Inaugurado no início da década
de 70, o Hipódromo Serra Verde, em Belo Horizonte, viveu momentos de glória.
Paraíso dos cavalos
hemorrágicos e com problemas de transpiração, durante muitos anos foi responsável direto por campanhas memoráveis
no turfe carioca. Alguns treinadores radicados no Rio chegaram a manter cocheiras por lá, caso, entre outros, de
Leopoldo Cury.
Grandes proprietários deixavam seus corredores em treinamento na capital mineira, como o
Stud Phoenix de Ouro, que conquistou páreos importantes preparados por Maurício Teixeira.
O Stud
Capitão, com o treinador Roberto Morgado Jr., passou uma curta temporada no Serra Verde e craques como Pico
Central, American Night e Brazov vieram à Gávea para vencer provas de Grupo I.
Mas, agora, o sonho
acabou. A grande área de mais de 800 mil metros quadrados vai virar um centro administrativo. E Minas Gerais, que
pena, ficará sem turfe, definitivamente.
O início, em maio de 1970
Depois de
alguns anos passando por intermináveis obras, foi inaugurado, em maio de 1970, o Hipódromo da Serra Verde, bem
localizado, na divisa com Vespasiano e passagem obrigatória entre a cidade e o Aeroporto de Confins. Majestoso,
com 300 boxes e uma pista de primeira qualidade, tinha tudo para encher de orgulho os mineiros apaixonados por
corridas de cavalo.
Resultados conquistaram o turfe carioca
Com um clima
ameno, verificou–se, com o tempo, que animais com problemas de hemorragia e de transpiração, davam–se muito bem no
Serra Verde e, em muitos casos, voltavam recuperados para o Rio. Na época, quando nem se imaginava a
utilização de furosemida (Lasix), um cavalo que não suava ou botava sangue, já tinha o destino traçado, ia para
Minas. E para o treinador Linhares.
A fase de ouro de um haras
Na década de
70, um supervisor ficou muito conhecido no turfe brasileiro, principalmente na Gávea, pelos excelentes resultados
que obtinha preparando os cavalos no Hipódromo da Serra Verde. Era Elias Moisés, responsável pelos corredores do
Haras Minas Gerais (que depois se transformaria em Haras Bagé do Sul), de Benzion Levy. Todos os animais eram
preparados em Minas e vinham competir e seguir campanha na Gávea, aos cuidados de Sylvio Morales, sempre montados
por Gildásio Alves.
Resultados importantes conseguidos por lá
Conquistando
êxitos importantes no turfe carioca, com cavalos como Prince Ali, por exemplo, o Stud Phoenix de Ouro mantinha
seus corredores no Serra Verde, aos cuidados do treinador Maurício Teixeira. Foi uma época de muitas conquistas,
enfrentando a primeira turma do Rio de Janeiro. O esquema vitorioso durou anos.
Leopoldo Cury
recorda com saudade do prado mineiro
O treinador e veterinário Leopoldo Cury chegou a ter 20
corredores alojados no Serra Verde. No início, mandou funcionários seus para Belo Horizonte e, depois, chegou a
manter uma cocheira. Léo lamenta muito o fim do turfe mineiro: “Infelizmente o clube faliu, como outros do
interior brasileiro e como acabará falindo o nosso. Falta de dinheiro, dívidas administrativas, má administração
levam ao desastre. Tive uma época fantástica no Serra Verde e lamento muito que tudo aquilo tenha
acabado”.
Craques fantásticos foram preparados naquela pista
Em 2003, após
não renovar o contrato com o Centro de Treinamento Vale do Itajara, o Stud Capitão levou seus corredores para o
Serra Verde. No fantástico time de Luiz Edmundo Barbosa figuravam, entre outros, Pico Central, Brazov, Nikinipó,
Capitão Risso e American Night. O treinador Roberto Morgado Júnior, responsável pelo plantel, levou, também, seus
demais pensionistas, inclusive, Mexican Daisy e London Leader, da Coudelaria Jéssica. Os resultados foram
excelentes, apesar da distância e do sacrifício enfrentado pelos cavalos na longa viagem.
Começa
o fim, com as dívidas e a total falta de receita
O Serra Verde realizou sua última corrida em
fevereiro de 2002 e entrou de cabeça na crise. Teve um período melhor, no final de 2002 e durante 2003, por conta
do contrato com o Stud Capitão, mas continuou se endividando e sofrendo ações judiciais. Com a saída da coudelaria
carioca e do treinador Bebeto Morgado, as receitas acabaram e o Jockey Club de Minas Gerais se deparou com uma
situação extremamente difícil. O total das dívidas chegava a quase R$ 2 milhões. Água, luz, ações trabalhistas,
enfim, era difícil controlar a situação.
Em princípio, a área seria arrendada para construção de
autódromo
O último presidente deixou o cargo dia 31 de dezembro de 2004. Não apareceu nenhuma
chapa para a eleição seguinte e o clube continua acéfalo até hoje. Em junho de 2005 o Conselho Deliberativo nomeou
o seu presidente como gestor e autorizou a assinatura de um contrato de aluguel do hipódromo por 30 anos com uma
firma do ramo imobiliário.
No final de 2005, quando já circulavam os boatos de que o Governo Estadual
estava estudando a possibilidade de desapropriar o hipódromo e lá construir o Centro Administrativo, a firma
(Falgo
Administrações) chamou a imprensa e anunciou que já tinha um projeto pronto para a construção de um
autódromo. Mas o negócio não evoluiu. A esta altura, já não havia mais cavalos alojados no Serra Verde e a maioria
dos profissionais se transferira para outros centros. O jóquei W.Nunes, campeão da estatística local em várias
temporadas, está há algum tempo atuando no turfe campista.
Este ano, finalmente, o acerto com o
Governo de Minas Gerais, que desapropriou toda a área e investirá cerca de R$ 500 milhões para a construção do
Centro Administrativo
No último dia 15 de fevereiro, o Governador Aécio Neves assinou o decreto
desapropriando a área de 804 mil metros quadrados do Serra Verde, pertencente ao Jockey Club de Minas Gerais. A
expectativa é de que o valor da indenização alcance cerca de R$ 6 milhões. As negociações prosseguem e o valor do
acerto final não foi divulgado.
O Centro Administrativo, projeto de Oscar Niemeyer, vai ser o coração da
gestão estadual. A reunião de todas as secretarias e órgãos em dois blocos – cada um com 200 metros e 14 andares –
vai acelerar procedimentos e permitir maior eficiência aos serviços prestados. “Vamos otimizar e racionalizar os
processos administrativos pela instalação da máquina pública em local único”, reforçou o governador.
Um
dos repórteres presentes ao anúncio da desapropriação perguntou ao Secretário de Estado de Planejamento e Gestão,
Antônio Anastasia, sobre o tal autódromo. A resposta dele foi que os técnicos do Estado estiveram no local e não
detectaram nenhuma obra neste sentido e que o tal autódromo não é um projeto do Governo.
As
corridas de todos os sábados, a recuperação de inúmeros corredores e a paixão de poucos, porém, dedicados
proprietários mineiros são, agora, apenas lembranças
Muitas podem ser as razões para o triste
fim do turfe mineiro. Falta de dinheiro, má administração, o pouco interesse da população pelas corridas e pelas
apostas e outras tantas alegações. A realidade do turfe brasileiro é dura. Os “pequenos” não conseguem resistir.
No interior gaúcho, outros clubes promotores de corrida também encerraram as atividades. Um deles virou até
Batalhão da Polícia Militar.
fontes: Agência Minas, site Lagoa Santa e Márcio
de Ávila Rodrigues
por Marco Aurélio
Ribeiro