É um velho hábito da criação Aga Khan, permitir que
certos “self made men” – selecionados a dedo pela equipe que decide sobre cruzamentos –
tenham acesso às representantes de suas 17 impecáveis famílias maternas. Tudo se passa como
se, de tempos em tempos, copiando os deuses do Olimpo, a nobreza da estirpe precisasse ser
revigorada pela mistura com o sangue de determinados mortais que abriram seu caminho nas
pistas e na reprodução com base em puro mérito pessoal. O conceito por trás disso, é que na
raça puro–sangue inglês a miscigenação geralmente excita o talento.
O método funcionou
com Zarkasha, filha de Kahyasi (ganhador do Derby de Epsom e do Derby da Irlanda de 1988),
que foi entregue a Zamindar, por muito tempo desterrado nos EUA, onde fazia a monta em Ocala,
Florida, por US$ 5,000 a cobertura (preço de 2001). Dessa surpreendente união, nasceu a
fenomenal Zarkava.
Antes disso, Sinntara, filha de Lashkari (vencedor da Breeders’ Cup
Turf, batendo a All Along) foi destinada a Grand Lodge, e gerou Sinndar (Derby de Epsom,
Derby da Irlanda e Arco do Triunfo de 2.000).
O exemplo se repete com Lidakiya, também
filha de Kahyasi, uma descendente da famosa família 13c de Tourzima (1939, por Tourbillon e
Djezima, por Asterus). Destinada ao voluntarioso e rápido Indian Ridge – ganhador, entre
outras provas de Grupo, do King’s Stand Stakes, Ascot, Grupo II – e pai de Compton Place
(Grupo I), Ridgewood Pearl (Grupo I), Namid (Grupo I), Definitive Article (Grupo I) –,
Lidakiya deu origem a Linngari.
Para entender Linngari, parece razoável conhecer
melhor seu pai e suas origens. É a proposta que se segue.
Indian Ridge, pai de Linngari
O alazão dourado Indian
Ridge, nascido em 1985, 1.62m de altura, é filho de Ahonoora em Hillbrow, por Swing Easy e
Golden City, por Skymaster. A simples leitura de seu pedigree indica estarmos diante de um
indivíduo construído sobre o que há de mais característico em matéria de velocidade no turfe
inglês. Seu avô materno, Swing Easy, também venceu, como ele, o King’s Stand Stakes, 1.000
metros, grama, Royal Meeting de Ascot. Seu pai, Ahonoora, foi segundo na mesma
prova.
Mais ainda, a linha baixa de Indian Ridge é, toda ela, permeada por
descendentes de Panorama (Sir Cosmo e Happy Climax), morfológica e funcionalmente o paradigma
de “brilliance” de Francesco Varola (“Typology of the Racehorse”, J.A. Allen, London, 1974,
pág. 87).
Nas pistas, Indian Ridge não frustrou as expectativas de seus criadores.
Cavalo equilibrado, com uma excelente estrutura muscular, ele correu onze vezes, dos 1.000
aos 1.400 metros, para vencer em cinco oportunidades, tirar dois segundos e levantar £
111,744 em prêmios. Encaminhando à reprodução (primeiramente no The Campbell Stud, Suffolk,
Inglaterra, depois adquirido pelo Irish National Stud, Irlanda), repetiu, na reprodução, a
surpreendente carreira de seu pai, Ahonoora (que começou fazendo a monta por módicas £ 2,200
e terminou seus dias valendo £ 44,000 a cobertura).
Também como Ahonoora, Indian Ridge
é o exemplo de reprodutor que começou cercado pela indiferença do mercado e terminou por
impor–se no conceito da indústria. Cotação de 123 libras–peso (cerca de 61 quilos) no
“Timeform–Racehorses of 1989”, pág. 427, dele disse seu treinador D. Elsworth: “Indian Ridge
poderia ter sido um milheiro de alta classe... caso fosse possível contê–lo para correr mais
acomodado na primeira parte do percurso.”
Ahonoora, desaparecido em 1989, pai de
ganhadores de 715 corridas, é considerado uma das maiores surpresas da moderna criação
mundial, tendo produzido, além de Indian Ridge, a dezenas de animais de exceção como: Dr.
Devious (Derby de Epsom, reprodutor), Don’t Forget Me (2000 Guineas, 1.600 metros, Grupo I,
Newmarket, primeira prova da tríplice–coroa inglesa, cujo nome sugere uma espécie de aviso
sobre a forma das coisas que viriam...), Park Express (Champion Stakes, Grupo I), Park Appeal
(Moyglare Stud Stakes, Grupo I, Curragh, Irlanda), Noora Abu, Princess Athena, Statoblest,
Nashaama, Ahohoney, etc. Todos eles frequentadores assíduos da primeira turma do turfe
europeu de seu tempo. No Brasil, seu melhor produto foi Babbilard (GP Duque de Caxias, Gávea,
Grupo II; GP Onze de Julho, Gávea, Grupo III; segunda no GP OSAF, Gávea, Grupo
I).
Indian Ridge e Ahonoora descendem do chefe–de–raça Tourbillon (uma das maiores
invenções da criação Boussac, a quem tanto deve o turfe brasileiro).
Então, chegamos a
Linngari.
Quem é Linngari
A melhor
definição de Linngari foi dada por Alain de Royer–Dupré, treinador, na França, da coudelaria
Aga Khan por mais de 30 anos: “Ele sempre se manteve são e possui um ótimo temperamento. É um
cavalo combativo (“tough”) e nunca correu sob medicação.”
Linngari, nascido em 2002,
atuou dos dois aos seis anos em vários países (Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Dubai e
Hong Kong–China), para vencer em oito oportunidades, dos 1.200 aos 2.000 metros, e se colocar
inúmeras vezes em provas de elite do calendário europeu.
Entre suas vitórias,
encontram–se dois Grupos I: o Premio Vittorio di Capua, Itália; e o Preis Bayerisches,
Alemanha. Suas principais colocações incluem: aos quatro anos, um segundo no Prix de La
Forêt, Grupo I, França; aos cinco, outro segundo no Dubai Duty Free, Grupo I, Dubai, além de
um quarto lugar no Prix de Moulin de Lonchamp, Grupo I, 1.600 metros, Longchamp, França;
finalmente, aos seis anos de idade, foi terceiro no importante Champion Stakes, Grupo I,
Inglaterra, e na Hong Kong Gold Cup, Grupo I, Hong Kong.
Para o Timeform, trata–se de
um cavalo inteiramente são com um perfil funcional típico de sprinter/miler. Mantido em
campanha pelos seus responsáveis, evoluiu e amadureceu com o passar do tempo, a ponto de
merecer ser inscrito – aos seis anos de idade – em uma das provas mais seletivas do
calendário clássico inglês, o Champion Stakes, Grupo I, 2.000 metros, disputado em Newmarket
(onde foi terceiro).
Do ponto de vista de suas origens, o pedigree de Linngari é livre
de Northern Dancer nas quatro primeiras gerações, sendo o primeiro Indian Ridge a fazer a
monta no Brasil. Em sua linha alta, ele provém de Tourbillon, via
Djebel–Clarion–Klairon–Lorenzaccio (a nemesis de Nijinsky em sua última apresentação, antes
de seguir para a reprodução nos EUA)– e Ahonoora.
O mesmo ocorre com sua linha
materna, através de Tourzima (considerada a “rocha” da criação Aga Khan pelo
próprio).
Estamos, assim, diante de um animal que é “inbred” sobre Tourbillon em ambos
os lados de seu pedigree (de forma “wing pattern"; leia–se, linha alta do pai vs. linha
baixa da mãe, ambas ancoradas sob um mesmo chefe–de–raça), fato que encerra as virtudes e
limitações desse tipo de construção genética.
Finalmente, a título de mera orientação,
pode ser mencionado que os melhores produtos de Indian Ridge, pai de Linngari, ganhadores de
Grupo I na Europa, foram obtidos através dos seguintes cruzamentos: Compton Place (em mãe por
Nebbiolo); Definitive Article (em mãe por Moorestyle); Ridgewood Pearl (em mãe por Tap On
Wood); e Namid (em mãe por Tate Gallery).
Linngari está programado para fazer a monta
em 2009 no Brasil, estabulado no Haras San Francesco, de Francisco Giobbi, Tatuí, São
Paulo.
Como Sinndar, ele é mais um animal da criação Aga Khan a integrar o plantel de
reprodutores do país este ano.
05.07.2009