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Outubro | 2009

Divagações irresponsáveis, por Milton Lodi
08/10/2009 - 11h43min

Em janeiro de 2009, um representante do Sheik Mohammed esteve no Brasil. Radicado em Newmarket, altamente capacitado, esse paulista esteve em São Paulo, no Paraná, no Rio Grande do Sul, no Uruguai, na Argentina, no Chile e no Peru, colhendo dados e visitando haras, conhecendo garanhões e reprodutoras, olhando pastagens, instalações, condições criacionais, conversando com técnicos, veterinários, administradores e donos de haras. Foi uma longa e profícua viagem, e diariamente tudo era reportado telefonicamente para o gerente–geral da organização em Newmarket. Todos os apontamentos foram devidamente estudados e analisados.

Três meses depois, uma auspiciosa notícia para o turfe brasileiro surgiu inesperadamente. O Sheik Mohammed assinara um contrato com o TNT, para a vinda em caráter definitivo de 10 éguas, que ficarão no Haras TNT em Bagé (RS), e cujas crias deverão fazer campanha eventualmente no Brasil. Serão servidas por garanhões de padrão internacional que serão anualmente trazidos para as 10 éguas e para vendas de coberturas. O primeiro reprodutor, para a temporada do 2° semestre de 2009, é Elusive Quality, que em 2008 tinha as suas coberturas todas vendidas a 100 mil dólares cada, e que em 2009, com a queda geral dos preços no turfe norte–americano passou a 75 mil dólares.

Entre as considerações que possam ser feitas, além naturalmente da alta significação para o turfe brasileiro, há que se ater é o crescente sucesso internacional do cavalo brasileiro. Por muitos e muitos anos, os cavalos argentinos dominaram as corridas na América do Sul, tiveram sucesso nos Estados Unidos e na até na Europa. O sucesso financeiro do Hipódromo de Palermo deu margem a um impulso enorme no turfe argentino, com bons aumentos das dotações, e incentivando os criadores à importação de grande número de garanhões norte–americanos de preferência. O que se imaginava era um predomínio cada vez maior do turfe argentino, da criação argentina. Mas na prática ocorreram erros graves. Os argentinos cederam por completo aos encantos do canto dos dólares, vendendo não só os seus melhores potros e potrancas como também as matrizes, e, é claro, se você vende a máquina fica sem a mercadoria, se você vende o tear, fica sem o tecido.

Exagerando e a grosso modo, o parque criacional argentino virou dependência do turfe norte–americano, e como lá os animais de um modo geral são “destruídos” pelo inadequado sistema geral de treinamento, a falta de cavalos para suprir a demanda dos muitos hipódromos norte–americanos garante, para os argentinos, um contínuo interesse. Se as exportações se concentrassem só nos machos, o mal seria menor, mas os dólares levam as melhores fêmeas, as potrancas promissoras e as éguas–mães produtoras de ganhadores clássicos. Em termos de resultados internacionais, os argentinos não lideram mais os êxitos dos animais sul–americanos.

É claro que há que se levar em consideração o interesse financeiro ante a propostas tentadoras, mas há que se preservar a essência da criação, as melhores fêmeas, aquelas que garantiriam a manutenção da alta qualidade da produção. Vender as melhores éguas é vender a “alma” da criação.

Pelo menos no momento os cavalos brasileiros estão dominando o turfe sul–americano. Os comerciantes norte–americanos estão sempre à espreita, e basta despontar um bom potro, um líder de turma, e lá vêm eles, os atravessadores. É claro que dinheiro é dinheiro, mas não é tudo. Aqui no Brasil ainda há quem tenha paixão pelas corridas, amor à criação e ao turfe, que entendem do aspecto comercial, mas que não consideram o turfe como um simples e total “business”. Quem compra potros para tentar projetá–los em provas clássicas para valorizá–los e posteriormente exportá–los, ao canto dos dólares, melhor faria se comprasse ações na Bolsa de Valores, quem sabe se da Petrobrás ou da Vale do Rio Doce, terrenos bem localizados com boas perspectivas de valorização, aproveitar o péssimo momento financeiro imobiliário de New York e comprar um imóvel qualquer, com os preços em baixa, e aguardar a volta aos antigos preços, comprar com desconto cheques pré–datados para recebê–los integramente no vencimento, etc, essas seriam práticas cabíveis mais adequadas a quem imagina que o turfe brasileiro é simples “business”. Turfe é amor, é paixão, é prazer, é vibração, é vida. A comercialização é uma conseqüência natural, mas paralela; é eventual, não meta.

O turfe argentino está perdendo forças, está vendendo o que pode, e eu não sei se os grandes investimentos que têm sido feitos com a anual ida de garanhões em “shuttle” vai compensar o profundo habitual desfalque da venda indiscriminada das matrizes.

Mesmo em se considerando que o aspecto comercial está cada vez mais aguçado, tem que haver ainda lugar para entendimentos inteligentes, bom senso. Exportar uma boa fêmea desfalca o haras de continuidade de boa produção, baixando a média e o interesse nos respectivos leilões anuais, o natural menor interesse provoca conseqüente queda no preço–médio. Dinheiro na mão é bom, mas no caso interrompe uma seqüência de recebimentos com boa previsão, uma fonte normal de boa receita.

É necessário haver bom senso, contrabalançar o aspecto financeiro com os interesses pessoais e também gerais do turfe e da criação. Vender por um bom preço um corredor muito bom e depois gastar o bom dinheiro sustentando os outros não me parece prática inteligente.

O criador “fabrica” cavalos, e os vende ou não. Os proprietários compram almejando sucesso, vitórias em provas de qualidade, prazer. Eventual venda é circunstancial, é detalhe paralelo, não pode ser objetivo principal. O negócio dos cavalos só deve ser “business” para os necessários comerciantes, isto é, para agentes e agências, que têm fim precípuo para a eventual comercialização.

A compra de um potro, de uma potranca, de um cavalo ou de uma égua reveste–se de esperança, de expectativa, de um sentimento muito maior do que um simples ato comercial.



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