Introdução
Qualquer empreendimento humano pressupõe a existência de três condições básicas para poder funcionar: (i) pessoas; (ii) uma estrutura de organização que as coordene; e (iii) a divisão racional do trabalho entre elas. Sem esta última condição, é impossível a existência de uma organização.
Embora a necessidade de dividir o trabalho pareça evidente, nem sempre este conceito fundamental está presente no que se convencionou chamar de “organizações complexas.”
Nelas – seja devido a características pessoais do administrador de topo, seja pela ausência de um perfeito conhecimento do que isso signifique – o fato é que a maioria dos problemas de tais organizações decorre de uma visão distorcida a respeito da necessidade da divisão do trabalho.
Por que é absolutamente necessário dividir o trabalho? Simplesmente porque (a) os homens diferem em natureza, capacidade e habilidade para desempenhar as múltiplas tarefas deles requeridas; (b) porque ninguém consegue, por óbvio, estar em dois lugares e fazer duas coisas ao mesmo tempo; (c) porque o nível de conhecimento para lidar com diferentes assuntos é tão vasto que nenhum homem – mesmo que vivesse toda uma existência tentando – conseguiria apreender senão uma fração desse conhecimento. Em outras palavras, dividir o trabalho é, em essência, uma questão da natureza humana, de tempo e de espaço.
O Jockey Club Brasileiro (JCB) é hoje, sob todos os aspectos que se queira examinar, uma organização complexa.
Como tal, exige pessoas, uma estrutura de organização que as coordene e a divisão racional do trabalho entre elas – do conselho do clube ao presidente, e deste, permeando todos os níveis da cadeia de comando, até o mais simples dos empregados da sociedade.
Formas de dividir o trabalho
Quem já estudou, ou se interessou por administração, sabe que é possível dividir o trabalho de uma organização sob quatro formas básicas: (i) geográfica; (ii) por processo; (iii) por clientela ou material; e (iv) por propósito ou função. A isso se denomina departamentalizar uma organização (vide Theory of Organization, Luther Gulick, in Papers on the Science of Administration, New York, NY, 1954). A estrutura de organização das corporações mundiais, bem assim a da maioria das grandes empresas brasileiras é departamentalizada, não importa sob qual das quatro formas acima mencionadas.
No caso particular do Jockey Club Brasileiro, salta aos olhos de qualquer observador a necessidade de se adotar a departamentalização de suas atividades por propósito ou função. Vejamos os motivos e razões.
O caso do JCB
No princípio, o JCB era apenas turfe. Hoje não é mais assim, embora o turfe ainda seja o propósito fundamental e a razão mesma da existência do clube. Acabe–se com a função turfe e o JCB se transformará em mais uma agremiação sócio–recreativa à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, com um prédio–garagem no centro da cidade e salas comerciais para alugar.
O turfe está para o JCB da mesma forma que, por exemplo, o futebol está hoje para o Flamengo; o golfe para o Gávea e o Itanhangá; os esportes marítimos para o Iate Clube do Rio de Janeiro; a equitação para a Sociedade Hípica Brasileira; a natação para o Pinheiros (São Paulo), e assim por diante. Faz parte da natureza una e indivisível da instituição.
Com a marcha dos anos, porém – e aqui são irrelevantes os motivos que conduziram a isso – o JCB expandiu seus interesses para outras áreas do convívio social, de tal forma que, hoje, têm–se três ou mais clubes dentro de um único: o “clube” da sede da Lagoa; o “clube” da garagem no centro da cidade; o “clube” das instalações da sede social... e o turfe.
Não há a menor dúvida que, por suas implicações na economia do país e do estado; pelos milhares de empregos diretos e indiretos que gera (13.000 diretamente, segundo a FGV); pelos impostos que recolhe; pelos seus vínculos com a criação do puro–sangue de corridas (cerca de 380 haras no Brasil) e o setor agro–pastoril – e, ainda, pela própria complexidade de sua gerência – o turfe é a parte mais sensível e importante do leque de atividades desenvolvidas pelo JCB.
Como tal, sua boa condução exige conhecimentos específicos; habilidades específicas; orçamento específico; ademais de pessoal especializado e especificamente treinado para conduzi–lo com um mínimo de eficiência operacional e rentabilidade. Qualquer tentativa de improvisação – de métodos, de conceitos ou de pessoas – nos assuntos relativos à gerência do turfe, será sempre um convite ao desastre, aqui entendido como perda de credibilidade e a ocorrência de severos prejuízos econômico–financeiros para o JCB.
Numa palavra, a necessidade de se conseguir níveis pelo menos razoáveis de qualidade na gerência do turfe do Jockey Club Brasileiro é de tal ordem importante, que a desconsideração dessa variável passa a constituir uma ameaça à própria existência da sociedade.
Em outras palavras, turfe não é algo que possa ser tratado com diletantismo, informalidade ou pedante indiferença. Esse tipo de voluntarismo cobra um preço e o balanço do clube apresenta a conta.
Entre os males capazes de envenenar a gerência de qualquer empreendimento, o pior e mais danoso é o mal da improvisação. A expressão improvisar, do latim improvisus, é o produto intelectual resultante da inspiração do momento, algo súbito, repentino, ainda não testado, quase sempre utilizado como resposta a um impulso, e destituído de vínculo com a lógica ou a estrutura formal das coisas.
Em termos funcionais, o improviso tem a mesma conotação de imprudência e temeridade. Começa como desperdício, evolui para prejuízo, e pode terminar em infortúnio.
Contudo, o apelo ao improviso parece ser a tônica da gestão do turfe no Jockey Club Brasileiro – e há muito tempo. Improvisam–se pessoas, improvisam–se dirigentes, improvisam–se métodos, improvisam–se conceitos de gestão, improvisa–se subordinação hierárquica, atropela–se e subverte–se a cadeia de comando, improvisa–se praticamente tudo.
É bem de ver, que isso não constitui privilégio do JCB. A maioria dos clubes, com raras exceções, tende a adotar esse perigoso tipo de enfoque e de postura.
Clube, uma invenção inglesa, é, por definição, a reunião de pessoas em torno de gostos comuns. Quando os gostos deixam de ser comuns – como é hoje o caso do JCB –, a preocupação com eficiência e com resultados é substituída invariavelmente pelo improviso, sem que daí decorra nenhum tipo de sanção para quem tem – incidentalmente e por prazo determinado – a responsabilidade de conduzir os destinos da instituição.
No máximo, vulnera–se o conceito daquele que administra a coisa comum. Ainda assim, essa eventual perda de credibilidade é limitada ao âmbito da convivência com os pares e associados. Nada especialmente dramático ocorre em termos de vida, fato que, infelizmente, colabora para ampliar o exercício da improvisação.
Há, porém, formas de neutralizar, ou reduzir os efeitos dessa característica, que é típica dos clubes. A mais inteligente – talvez a única possível diante da natureza dessas entidades – é dar às suas atividades uma estrutura formal de organização e um conjunto de regras que contribuam para prevenir a ocorrência de eventuais desvios de conduta, e inibam, de saída, distorções de interpretação sobre o que realmente se espera delas.
É o que veremos no próximo tópico.
Uma estrutura formal para o turfe do Rio de Janeiro
A experiência tem demonstrado que o turfe do Rio de Janeiro é vítima, há anos, de erros de interpretação sobre a melhor forma de conduzi–lo.
Deles, o mais notório parece ser sua subordinação, não só técnica, mas principalmente programática, a uma só e única pessoa: o presidente do Jockey Club Brasileiro.
Não se sabe exatamente de onde provém, e quando teve origem, a idéia de que o presidente eleito do JCB é sempre o indiscutido senhor dos destinos da atividade turfística. Este tipo de entendimento, que privilegia a centralização excessiva e pressupõe a existência de dons divinatórios, a par de celestial clarividência, reunidos ambos em mãos de uma só e única entidade, dir–se–ia supra–terrena – o “presidente” –, não encontra similar em nenhuma outra instituição da vida moderna. Nem os príncipes absolutistas jamais ousaram tanto...
O efeito mais perverso disso é que, quando o presidente erra, praticando, aliás, como qualquer mortal, sua porção comum de humanidade, quem sofre e paga as conseqüências é o turfe.
Então, parece razoável, e o bom senso aconselha, que a pessoa do presidente do JCB passe a ser vista e entendida apenas como o “primus inter–pares”, principal coordenador e incentivador de uma estrutura formal de comando que inclua, no mínimo:
(1) um vice–presidente de turfe com arbítrio para decidir em todos os assuntos técnicos de sua área de competência;
(2) uma única Comissão de Corridas – e aqui é irrelevante quantas chapas pretendam, futuramente, concorrer às eleições da sociedade –, comissão esta escolhida entre os sócios do JCB com notória e comprovada experiência nos assuntos ligados à atividade;
(3) um diretor de apostas, subordinado tecnicamente ao vice–presidente de turfe, e responsável pela gerência de uma das áreas mais sensíveis da atividade – na verdade, hoje, talvez a mais importante do ponto de vista de sua sobrevivência.
Deve ser mencionado que a existência desses cargos permanentes na estrutura do JCB, bem como a descrição de suas funções, não implica, de nenhuma forma, necessidade de modificação nos atuais Estatutos do clube.
Descrição de funções
Assim, ao vice–presidente de turfe – e também presidente da Comissão de Corridas – incumbe:
(a) Coordenar e aprovar os trabalhos de elaboração da programação clássica anual e da programação semanal de corridas, com base em proposta encaminhada pelo “handicapeur” e a secretaria da Comissão;
(b) Presidir a reunião plenária da Comissão de Corridas, a ser realizada mensalmente, no mínimo;
(c) Designar os comissários de corrida responsáveis pelo julgamento das reuniões e aprovar a escala dos plantões;
(d) Coordenar e dirigir os chamados “serviços auxiliares” da Comissão de Corridas, podendo nomear, designar, propor a contratação, e dispensar seus chefes e responsáveis, a saber: gerência do hipódromo, incluindo manutenção e conservação das pistas e equipamentos; conservação e limpeza das vilas hípicas; os trabalhos do Hospital Veterinário Octavio Dupont, incluídos os profissionais contratados; idem, do departamento médico do hipódromo; da escola de profissionais do turfe; do controle anti–dopagem; da segurança das instalações; da filmagem das corridas e sua forma de divulgação junto ao público, através da TV Turfe; cabendo–lhe igualmente designar o “handicapeur” responsável pela elaboração da programação de corridas.
No desempenho de suas funções, o vice–presidente de turfe é a principal autoridade a quem estão subordinados os responsáveis, sem exceção, pelo departamento de turfe do JCB.
À Comissão de Corridas – que será sempre presidida pelo vice–presidente de turfe e, na sua ausência, por um vice–presidente escolhido entre os comissários de corrida eleitos, incumbe basicamente:
(a) Julgar as corridas à luz dos dispositivos do Código Nacional de Corridas (CNC) e das resoluções que dispõem sobre os vários aspectos da atividade;
(b) Aprovar os pedidos de renovação de matrícula dos profissionais registrados na Gávea, e conceder novas matrículas;
(c) Supervisionar e coordenar todas as atividades do hipódromo em dias de corrida – aí incluído o trabalho dos locutores oficiais, e dos jornalistas contratados pelo JCB.
(d) Supervisionar as atividades do Centro de Processamento de Dados (CPD), mantendo estreito contato e permanente troca de informações com o referido setor.
Em dias de corrida, os trabalhos da Comissão de Corridas serão dirigidos pelos comissários de plantão, cujos nomes devem constar dos programas oficiais de corrida do JCB. No desempenho de suas atividades, tais comissários deverão escolher um de seus membros para ser o coordenador do plantão, tendo por objetivo melhor organizar e conduzir o processo de tomada de decisões, além de servir como elo de contato entre o plantão e os diversos serviços do hipódromo.
Finalmente, ao diretor de apostas, incumbe:
(a) Manter estreito e permanente contato com as agências credenciadas do JCB – que hoje são responsáveis por mais de 70% (setenta por cento) do movimento geral de apostas (MGA) da sociedade – no sentido de: (i) fiscalizar seu desempenho; (ii) premiar a performance; (iii) sancionar eventuais desvios de conduta; e, o que parece fundamental, (iv) prover os meios que permitam aos credenciados o normal desempenho de suas atividades;
(b) Desenvolver estudos que conduzam ao aproveitamento ótimo do sistema de apostas do JCB, visando sua maior simplicidade, o que significa propor, fundamentadamente, a extinção de determinadas modalidades de apostas, e a introdução de outras que propiciem maior rentabilidade à instituição;
(c) Manter, em estreito contato com a vice–presidência de turfe e a administração superior do JCB, um permanente combate ao jogo clandestino, dentro e fora das dependências do hipódromo, valendo–se, quando necessário, do auxílio das autoridades públicas competentes;
(d) Opinar sobre as iniciativas do desenvolvimento de acordos de “simulcastings” com as entidades congêneres, seja no país, seja eventualmente no exterior.
A existência de um responsável permanente na estrutura de organização do JCB – e permanentemente voltado para a gerência e a ampliação dos atuais volumes de apostas do Jockey Club Brasileiro – é condição sine qua para o sucesso do turfe do Rio de Janeiro.
Diante do fato de mais de dois terços do faturamento do turfe do Rio de Janeiro estar hoje delegado a terceiros, é inaceitável não haver na atual estrutura de organização do clube alguém especificamente responsável pela casa de apostas. Inaceitável, ademais de incompreensível. Um desvario...
E aqui não se trata do exercício de simplesmente criar novas modalidades de apostas, ou extinguir outras. Não e não. O escopo do cargo em questão é muito mais amplo que este. Na verdade, significa ter–se uma diretoria, na acepção do termo, voltada especifica e, repita–se, de forma permanente, para a condução deste assunto.
Em resumo, eis aí a tentativa de um modelo de estrutura e de regras mínimas de conduta que possibilitam dar início ao processo de departamentalização do turfe entre nós.
Saco de gatos
A circunstância do Jockey Club Brasileiro ser hoje uma reunião de vários “clubes” dentro de um único, reforça ainda mais a imperiosa necessidade de se reorganizar e departamentalizar suas atividades.
Pois não é crível que o presidente do clube consiga lidar com a coorte de problemas resultante da tentativa de dar solução a assuntos tão variados e tão díspares. Ninguém conseguiria.
Num dia de trabalho do presidente do JCB, com a estrutura hoje existente, bem podem ocorrer questões que vão do relacionamento com o concessionário do bar da piscina da sede esportiva da Lagoa; passam pela negociação dos contratos de aluguel dos espaços da cidade; somam–se às da representação externa do clube em todos os foros e instâncias, e chegam – quem diria – à eventual condução dos trabalhos da Comissão de Corridas.
Nem do mitológico Hercules se exigiu tanto.
As conseqüências de ter que gerir este vastíssimo leque de atribuições – e tentar lidar com o saco de gatos gerencial em que se transformou o JCB ao longo do tempo – são inevitáveis: criar perplexidade, piorar a qualidade do processo decisório, e produzir o caos administrativo que acabará por consumir a entidade.
Irrelevante para a análise da hipótese, a maior ou menor capacidade de trabalho, os dotes intelectuais, a projeção social, a origem da estirpe, e os méritos individuais de quem exerce, ou venha a exercer, a presidência do clube.
Todos esses personagens, mesmo com o mar de pompas que geralmente os precede, mesmo portando manto, cetro e coroa, estarão – todos! – sempre correndo o risco de retumbante insucesso, pois o que está errado não é a estrutura do indivíduo – e sim a estrutura de organização do JCB.
Então, muito mais lógico, muito mais inteligente, muito mais racional, é rever os gargalos e contradições desta última, passar a delegar responsabilidades a vice–presidentes específicos, estabelecer os níveis de alçada e arbítrio de cada um deles, e “libertar” a presidência das agruras do dia a dia da administração do clube – e principalmente do turfe.
Porque ao contrário do que possa parecer, esta é a única forma de enobrecer a função presidencial, manter intocado seu prestígio junto ao quadro social, e preservá–la do natural desgaste provocado pela absurda e patética necessidade de intervenção diária em todos os escaninhos da sociedade.
Mais do que nunca, é necessário que o JCB como um todo (e dentro dele especialmente o turfe) passe a funcionar sem que o presidente tenha de intervir nas mais comezinhas questões do seu dia a dia e, o mais das vezes, prosaicas discussões sobre seus aspectos técnicos. Mesmo porque, isso não faz parte, nem da liturgia, nem da descrição de funções, nem dos deveres do cargo de presidente do JCB.
Turfe é um esporte conhecido, com tradições e regras três vezes seculares, consubstanciadas em seus códigos de corrida, e que se revigora na convivência diária com aqueles que o elegeram – desde muito cedo – como principal forma de divertimento e lazer, ou como atividade econômica válida.
É dessa forma que ele tem que ser visto por quem quer que exerça a presidência do JCB consciente de seu papel e de sua posição ímpar no topo da escala hierárquica: o de grande coordenador e principal incentivador dos esforços comuns da instituição.
Seria uma pena se, ao invés disso, a presidência do JCB candidamente confundisse chefia e liderança com o dom divino da onisciência e da ubiqüidade...
Compromisso
Todas essas considerações passam necessariamente pela aceitação, por parte das principais lideranças do clube, de um compromisso formal com o futuro do JCB e a melhor forma de gerenciar o turfe do Rio de Janeiro.
É de uma clareza de ofender a vista, que as tentativas e experiência do passado não deram, e continuam a não dar certo.
Agora, com o agravante de não haver muito mais tempo para se tentar formas esotéricas, ou esperar que coelhos salvadores pulem repentinamente das cartolas.
Não há, nem nunca houve cartolas, tampouco coelhos. O que há é competente, simples, racional e inteligente gerência da atividade.
A esta altura, tange à insanidade continuar a presenciar o progressivo esvaziamento do turfe entre nós, sem que nada de concreto seja feito para estancá–lo e revertê–lo. Embora todos – do conselho do clube aos profissionais do ofício, chegando hoje inclusive aos empregados do JCB – todos, sem exceção, reconheçam que é preciso mudar a forma, mudar os métodos e, principalmente, mudar e modernizar a estrutura de organização através da qual ele tem sido conduzido entre nós...Francamente, toca o incompreensível.
Como toca o incompreensível não imaginar que os homens de bem do clube, aqueles cuja voz e liderança serão sempre ouvidas, não possam se sentar – aplacar os narcisismos das pequenas diferenças – e, juntos, tentar encontrar uma saída para o futuro do turfe do Rio de Janeiro.
Rio, 7 de setembro de 2009