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Junho | 2009

Criar com método é uma arte (II) – Afinidades e conveniências, por Sergio Barcellos
29/06/2009 - 16h19min

Sergio Barcellos


Arthur Hancock Junior, um dos construtores do moderno cavalo de corrida, exigia cinco atributos de seus reprodutores: (i) que tivessem corrido aos dois anos de idade e demonstrado habilidade superior à média de sua geração; (ii) que tivessem ganho na distância clássica padrão do turfe americano, os 2.000 metros; (iii) que fossem sãos; (iv) masculinos na aparência; e (v) possuíssem o tipo certo de pedigree.

Dois anos antes de sua morte, estavam estacionados na Clairborne Farm: Ambiorix e Herbager (França); Forli e Pronto (Argentina); Pago Pago e Sky High (Austrália); Hawaii (África do Sul); e Tulyar (Irlanda). Antes deles, Hancock já havia importado o francês Sir Gallahad III (um descendente do chefe–de–raça Teddy), além de Blenheim e Nasrullah, duas jóias da criação Aga Khan, mais as excepcionais Rough Shod e Knight´s Daughter (mãe de Round Table), o clássico Princequillo e o tríplice–coroado inglês Nijinsky, da primeira geração de Northern Dancer. Nenhum sprinter típico.

Hancock criava visando o turfe americano, onde o formato peculiar das pistas, a preferência pelo “dirty” (hoje em dia, permeada pelo advento dos pisos artificiais), o rigor do treinamento imposto aos juvenis e a própria visão da atividade são bem diferentes do que se pratica na Europa. Não há nada de errado nisso. Apenas, é assim que é.

Se o conjunto dessas circunstâncias contribui, de um lado, para fazer do turfe dos EUA quase um universo à parte em relação ao esporte – pelo menos no que diz respeito à forma como ele é entendido e praticado no resto do mundo – de outro, o competidor genuinamente americano é visto como um modelo universal de precocidade, capaz de acelerar nas curvas do percurso sem perda de eficiência, dotado de uma estrutura muscular com alto percentual de fibras de contração rápida. Como tudo na vida, porém, há vantagens e desvantagens em um indivíduo gerado dessa forma.

A principal desvantagem é que animais com um perfil funcional de “sheer brilliance”, precoces e velozes em essência – e eles são uma tônica na América – geralmente tendem a encurtar sua vida útil nas pistas. Entende–se: nos equinos, o motor sempre fica pronto antes do chassis; quando se acelera demais o motor, quebra–se o chassis.

Na Europa, as grandes provas clássicas – aquelas que fazem a fama e a fortuna de um cavalo – são disputadas na grama, no percurso da milha e meia e geralmente em hipódromos que exigem do animal, acima de tudo, endurance – assim entendida como a capacidade de galopar distâncias maiores, carregar peso, e encontrar reservas de energia para realizar o sprint final. Pistas como as de Epsom e Longchamp, com suas subidas, descidas e mudanças bruscas de direção, constituem o teste supremo da qualidade de um puro–sangue de corrida.

Conseguir que um cavalo chegue a esse nível de preparo e vença os confrontos clássicos de Grupo I, principalmente na França, Inglaterra, Irlanda e Alemanha –  implica  uma abordagem diferente no que respeita ao seu condicionamento físico. Potros iniciados na Europa – não importa suas origens e nacionalidades – se acostumam desde cedo a ampliar a capacidade aeróbica, antes de serem submetidos aos rigores dos trabalhos e aprontos de raia (sem mencionar que para os treinadores do Velho Continente, relógio e balança são instrumentos inteiramente descartáveis nesse processo). Quem não tem sensibilidade para olhar e interpretar está fora da profissão.

Nos amplos centros de treinamento de Chantilly e Newmarket, é comum ver–se juvenis de milhões de dólares, primeiro, “construindo quilometragem” através de meses e meses de galopes ritmados, antes que se ouse “experimentá–los” em partidas. Ao menor sinal de nervosismo, qualquer treinador consciente reduz imediatamente a quantidade e o ritmo dos galopes diários, até que o animal se acalme e reencontre sua autoconfiança. Aliás, “zerar” um potro cujo “make up” mental  ameaça ser vulnerado pela carga de trabalho é uma das principais virtudes dos mestres europeus da profissão.

Mas a forma de treinar não é a única diferença a clivar os dois turfes. O nível de utilização dos animais e a própria maneira de abordar os percursos, guarda peculiaridades próprias às duas culturas.

Nos EUA, cavalos de alta performance são usados no limite extremo de sua capacidade física, como é o caso do excepcional Native Dancer que, mesmo com um evidente problema no boleto direito foi apresentado nada menos que 22 vezes (até finalmente quebrar). Sem mencionar que seu pai, Polynesian, correu 58 vezes, dos dois aos cinco anos de idade.

Na Inglaterra, ao contrário, os ganhadores do tradicional Derby Stakes são vistos cada vez menos nas pistas aos dois anos, como se caminhassem de mãos dadas com o destino, aguardando a glória daquele instante e daquele momento. O mesmo ocorre na França, onde as grandes coudelarias marcam um objetivo (do qual raramente se afastam) e admitem fazer galopar os animais por um longo período, à espera da oportunidade certa. Foi exatamente assim que André Fabre fez Sagamix vencer o GP do Arco do Triunfo de 1998 e Royer–Dupré conduziu a espetacular campanha da invicta Zarkava, apresentada apenas sete vezes em duas temporadas hípicas.

Os conceitos também divergem no que diz respeito à forma de correr. Em termos gerais, cavalos treinados na Europa estão naturalmente condicionados –  mesmo quando se trata de distâncias curtas – a galopar no ritmo dos ponteiros, aguardando pacientemente o momento do esforço final. É a técnica do “courir battu”, no mais das vezes propositadamente encaixotados e o mais próximo possível da cerca, de que são peritos os jóqueis do continente.

Dificilmente – e as exceções contam–se nos dedos – uma prova de elite em Longchamp, Ascot, Epsom, Chantilly, ou Newmarket é ganha por alguém mais afoito que tome a ponta antes da hora (missão exclusivamente reservada aos “faixas”). Não é bem esse o caso dos EUA, onde o maior elogio que se pode fazer a um cavalo de corrida, parâmetro de sua qualidade como atleta, é proclamar que ele “larga correndo e chega correndo” (ademais da valorização dos parciais de percurso, de que é farta a propaganda dos compêndios de reprodutores).

Não há juízo de valor sobre qual dos dois enfoques é o mais apropriado. Trata–se, em essência, de visões diferentes da mesma realidade.

Uma coisa, porém, é evidente: animais nascidos e criados no continente norte–americano tendem a se expressar de forma diferente quando iniciados do outro lado do Atlântico. O exemplo mais ilustrativo, é o dos primeiros Mr Prospector (vide Miswaki e Ravinella) treinados na Europa, respectivamente, por François Boutin e Alec Head. Cabe a Boutin o mérito de primeiro ter demonstrado, a partir do final da década de 1970, que eles podiam adaptar–se à grama e às distâncias maiores, como provou com Miswaki, Machiavellian, Procida, Kingmambo, Coup de Folie e outros descendentes do chefe–de–raça americano treinados com grande calma nas pistas da floresta de Chantilly.

O mesmo fez o mestre Vincent O’Brien com os filhos do fenômeno canadense Northern Dancer, treinados por ele em Ballydoyle, Irlanda. O’Brien mostrou ao mundo que um cavalo que não tinha a distância para vencer a milha e meia do  Belmont Stakes (e com isso deixar escapar a tríplice–coroa americana), podia muito bem gerar descendentes ganhadores do dificílimo Derby de Epsom, como Nijinsky, Golden Fleece e The Minstrel (sem mencionar que El Gran Señor perdeu o seu, por cabeça, para Secreto – outro Northern Dancer –  e Sadler’s Wells foi batido no Derby francês pelo notável Darshaan).

Onde nos levam tais constatações? Isso é assunto do próximo tópico.

Reprodutores vs. as tradições do turfe brasileiro

Parece razoável admitir que as tradições e a cultura do turfe brasileiro estão muito mais próximas da Europa que dos EUA. Nossas pistas de elite continuam sendo as de grama, nossos percursos foram construídos segundo o padrão europeu de curvas mais suaves e retas mais longas, e nossas principais provas – aquelas que todo proprietário ou criador ambiciona vencer – se situam na milha e meia (vide os dois principais Derbys do país e os importantes confrontos de peso por idade, como o GP Brasil e o GP São Paulo, entre outros).

Embora certos turfes desenvolvidos estejam sendo tentados a diminuir a distância das provas consideradas realmente “clássicas” – diga–se de passagem, uma perspectiva altamente duvidosa, que não guarda correlação direta com argumentos técnicos, senão com os aspectos econômicos e imediatistas da atividade – o fato é que essa moda perigosa ainda está longe de nos sensibilizar. É muito bom que assim seja.

O motivo é simples. Nossas melhores chances de inserção no mercado mundial de exportação do puro–sangue de corrida, estão muito mais na produção de indivíduos capazes de atuar na grama e em distâncias maiores, do que na pretensão de disputar com os americanos – ou quem quer que seja – a primazia da velocidade pura (a propósito, exemplos como o de Pico Central, um sprinter capaz de enfrentar e ganhar dos melhores especialistas da América em seu quintal, é uma notável exceção; como tal, destinada a confirmar a regra geral).

Não. Se o Brasil quer continuar a exportar cavalos de corrida e firmar–se no mercado mundial da indústria como um fornecedor confiável, a melhor opção parece residir em permanecermos fiéis à centenária cultura, aos hábitos e aos costumes de nosso turfe. Os mesmos, aliás, que produziram o belíssimo Sandpit (até aqui o recordista brasileiro de somas ganhas no exterior), Much Better, a extraordinária Riboletta, Redattore, Siphon, Virginie, Einstein, e Hard Buck (com seu mais que expressivo segundo lugar no King George & Queen Elizabeth Stakes, em Ascot, uma bela façanha para qualquer cavalo nascido, não simplesmente no Brasil, mas na América do Sul).

Os alemães chegaram

E aqui, o exemplo da criação alemã é importante. Depois de permanecer décadas cruzando “tipo sobre tipo”, indiferentes a qualquer modismo – ademais de privilegiar com rigor germânico a perfeição física e a distância clássica (para eles, a única coisa realmente importante é produzir cavalos sãos e duráveis capazes de abordar a milha e meia) – os grandes haras do país acabaram por reunir o que é considerado hoje o maior estoque genético de “tenue” do turfe mundial. Nomes com Acatenango, Lomitas, Monsun, Surumu, Silvano, Samum, Lando, e outros – com pedigrees inteiramente livres do sangue de Northern Dancer e de Mr Prospector –  constituem um dos ativos mais procurados do turfe de nossos dias.

Hoje, nos leilões de Baden–Baden, é comum ver–se criadores, proprietários e agentes representantes das principais coudelarias do mundo, tentando arrematar a peso de ouro o que de melhor ali existe (principalmente em termos de famílias maternas), na esperança de reproduzir o retumbante sucesso de indivíduos como Sea The Stars  (recente ganhador do Derby Stakes), da magnífica Stacelita (impressionante ganhadora do Diana francês deste ano), de Le Havre (vencedor do último Derby da França), todos eles construídos a partir da vigorosa infusão de sangue alemão.

No Brasil, Roberto Seabra – sempre ele... – foi um dos primeiros a perceber a forma das coisas que viriam (no caso, germânicas). Na França, Jean–Pierre Dubois, chamado de “O Visionário” – considerado um dos homens que mais conhece cavalo no mundo, não só de corridas, como de trote – já tinha demonstrado quanto vale permanecer–se fiel às suas crenças. Foi Dubois quem projetou o cruzamento que deu o Derby inglês a Slip Anchor (linha materna alemã), além de colaborar na longa e brilhante sucessão de craques da criação Wildenstein, os famosos “azuis” como Sagace, Steinlen, Seurat, Super Célébre, todos eles gerados de forma similar. Dubois é também o responsável pela aquisição de Soignée (melhor potranca de sua geração na Alemanha) e de seu cruzamento com Monsun (filho de  Konigsstuhl e Mosella, por Surumu – mais alemão, impossível...) de que resultou Stacelita.

A qualquer observador isento, parece claro que nossos interesses serão sempre melhor atendidos, preservando e eventualmente ampliando o leque das grandes linhas masculinas e das famílias maternas que estão na base mesmo da criação brasileira – ao invés de nos aventurarmos na importação de sementais cujo perfil funcional e a forma de se expressar na reprodução são, de certa forma, contrários à natureza e às características fundamentais de nosso turfe.

Em outras palavras, é preferível tentar construir internamente animais duráveis de meia–distância e distância – mesmo que eles demandem mais tempo para amadurecer – do que partir para a importação indiscriminada de linhas de pura velocidade (não importa de onde provenham), incapazes de gerar ganhadores de Derbys e Dianas. Principalmente, quando, por fatores econômicos, não conseguimos ter o melhor dessas linhas.

A ter que tentar a sorte e gastar dinheiro, incorporando à criação brasileira sprinters de segunda classe ainda não testados na criação – pelo simples fato de pertencerem a alguma famosa linha paterna de especialistas da velocidade – então, faria mais sentido prestigiar os reprodutores nacionais com um perfil funcional diferente, principalmente aqueles já provados na função.

A experiência japonesa

Reforça essa impressão, a experiência do turfe japonês. Quando os criadores do sol nascente se renderam a Mr Prospector, levaram para suas ilhas os melhores representantes da estirpe que seu dinheiro podia comprar (Ends Sweep, Forty Niner, Thunder Gulch, Timber County, Black Tie Affair, Hector Protector, Jade Robbery, Mining, Damister, Afleet, etc.). Todos eles de primeiríssima qualidade. Ainda assim, nem todos tiveram sucesso na criação nipônica.

Entre nós, pelo menos até agora, o mais efetivo Mr Prospector foi Fast Gold, pai da tríplice–coroada Be Fair, uma das melhores potrancas da história recente do turfe brasileiro, ainda que descartada pelos licitantes no leilão em que foi apresentada, tendo em vista seus problemáticos aprumos (na verdade, não havia nada de errado com eles; simplesmente eram parecidos com os de seu avô famoso).

Além de Fast Gold, podem ainda ser citados Choctaw Ridge (em mãe Secretariat), líder de estatística de reprodutores em São Paulo; Jarraar (cuja mãe, Awassif, foi das melhores éguas do turfe europeu em seu tempo), prematuramente desaparecido antes que pudesse demonstrar todas suas qualidades como reprodutor; e Dodge (em mãe por Storm Bird), pai de animais de velocidade pura.

Ademais de Mr Prospector, outros reprodutores americanos têm mobilizado a atenção do mercado internacional.

É o caso de Storm Cat, nascido em 1983, filho do canadense Storm Bird – este um Northern Dancer típico, com uma cabeça que era uma cópia da de seu pai. Castanho, pequeno, brilhante e voluntarioso, excepcionalmente manso (sua companhia preferida era o neto de O’Brien de 3 anos, que pedia para abrir a porta do box e brincava sozinho com ele), Storm Bird foi um sensacional juvenil, invicto em cinco saídas à pista. Ao final dessa primeira campanha, o IRA ameaçou seqüestrá–lo e cobrar resgate (cortaram sua crina, apesar de toda a segurança que o cercava noite e dia, numa demonstração de que chegariam a ele quando quisessem). Transferido às pressas da Irlanda para a França, e preparado para os grandes clássicos europeus do ano seguinte, jamais recuperou a forma, entrando descolocado em sua única apresentação aos três anos. Depois disso, foi vendido aos americanos (75%) pela expressiva soma de US$ 21 milhões (dólar de 1981...) para servir no Ashford Stud, Kentucky.

Embora não tenha sido o melhor produto de Storm Bird nas pistas (Summer Squall e Balanchine foram mais efetivos que ele), Storm Cat (Storm Bird e Terlingua, por Secretariat) brilhou na reprodução, gerando ganhadores de mais de US$ 115 milhões em prêmios até agosto de 2008, entre eles a Giant’s Causeway, Hold That Tiger, Hennessy, Catrail, etc. A propósito, seu filho Bernstein (4 vitórias e US$ 173,200 em prêmios), exportado para a Argentina, produziu naquele país a um ganhador do GP Carlos Pellegrini de 2005, Stormy Mayor (em mãe descendente de Buckpasser).

Novamente, porém, repete–se com Storm Cat o mesmo fenômeno de Mr Prospector: o acesso aos seus melhores produtos está muito além da capacidade econômico–financeira do turfe brasileiro, circunstância que limita severamente nossas escolhas.

Longe vai a época em que era possível trazer animais da qualidade e das impecáveis origens de um King Salmon, Coaraze, Pharas, Fort Napoleon, Felicio, Henri Le Balafré, e estacioná–los  definitivamente no Brasil. Sempre nos restará, porém, a perspectiva do “shuttle” de bons reprodutores, originários do hemisfério norte. Caberá aos grandes criadores nacionais, doravante, definir criteriosamente que reprodutores atendem melhor à forma de ser de nosso turfe e ensejam a progressiva melhoria da inserção do Brasil no mercado mundial do puro–sangue de corrida.

Não é uma tarefa fácil. E são muitas as tentações do breve e brilhante momento de sucesso, baseado na produção de indivíduos exclusivamente precoces e velozes. Tais animais certamente vendem bem em leilão e são capazes de ganhar enquanto juvenis – ninguém duvida disso – mas, na maioria dos casos, tendem a vulgarizar–se com a chegada da idade e o progressivo aumento da distância.

Entretanto, há criadores nacionais que estão fazendo as escolhas certas. E incorporaram determinados reprodutores ao plantel brasileiro, que, nesse instante, contribuem para enriquecê–lo e à criação do país. Há alguns exemplos concretos disso. Como se segue.

Algumas escolhas certas

São muitos os reprodutores estrangeiros recentemente ingressados no país. Numa tentativa corajosa de simplificação, é possível afirmar que alguns deles parecem atender às conveniências de nosso turfe e já deram mostras de que conseguem produzir ganhadores com o perfil funcional que, em princípio, nos interessa.

Abaixo, uma breve descrição de cada um deles:

 . WILD EVENT – O americano Wild Event, importado pelo Haras Santa Maria de Araras, de Julio Bozano, é um castanho filho de Wild Again, nascido em 1993, ganhador de dez provas na areia e na grama em cinco anos de campanha, tendo levantado US$ 937,274 em prêmios. A distância média de suas vitórias nos EUA se situa em 1.780 metros. Sua mãe, North of Eden, filha do bom milheiro europeu Northfields (por Northern Dancer), é irmã–materna do irlandês Theatrical (“Champion Turf Horse” na América, US$ 2,940,036 em prêmios, depois de ter iniciado sua campanha em pistas européias) e produziu, além de Wild Event, a Paradise Creek, também “Champion Turf Horse” nos EUA, com US$ 3,401,416 em prêmios. Wild Event ingressou na reprodução em 2.000, tendo sido inicialmente estacionado na Bridlewood Farm, em Ocala, Florida, a US$ 7,500 a cobertura, temporada de 2001. No Brasil, já produziu os excelentes Smile Jenny, Sorrentino e Fluke (exportado para os EUA). Mas seu melhor filho, até agora, é Eu Também, ganhador do Gran Premio Nacional (Grupo I), na areia de Palermo, Argentina.

 . NEDAWI – Propriedade de um sindicato de criadores e estacionado em Fazendas Mondesir, Bagé, RGS, nascido em 1995, Nedawi é um alazão dourado, alto, frente aberta, calçado de 3 locomotores, filho de Rainbow Quest (ganhador do Arco do Triunfo, 2.400 metros, Longchamp, por desclassificação de Sagace) e Wajd (uma filha de Northern Dancer, arrematada por US$ 1,300,000 no leilão de liquidação da coudelaria Hunt, ganhadora do Prix Minerve, do Grand Prix d’Evry e quarta colocada no Prix Vermeille, todas elas importantes provas de Grupo na França). A segunda–mãe de Nedawi é a legendária Dahlia (por Vaguely Noble), uma das melhores éguas da história do turfe mundial. Em campanha, Nedawi sempre se expressou melhor sobre a distância e a grama. Sua vitória no St. Leger Stakes (Grupo I), terceira prova da tríplice–coroa inglesa, em 2.980 metros, demonstra esse fato. O reconhecimento de que estamos diante de um animal que, segundo o “Timeform–Racehorses of 1998”, pág. 702, “poderia chegar aos 3.200 metros”, talvez sirva para entender seu perfil funcional e, assim, melhor orientar a campanha de seus produtos no Brasil. Até agora, os melhores descendentes de Nedawi entre nós foram: a “Champion 2 years–old filly”, Ever Love, bem como os clássicos Core Business (GP Derby Paulista), Right Idea (GP Diana), Quick as Ray (idem), Fuco, Faz de Conta, Cruzada Americana, etc.

 . VETTORI – O irlandês Vettori, nascido em 1992, filho de Machiavellian e Air Dintingué, por Sir Ivor e Euryanthe, por Ninjinsky, descende de uma das melhores famílias maternas do turfe dos EUA, a de Quill, “Champion 2 years–old filly” em 1958, e ganhadora de 14 corridas naquele país. Em campanha na Europa, onde defendeu as sedas da coudelaria Godolphin, Vettori foi um excelente milheiro, vencedor da Poule d’Essai des Poulains (Grupo I, primeira prova da tríplice–coroa francesa de produtos, Longchamp), batendo a Atticus, posteriormente recordista mundial da milha. Mesmo sem ter a distância clássica (seu pai, o notável Machiavellian, jamais foi inscrito além dos 1.600 metros), Vettori correu com enorme coragem o Derby de Epsom de 1995, tendo entrado em sexto, a seis corpos de Lamtarra, companheiro de treinamento. Ainda assim, derrotou naquele dia a Pennekamp (2000 Guineas, Grupo I), Spectrum (idem) e Riyadian (Jockey Club Stakes, Grupo II). Cavalo equilibradíssimo, com um galope extremamente fluido, Vettori poderia ter chegado à milha e meia, se seus proprietários lhe tivessem dado oportunidade para tal. Sua mãe, Air Distingué foi terceira no Prix de Diane, 2.100 metros, Chantilly, tendo vencido, aos dois anos, a milha do Prix d’Aumale, França, sob o treinamento de François Boutin. Até o presente momento, os melhores filhos de Vettori em pistas brasileiras foram Do Canadá e Meu Rei. A rigor, ele é capaz de muito mais. Inclusive em distâncias superiores à milha.

 . PUBLIC PURSE – Castanho, nascido nos EUA em 1994, com três anos de campanha na Europa e várias vitórias e colocações em provas de Grupo II e Grupo III na França e Alemanha. Treinado por André Fabre em Chantilly, Public Purse é um cavalo de distância e grama, especialista dos 2.400 metros. Ao final de sua campanha na Europa, foi transferido para os EUA, onde correu com sucesso. Filho de Private Account (raça de Damascus) e Prodigious, por Pharly, o Timeform o considera “genuíno e consistente, com uma ação poderosa e fluida”, cotação de 122 libras–peso no handicap livre europeu (cerca de 60 quilos). No Brasil, entre outros, produziu a esfuziante  Celtic Princess, melhor potranca de sua geração na Gávea, terceira no Derby Paulista (apesar de conduzida de modo infeliz naquela ocasião), Really Winner (GP Roberto e Nelson Grimaldi Seabra, Grupo I), etc.

 . CRIMSON TIDE – Castanho, nascido na Irlanda em 1995, por Sadler’s Wells e Sharata, por Darshaan, propriedade de Luis Antonio Ribeiro Pinto e um condomínio de criadores. O cruzamento que lhe deu origem (Sadler’s Wells, em mãe por Darshaan) é dos mais efetivos do moderno turfe mundial, responsável por dezenas de animais europeus de exceção. Ganhador de provas de Grupo II e III na Inglaterra, Alemanha e Itália, a linha baixa de Crimson Tide remonta à famosa família 3–o da criação Aga Khan, que tem origem em Pale Ale e já produziu a Shahrastani (Derby de Epsom de 1986), Shemaka (Prix de Diane de 1993) e Shakapour (GP de Saint–Cloud de 1980), entre outros ganhadores de Grupo. Embora tenha corrido e vencido aos dois anos de idade (Newmarket, 1.400 metros, grama, segunda apresentação), Crimson Tide sempre atuou melhor na milha e meia, vindo de trás. No Brasil, de forma até surpreendente, produziu líderes femininas de dois anos como Belle Fleur (primeira geração, exportada para os EUA), Zardana (segunda geração, idem), e mais recentemente a Tanta Honra (em mãe por Nashwan), ganhadora do GP Barão de Piracicaba, milha, Grupo I, primeira prova da tríplice–coroa paulista de potrancas. Com um papel dos melhores já incorporados à criação brasileira nos últimos anos, o aproveitamento ideal de Crimson Tide na reprodução parece implicar, por parte dos responsáveis por seus produtos, um melhor entendimento de suas origens e de seu perfil funcional de animal de distância e grama.

Os cinco “estrangeiros” acima citados são responsáveis pela cobertura de 411 éguas na temporada de monta de 2008. Destes, o que mais cobriu foi Public Purse (113 matrizes). Seguem–se: Nedawi (87), Crimson Tide (81), Wild Event (82) e Vettori (48).

Brasil e o “shuttle” de reprodutores

Apesar dos graves problemas vividos atualmente pelas sociedades promotoras de cavalos de corrida entre nós – resultantes em sua maioria de uma equivocada gerência da atividade – o turfe e a criação brasileiros, principalmente esta última, continuam a dar mostra de que estão mais vivos que nunca.

Não é outra a impressão que se tem ao saber que estão a caminho do Brasil, para servir na temporada de monta 2009, dois dos mais representativos sementais do hemisfério norte: Elusive Quality e Sinndar.

O primeiro, nascido nos EUA em 1993, é um castanho, filho de Gone West (raça de Mr Prospector, pai de Zafonic e Zamindar, este último pai da invicta Zarkava) e Touch of Greatness, por Hero’s Honor e Ivory Wand, por Sir Ivor.

Elusive Quality correu dos dois aos cinco anos na areia (“dirty”) e na grama, e é o recordista dos 1.400 metros na areia de Gulfstream Park (com o tempo de 1:20:17), além de novo recordista mundial da milha na grama de Belmont Park (1:31:63). Nos EUA, obteve nove vitórias em vinte apresentações, sendo quatro delas aos três anos. Em 2004, liderou as estatísticas de reprodutores da América, tendo produzido vários ganhadores de Grupo I, como Smarty Jones (“Champion 3–years–old”), Elusive City (“Champion 2–years–old” na França), Raven’s Pass (ganhador da Breeders’ Cup Classic, Grupo I, e do Queen Elizabeth Stakes, em Ascot, Grupo I), Girl Warrior, Elusive Diva, Elusive Warning, etc.

O segundo deles, é o castanho escuro Sinndar, filho de Grand Lodge (raça de Northern Dancer, via Danzig) em Sinntara, por Lashkari e Sidama, por Top Ville, nascido em 1997, criação Aga Khan. Sinndar foi apresentado nove vezes, para vencer em oito delas, dos dois aos três anos de idade. É dele o raríssimo feito de ter ganho numa só temporada (ano de 2.000) nada menos que o Derby de Epsom, o Derby da Irlanda (2.400 metros, no Curragh) e o Arco do Triunfo. Antes dele, poucos conseguiram isso na longa história do turfe europeu (a propósito, somente Sea Bird, Mill Reef e Lamtarra venceram o Derby Stakes e o Prix de l’Arc du Triomphe), o que lhe valeu a capa do “Timeform– Racehorses of 2.000”, mais 12 páginas descrevendo suas façanhas, e uma cotação de 134 libras–peso no handicap livre daquele ano (cerca de 67 quilos!).

Sinndar descende da notável Tourzima (1939, por Tourbillon), considerada a “rocha” da moderna criação Aga Khan pelo próprio criador, a mesma que está na origem de Darshaan (Derby da França de 1984, quando derrotou a Sadler’s Wells e Rainbow Quest); de Akyida (Arco do Triunfo de 1982); Daliapur (Coronation Cup de 2.000); Akarad (GP de Saint–Cloud de 1981); Darara, Labus, etc. etc. Sob todos os aspectos, uma família real. Na verdade, o creme della creme da criação européia e mundial.

Dele, disse seu jóquei John Murtagh após a vitória no Arco do Triunfo: “Sinndar é um cavalo incrível...que sempre luta até o último galão...com uma constituição perfeita...nunca perdeu a forma durante toda a temporada...nunca sentiu o esforço da disputa...nunca seu pelo deixou de brilhar.” (pág. 930, “Timeform–Racehorses of 2.000”).

Na reprodução a partir de 2001, 55% dos seus produtos de três anos são ganhadores. Entre eles, cite–se Youmzain (em mãe por Sadler’s Wells, vencedor do GP de Saint–Cloud, Grupo I, além de duas vezes segundo no Arco do Triunfo) e a ótima Shawanda (em mãe por Darshaan, Prix Vermeille e Oaks da Irlanda, ambas provas de Grupo I).

Há muitos anos que um animal dessa qualidade, e com essas origens, não é visto na América do Sul. No Brasil, é a primeira vez que teremos um ganhador do Derby de Epsom e do Arco do Triunfo estacionado no país.

Só se pode cumprimentar os criadores brasileiros responsáveis pelas duas corajosas iniciativas. Animais como esses, são capazes de mudar o perfil de qualquer turfe, não importa o país onde ele esteja estabelecido.

Enfim, a conclusão parece muito simples: criadores há, proprietários há, apostadores e público interessado sempre houve. O que parece faltar, a esta altura, é que os Jockeys Clubs do país se coloquem no mesmo nível de tanto entusiasmo – e de tanta fé no futuro do turfe brasileiro.

23.06.2009



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