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Julho | 2009

Sem Vilas Hípicas, adeus Turfe do Rio..., por Sergio Barcellos
28/07/2009 - 11h05min

Se os sócios do Jockey Club Brasileiro querem acabar de vez com o turfe do Rio de Janeiro, é fácil: basta aprovar a derrubada das cocheiras das Vilas Hípicas da Gávea e substituir tudo por imóveis comerciais.

O clube pode até ganhar alguns trocados – ninguém duvida disso. Pode até, quem diria, ver–se livre, de uma vez por todas, da incômoda presença dos prosaicos cavalos que parecem ofender a sensibilidade de alguns.

Mas imaginar que isso é a "salvação" do turfe do Rio de Janeiro, tange a ardil conceitual, o preferido da dialética erística (a arte de vencer um debate sem necessariamente ter–se razão).

Porque vender, dispor, ou entregar patrimônio de qualquer clube sob o pretexto de gerar caixa, nunca levou ninguém a canto algum.

No passado, o Jockey Club Brasileiro vendeu suas cocheiras no Itanhangá; vendeu os andares do prédio construído no terreno da antiga sede da cidade; vendeu títulos de sócio, expandindo além do previsível o quadro social. Nada de perene e definitivo resultou disso. O produto das vendas acabou sendo consumido. E a situação econômico–financeira da instituição só fez deteriorar–se, ano após ano. O JCB ficou mais pobre.

Agora, planeja–se extinguir as centenárias cocheiras das Vilas Hípicas, um dos recantos mais preservados do Rio de Janeiro. Novamente, em pouco tempo, é possível deduzir que nada restará da renda daí proveniente. Simplesmente, porque não há vento que ajude a quem não sabe exatamente para onde quer ir.

O turfe dos EUA só existe como atividade econômica, porque a ampla maioria dos hipódromos possui cocheiras ao redor das pistas para alojar os animais que nelas competem. Idem, para os turfes organizados da América do Sul, da Ásia e da Oceania. Exceções feitas aos turfes da França e da Inglaterra, que construíram no passado remoto – com o dinheiro farto do estado – os espetaculares centros de treinamento de Chantilly e Newmarket, verdadeiras "cidades do cavalo", nas quais parte ponderável da população vive em torno da atividade e dela depende economicamente para sobreviver. Sem mencionar que Chantilly dista cerca de meia hora, em estrada plana, dos principais hipódromos de Paris.

Acabar com as Vilas Hípicas da Gávea e, de quebra, transformar o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas –  uma das zonas residenciais mais valorizadas da cidade – num pandemônio de carros e de gente é a menor das dificuldades.

A maior, é inviabilizar a realização do programa semanal de corridas do Hipódromo Brasileiro pela  extinção da categoria dos pequenos proprietários que ajudam a formá–lo e a mantê–lo; desempregar milhares de pessoas da noite para o dia; desalojar dezenas de famílias que ali vivem em paz há décadas; complicar a circulação da sede esportiva; e colaborar para fechar (é, fechar!) os centros de treinamento da serra fluminense, entregando tudo aos azares da sorte, ou à besta negra do "mercado."

Pois é tautológico – ao contrário do que supõem os defensores da implosão das Vilas Hípicas – que  a maioria dos centros privados de treinamento só sobrevive economicamente por constituir uma alternativa à existência do significativo contingente de cavalos de corrida atualmente alojado na Gávea. Sem o concurso desta imprescindível “matéria–prima” – e, portanto, sem a certeza da realização de um mínimo de quatro programas semanais de corrida – grande parte destes centros de treinamento tem data marcada para morrer. É crônica de uma morte anunciada.

Os poucos, muito poucos, que restarem servirão apenas como testemunho dos erros de concepção do projeto – e da incapacidade do JCB de entender e conseguir gerenciar de forma eficiente o turfe do Rio de Janeiro.

O futuro deste turfe, bem assim, o futuro do próprio Jockey Club Brasileiro, passa, antes e acima de tudo, pela boa, criteriosa, competente e racional gerência da atividade, não por qualquer plano de trocar Vilas Hípicas por rendimentos mensais provenientes de um projeto imobiliário, por mais brilhante e criativo que ele seja.

Apenas para argumentar (repetimos, argumentar!), qualquer outra alternativa que, de saída, não contemple – e às totais expensas do incorporador do projeto – a completa reconstrução das atuais Vilas Hípicas da Gávea em outro local próximo ao hipódromo, com literalmente todas as facilidades ali existentes (leia–se, pistas de treinamento decentes; um número de cocheiras que garanta, em sua totalidade, o direito dos atuais comodatários da Gávea; a construção de novo hospital veterinário; de acomodações dignas para centenas de empregados, treinadores e gerentes que militam na atividade, somente para citar alguns itens essenciais), a empreitada será sempre um convite ao desastre. E desta vez, final.

Ademais de estarmos repetindo a figura bíblica, que trocou seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas.

Até porque, é evidente que parte razoável dos projetados rendimentos mensais oriundos do projeto imobiliário terá que ser consumida na gerência e manutenção das “novas” vilas hípicas do JCB. Ou seja, seu ingresso jamais será líquido, como se pretende.

Não. Estão raciocinando mal.

A única esperança é que a Assembléia dos sócios que um dia vier a decidir sobre isso, consiga raciocinar melhor.

Numa palavra, que consiga fazer todas as perguntas e obter todas as respostas; esclarecer todas as dúvidas; esmiuçar todos os detalhes; debater exaustivamente, ad nauseam se preciso for, os prós e contras do citado projeto.

Só depois disso, é que será possível afirmar que a Assembléia dos homens iguais, equilibrados, profundos conhecedores do clube e das grandes empreitadas da vida – exatamente como os fundadores do Jockey Club Brasileiro, que o construíram a partir do barro – chegou a uma conclusão que realmente atenda aos superiores interesses da instituição.

Fora disso, é correr o risco de soprarmos nosso hálito sobre o Jockey Club Brasileiro e o fazermos retornar ao barro.

De minha parte, confesso que é preciso ser muito corajoso para arrostar as conseqüências dessa simples possibilidade, e entrar para a história do clube na contramão de seus fundadores. Não ouso tanto.



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