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Março | 2009

Fases, por Milton Lodi
26/03/2009 - 00h44min

Até uma certa fase da criação brasileira de cavalos de corrida, as práticas eram completamente diferentes das atuais. Hoje, instiga–se a precocidade de modo técnico, através de pedigrées adequados, rações balanceadas, doma racional, remédios que dão amparo, cuida mais adequada. Antes, sem maiores compromissos e de forma geral ao sabor da natureza.

Poder–se–ia separar a atividade criacional em diferentes momentos.

O primeiro foi dos primórdios até por volta de 1945 mais ou menos, quando a criação era feita de maneira natural, a campo, sem detalhes técnicos desde há muito considerados importantes. No Rio Grande do Sul proliferaram as “pencas”, sendo os potros trabalhados a partir de pouco depois de completarem um ano de idade, sendo domados de forma hoje considerada brutal, e sendo submetidos precocemente a exercícios violentos, objetivando correr muitas vezes antes de completarem dois anos de idade, 24 meses de nascimento. Em função de apostas, os potros eram apurados ao máximo, e na prática um enorme percentual de potros se lesionava, muitas vezes se inutilizando. Mas em função dos custos da criação a representação financeira era pequena, pois sem a preocupação maior quanto a pedigrees refinados ou pretensiosos, e uma criação “à campo”, era na verdade uma prática de lazer, de divertimento, sem a preocupação de um futuro nos hipódromos. No Paraná ocorria coisa semelhante, mas em menor escala, como também em São Paulo. Com os hipódromos da época, Moinhos de Vento, em Porto Alegre e Guabirotuba em Curitiba sem maiores possibilidades de prêmios compensadores e a falta de fiscalização controlada, a incerteza quanto à verdadeira origem e a entrada no país de animais do Uruguai e da Argentina que eram “nacionalizados”, tudo isso sendo então considerado normal, pois era comum, corriqueiro. Em São Paulo havia o mesmo mas em escala diminuta, pois no Hipódromo da Mooca as competições tomaram desde logo certo vulto, e a criação paulista começou ràpidamente a se expandir, além do que os dois maiores haras, em quantidade e qualidade, eram paulistas. O Rio de Janeiro, sem criação expressiva mas sediando a Capital Federal atraia os dinheiros e em conseqüência chegou a ter dois hipódromos, que acabaram se fundindo, Porto Alegre passou dos Moinhos de Vento para o Cristal, Curitiba do Guabirotuba para o Tarumã, São Paulo da Mooca para Cidade Jardim, o Rio do Derby Club e do São Francisco Xavier para a Gávea.

Com o término da primeira fase, o Rio Grande do Sul teve como marco principal a implantação do Haras do Arado, de Breno Caldas, a figura mais representativa da criação gaúcha, no Paraná à época os destaques eram dentre outros dos Haras Valente e Paraná. Em São Paulo, dois grandes beneméritos foram os responsáveis pelo engrandecimento da criação brasileira, Linneo de Paula Machado e Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior, ambos domiciliados no Rio de Janeiro mas criadores em terras paulistas, e assim em um Estado sem criação significativa passou a sediar os melhores corredores, os principais eventos. Os dois beneméritos antes de tudo proprietários que criavam, ficavam com os pretensos melhores para correrem com suas fardas. Para o Rio de Janeiro convergia grande parte do dinheiro do Brasil. Na segunda fase houve um grande progresso. Além da força do interior paulista contando com o dinheiro dos “Barões do Café” muitos haras de boa qualidade surgiram e se firmaram, as mais avançadas técnicas criacionais foram sendo introduzidas. Houve muitos investimentos no setor, inclusive de cariocas que foram criar em terras paulistas. Além dos já consagrados São José e Expedictus e do Mondesir, apareceram o Guanabara, o Santa Annita, o Ipiranga, e dos próprios paulistas, o Jahú e Rio das Pedras, o Rosa do Sul, o Bela Esperança, o São Quirino, o Faxina, o Bela Vista, o Expert, o Patente, o Malurica, o São Bernardo, o São Luiz, e muitos outros que deram alicerce para uma grandeza, para uma pujança de padrão internacional. A força da criação paulista e a maior riqueza do Estado impulsionaram o turfe paulista, durante muito tempo dirigido por mãos empresariais, administradores competentes, enquanto que no Rio de Janeiro iam bem às custas principalmente dos bons animais dos criadores paulistas radicados no Rio e pelo fato da Capital Federal lá estar, atraindo o interesse nacional. Enquanto São Paulo contava com Diretores interessados no progresso do turfe paulista, fundando associações de classe, um Posto de Fomento de padrão internacional, importando garanhões de alto nível para utilização comunitária, bancando a importação de fêmeas selecionadas para venda a preço de custo a sócios do Jockey Club de São Paulo, promovendo, por exemplo, um Derby Sul–Americano, em um enorme esforço de melhorias, no Rio as administrações se perpetuavam, ficavam repetitivas, sem brilho, sem objetividade. Mas as coisas mudaram. A Capital Federal saiu do Rio, a criação fluminense que era pequena ficou ainda menor e menos expressiva, São Paulo assumiu a liderança nacional, promoveu grandes eventos como a vitoriosa excursão a Buenos Aires em Maio de 1960, a exportação de um lote de potros para o Chile, outra de animais em corrida para a Venezuela, como co–responsável pela ressurreição dos leilões de potros. Na verdade, o JCSP tomou conta da situação. O Rio assistiu quase inerte a grande transformação, até que um dia tudo voltou a mudar. Os cariocas, não podendo contar com as terras fluminenses foram para o Rio Grande do Sul em grande maioria e para o Paraná em minoria, implantar pólos de criação dos mais adiantados, importaram garanhões e éguas de alto padrão, revolucionaram. O Jockey Club Brasileiro, em função de eleição, passou para as mãos dos turfistas, para uma administração eficiente, empresarial. As contas foram colocadas em dia, os prêmios bem aumentados, o clube voltou a se direcionar para o seu objetivo principal, o turfe. O JCB retomou a liderança nacional com boa margem e nela se mantém há mais de 15 anos. A criação paulista empobreceu, muitos haras fecharam as suas porteiras. Os distanciamentos entre os quatro maiores clubes de corridas aumentaram. O turfe carioca, alicerçado pela criação dos cariocas muito no solo gaúcho e um pouco no paranaense, segue na liderança. O JCB é quem oferece os melhores prêmios e os paga no máximo 14 dias após a corrida. Tem mais de 15 centros particulares de treinamento, e contando com o Hipódromo, em princípio dispõe de 2.200 a 2.500 animais. O turfe paulista está enfraquecido, dos melhores haras restam poucos, o JCSP dispõe de muito menos cavalos que o do Rio, paga prêmios menores e com dificuldade três semanas após corridos os páreos. Bem longe do JCSP vem o do Paraná, que em função de negócio imobiliário e de nova administração deu bela demonstração quando do GP Paraná de 2008. Todos os turfistas brasileiros torcem pela reabilitação do turfe paranaense, já com um prado remodelado. O turfe gaúcho segue a mesma linha do paranaense, em fase de aguardo de negócio imobiliário já em andamento vislumbra dias melhores que os atuais, na verdade nada bons.

Essas várias fases do turfe brasileiro são conseqüências naturais de uma atividade complexa, dinâmica, difícil, que sofre eventualmente com vaidades e incompetências, e com o evidente desinteresse das autoridades governamentais.

Essa superficial análise das mutantes fases da criação e do turfe em nosso país, despretensiosa, mas verdadeira, faz com que se possa chegar a algumas conclusões, quais sejam, os criadores ou são loucos ou apaixonados, na maioria dos casos os dois, apanham mas resistem, substituindo a realidade das perdas pelo lindo sonho de um dia criar um craque, aquele cavalo de exceção melhor do que todos, aquele que vai compensar com muita alegria tudo aquilo que hoje está sendo vivido.

É claro que no presente artigo há de haver erros e omissões, nomes de haras importantes podem não ter sido mencionados. Os erros e as omissões são involuntários. O importante no caso é uma vista de olhos nas fases do turfe brasileiro.



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