Quem já teve
oportunidade de assistir, sabe que o Prix Jean Prat, grama, sentido horário, é uma das provas mais seletivas de
Grupo I do calendário europeu. Quase sempre corrido num ritmo que os franceses chamam de “trem do inferno”, o Jean
Prat tem como característica ser disputado no percurso pouco comum dos 1.800 metros e na traiçoeira pista de
Chantilly, com seus aclives e declives e uma longa reta que parece ter sido feita sob medida para confundir os
incautos.
Não bastasse isso, a prova costuma misturar milheiros de elite da Europa aos especialistas da
meia distância, aumentando a dificuldade do teste. Para vencer o Jean Prat, é necessário contar com um corredor
que tenha velocidade para acompanhar de perto os da frente e exiba capacidade de mudar de marcha e acelerar no
final.
Foi este o Grupo I ganho aos 3 anos de idade, em 1995, por TORRENTIAL (Gulch e Killaloe, por
Dr.Fager e Grand Splendor, por Correlation e Cequillo, por Princequillo), hoje alojado no Haras Santa Rita da
Serra (Afonso Cesar Burlamaqui) e pertencente a um condomínio de criadores.
Como Torrential já aparece
como líder das estatísticas de pais de 2 anos no eixo Rio–São Paulo, e sua filha Baby Victory é a líder da geração
feminina em Cidade Jardim, parece interessante conhecer um pouco mais sobre
ele.
ORIGENS
TORRENTIAL é o estereótipo do conceito americano de criar, não
só do ponto de vista físico, como também do funcional. O “Timeform” o descreve como um “indivíduo grande, robusto,
atraente” – o que pressupõe equilíbrio e estrutura muscular acima da média – além de apontá–lo como um “grand
looker”, ou seja, de “ótima aparência”. Numa palavra, um bonito cavalo.
Não foi por outra razão que ele
se tornou o “yearling” mais caro de Gulch nos leilões de Keeneland, em julho de 1993. Arrematado pelo Sheik
Mohammed al Maktoum por US$ 375 mil, defendeu nas pistas da Inglaterra e EUA as cores grená, mangas e boné branco
de seu proprietário, treinado pelo competente John Gosden.
Gulch, o pai de Torrential, é um dos mais
importantes “sprinters” descendentes diretos de Mr. Prospector, ganhador de 7 Grupos I, dos 2 aos 4 anos, entre os
quais a Breeders’ Cup Sprint e o Metropolitan Handicap. Na reprodução, Gulch brilhou tanto quanto nas pistas,
gerando mais de 50 ganhadores de grupo em todo o mundo. Seu filho, Thunder Gulch, “Champion 3 Years Old”, hoje
reprodutor no Coolmore Stud, venceu, entre outros clássicos, o Kentucky Derby (2.000 metros, areia) e o Belmont
Stakes (2.400 metros, idem), primeira e terceira provas da Tríplice Coroa americana.
O avô materno, Dr.
Fager – que está entre os puros–sangues mais rápidos já vistos num hipódromo –, descende de uma linhagem
desenvolvida praticamente dentro dos Estados Unidos, que começa em Questionaire e prossegue com Free For All e
Rough’n Tumble. Dr. Fager é livre do sangue Northern Dancer, como de resto todo o pedigree de Torrential.
Killaloe, a mãe, produziu o conhecido Fappiano (por Mr Prospector), do qual TORRENTIAL é, portanto,
irmão materno. Fappiano venceu 10 vezes, dos 1.200 aos 1.800 metros, e abriu seu caminho na reprodução ao liderar
as estatísticas americanas de pais de 2 anos em 1985 e 1989. Entre os melhores Fappianos, encontram–se Tasso,
campeão 2 anos da América, em 1985, e Unbridled, “Champion American Horse” de 1990, entre outros notáveis
corredores.
A segunda mãe, Grand Splendor (por Correlation), ganhou 6 corridas e produziu Gonfalon, mãe
do conhecido Ogygian, ganhador e reprodutor clássico.
Cavalos como Torrential pertencem a uma dinastia
construída, antes de tudo, para a chamada “velocidade americana”, onde desenvolvimento muscular acelerado,
capacidade de suportar treinamento, habilidade acima da média aos 2 anos de idade e vocação para vencer na
distância clássica–padrão dos 2.000 metros, constituem a tônica.
Corredores construídos desta forma têm
demonstrado ser um importante ativo da moderna criação mundial, desde que o lendário Arthur “Bull” Hancock, da
Clairborne Farm, fixou as bases deste novo tipo de indivíduo na segunda metade do século
XX.
CAMPANHA E APTIDÕES
Como autêntico filho de Gulch, em mãe por Dr. Fager,
TORRENTIAL estreou vencendo em 1.400 metros, Doncaster, Inglaterra, no começo de março de 1995.
Mais
alguns dias, a distância subiu para 1.800 metros e ele tornou a vencer com facilidade, desta vez em Ripon.
Na terceira saída, foi a Sandown, em maio, para o Tresher Classic Trial (Grupo III), em 2.000 metros, e
acidentou–se, entrando descolocado (quinto lugar).
As expectativas de seus responsáveis, porém,
mantiveram–se intactas após o Tresher, pois ele foi inscrito no Jean Prat, de Chantilly, em junho, em parelha com
Annus Mirabilis, o outro representante do Sheik Mohammed na prova. Ter saído direto de um Grupo III para um
difícil Grupo I, mesmo após um acidente na raia e uma descolocação, dá bem a medida da confiança de Gosden no
potro. E ele correspondeu de forma admirável.
Corrido no bloco intermediário, acompanhou o ritmo dos
ponteiros, aproximou–se deles na reta e foi alcançá–los em cima do disco, ganhando de Annus Mirabilis e do bom
milheiro Laheeb, com Bobinsky e Valanour a seguir. A distância entre os quatro primeiros colocados não chegou a um
corpo.
A próxima saída às pistas ocorreu no Grand Prix de Paris (Grupo I), 2.000 metros, em Longchamp,
segunda etapa da Tríplice Coroa francesa, onde ele foi batido por Valanour e Singspiel (ambos ganhadores de Grupo
I).
Logo depois, atravessou o Atlântico e correu, em 23 de junho de 1995, o American Derby (Grupo II),
em Arlington, Chicago, 1.900 metros, perdendo para Golden and Steel, a quem concedia 3 quilos. Nesta prova, sofreu
um profundo corte no jarrete ao largar do partidor, parecendo aos observadores que poderia ter feito melhor sem o
incidente.
Propriedade de uma coudelaria gigante, com presença quase constante em todas as provas de
grupo do calendário mundial – e que, talvez por isso mesmo, não se importe em explorar ao limite da exaustão seus
bons cavalos –, TORRENTIAL correu seis vezes em menos de quatro meses, em dois continentes, batendo–se contra os
melhores de sua geração, no primeiro semestre de 1995. Ao final desta curta, embora fatigante campanha, foi
transferido para Dubai, a fim de recuperar–se do ferimento no jarrete e descansar.
As aptidões e a
forma de atuar de Torrential foram resumidas da seguinte forma pelos analistas do "Timeform": “Se ganhar
outro Grupo I, provavelmente isso ocorrerá em 1.900 ou 2.000 metros, sem dúvida suas melhores distâncias.” Na
cotação do handicap–livre europeu dos 3 anos, ele alcançou 117 libras–peso (58,5 quilos,
aproximadamente).
Recuperado, trocou de treinador (saiu Gosden, entrou Saeed Bin Suroor), e reapareceu
em Dubai para ser segundo no Al Futtaim Trophy, 2.000 metros, Nad El Sheba, para o excelente Halling (ganhador de
Grupo I, hoje reprodutor). Inscrito na Dubai World Cup, vencida pelo campeão e recordista mundial de somas ganhas,
o famoso Cigar, entrou descolocado (8° lugar). Foi sua última
corrida.
REPRODUÇÃO
Levado para a reprodução nos EUA, TORRENTIAL produziu 124
ganhadores de 250 provas – vários deles freqüentadores de “pattern races” naquele país – e de US$ 2,9 milhões em
prêmios. Alguns de seus produtos americanos foram exportados para a Austrália, onde prosseguem em campanha.
Sua geração 2003 é a primeira nascida no Brasil.
Descendente de Mr Prospector, via Gulch,
ganhador de Grupo I na Europa, freqüentador assíduo da primeira turma de sua geração no Hemisfério Norte, já
testado na reprodução nos EUA, de proporções e tamanho perfeitos, bela cabeça e grande presença. São estas as
credenciais com que Torrential se apresenta na criação brasileira. Convém prestar atenção e acompanhar de perto a
evolução de seus filhos entre nós.
TORRENTIAL pertence a um grupo de criadores e proprietários brasileiros,
entre os quais se encontram os Haras Santa Rita da Serra, Tributo À Ópera, Santa Maria de Araras, Valente, Cifra,
LLC, Curitibano, Stud Correas e Carlos dos Santos.
por Sergio
Barcellos