotidiano do cavalo. Alguém que saiba quais são as prioridades do animal, como por exemplo, um atendimento de qualidade. É importante ter pessoas que entendam de fazer festas, eventos, e propagandas, mas é necessário colocar o cavalo como o protagonista dessas festas.
RL: Seria essa a solução para o esporte no Rio de Janeiro?
A.Mota: Não só isso, mas hoje em dia a corrida de cavalos ficou muito mal vista como um jogo de azar. Esta má imagem pode ser vista em filmes e até mesmo em novelas. É comum assistir na televisão o Jockey Club Brasileiro como um lugar onde as pessoas pegam seu dinheiro, apostam e perdem. Há pouco tempo, por exemplo, a esposa do "Agostinho Carrara" o proibiu de freqüentar o clube porque ele gastou todo o salário do mês nas patas do cavalo. Isso passa uma negatividade ao ambiente. São coisas mínimas, mas o público vê como uma coisa ruim. Não pode ser assim, as pessoas têm que ver o espetáculo com a beleza do esporte não só como jogo, porque o turfe é muito mais do que isso. Em muitos esportes existem apostas, como o futebol, por exemplo, e todos continuam a ser vistos como esporte. Por que com o turfe deve ser diferente?
RL: Você foi jóquei por muito tempo e sabe de todas as dificuldades enfrentadas por eles. Em sua opinião, esta classe também precisa receber melhorias?
A.Mota: Com certeza! Trabalho há muitos anos com cavalos. Fui jóquei desde os meus 11 anos e só parei este ano, aos 29. Já venci diversos Grandes Prêmios como o Brasil e o Derby. Sei o que é ser jóquei e senti todas as dificuldades na pele. Falta um incentivo para o profissional. O jóquei é um atleta e deve ser visto como um. Alguns são mais, outros são menos, mas são atletas. O treinamento é rigoroso, é preciso manter o peso, se adaptar às dificuldades de cada raia, mas não é apenas a remuneração que deve ser vista como auxílio ao trabalho. O incentivo poderia vir também do clube, com a criação de uma boa academia, a instauração de um acompanhamento médico nutricional. Como entendedor do assunto posso te garantir que são poucos os jóqueis que fazem isso. Alguns fazem por fora. Eu fiz por um tempo, com personal trainner, mas acabei desistindo depois. É um treinamento árduo, caro e pouco gratificado.
RL: Como um dos poucos profissionais que já vivenciou os dois lados, o de jóquei e o de treinador, explique um pouco quais foram as diferenças encontradas que mais te chocaram.
A.Mota: A diferença entre jóquei e treinador é imensa. Como jóquei eu não tinha preocupação. A minha preocupação coma animal em si era referente ao seu rendimento na raia, se ele estava bem ou não para correr, não era a mesma que tenho hoje. Quando as corridas acabavam, eu pegava o dinheiro e ia para casa sem o menor problema. Hoje tenho muito mais responsabilidade. Tenho o acompanhamento diário do animal. Como jóquei eu era o dono do animal só a partir do momento que ele entrava no box até cruzar o disco. Agora tenho que saber de tudo, se ele comeu, bebeu, dormiu, se sente dores, tudo.
RL: Sente saudades dessa época, pensa em voltar a ser jóquei?
A.Mota: Não penso em voltar a ser jóquei. Eu sofri bastante. Tirei muito peso, passei muita fome, apesar de gostar muito de comer e beber. Sempre tive uma vida muito boa, não gostava de me privar das coisas. Hoje posso estar mais pesado. Já cheguei a 75 kg, mas acho que já reduzi um pouco com a convivência no Centro de Treinamento. Gosto da vida de treinador e estou trabalhando para alcançar o meu melhor desempenho.
por Danyelle Rodrigues