Basta pegar a fotografia do Hipódromo Brasileiro de alguns anos atrás – não muitos, certamente – para perceber com uma clareza de ofender a vista o que ocorreu ao turfe brasileiro de lá para cá.
Na Gávea, as cinco outrora majestosas tribunas do hipódromo – um dos orgulhos da cidade – reduziram–se a apenas uma, a tribuna social, onde hoje se “refugia” o que restou daqueles que ainda teimam em ir às corridas. O resto do conjunto se degrada lentamente aos nossos olhos insensíveis, dilapidado, imundo, decadente.
Em Cidade Jardim, não é muito diferente. Em dias normais de corrida, o que se oferece ao público turfista do belíssimo hipódromo situado na capital do estado que representa mais de um terço do PIB nacional, é apenas solidão e descalabro. É só ir lá, ver, e voltar igualmente deprimido.
Eis a hipótese e a pergunta: o turfe brasileiro definitivamente acabou, seja como esporte, seja como atividade econômica?
Não, não acabou.
O que deveria, sim, ter acabado há anos são os métodos, as posturas, e a forma pela qual as sociedades promotoras de corridas o gerenciam. Ou melhor, não o gerenciam! E tudo hoje dá a impressão de estar apenas seguro pela inércia.
Examinemos as razões e porquês dessa afirmação.
Perfil econômico do turfe brasileiro
Em recente estudo desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), uma instituição acima de qualquer suspeita, sobre o perfil econômico do turfe brasileiro e a criação do cavalo de corridas no país, fica–se sabendo que a atividade:
. gera 13.000 empregos diretos, o que significa dar trabalho e manter um número de pessoas maior que muitas importantes indústrias do país;
. a produção brasileira de cavalos de corridas é a nona (9ª) maior do mundo; a produtividade média das éguas de cria cresceu (atingindo 0,73 produtos por égua reprodutora); a terra destinada às pastagens do PSI aumentou significativamente de preço; a exportação de animais, principalmente em direção ao MERCOSUL, expandiu–se nos últimos anos, alavancando o saldo comercial da atividade; e o número de criadores soma cerca de 400 haras (46% deles no Rio Grande do Sul).
Assim, parece evidente que a indústria do puro–sangue de corridas – ao contrário do que possa imaginar nossa vã filosofia – existe, está viva, e bem viva!
Mais importante, ainda, é notar uma das principais conclusões da FGV:
“O que a comparação internacional sinaliza é que a revigoração do setor no Brasil é positiva e possível de ser implementada.”
Repitamos, para que ninguém tenha a menor e mais remota dúvida: positiva e possível de ser implementada. Ponto.
Uma pedra no caminho
Infelizmente, há uma pedra no caminho dessa indústria e de seu crescimento. E essa pedra – que pode ser gigantesca – somos nós, os dirigentes das sociedades promotoras de corridas de cavalo, e nossa precária, invariavelmente descrente, pessimista, e equivocada gerência da atividade.
Para nós, não há alternativa: se quisermos que o turfe brasileiro volte ao seu curso e flua normalmente em direção a dias melhores, teremos que removê–la, desbordá–la, ou simplesmente explodi–la. Com ela em nosso caminho, não iremos a lugar algum.
O Jockey Club Brasileiro deveu sua criação ao poder da vontade, à qualidade da imaginação, ao vigor das emoções, à feliz reunião de temperamentos que privilegiavam a coragem por oposição à timidez, e ao apetite pela aventura da existência, dos fundadores do clube. Eles o construíram do nada e o entregaram, perfeito e acabado, a nós. Seus nomes dão sentido e enobrecem as principais provas de nosso calendário clássico.
Não parece razoável que, 80 anos depois, estejamos contribuindo para desonrar sua memória e frustrar o sonho, não de uma, mas de várias vidas, ao permitir que o turfe do Rio de Janeiro continue a debater–se com os mesmos e crônicos problemas de gerência que têm nos paralisado nos últimos tempos.
Numa palavra, não parece razoável que não tenhamos aprendido com as dolorosas experiências do passado, que turfe e corridas de cavalo são atividades com regras, padrões e conceitos próprios e, como tal, infensas à experimentação, ao noviciado, e ao improviso.
O que quer, afinal, o turfe do Rio?
O turfe do Rio de Janeiro quer, numa singela palavra, gerência. O mínimo dos mínimos de gerência. Conseguir isso não é tão difícil, nem tão complicado assim. Depende apenas de querer, de saber, e de ter as pessoas certas no lugar certo.
Seus proprietários, seus criadores, os profissionais da atividade, os próprios empregados do Jockey Club Brasileiro que dependem disso para sobreviver, o público em geral, seja ele apostador ou não, querem e esperam de nós que façamos o mínimo. Isso já seria formidável.
O mínimo significa uma programação racional de corridas (leia–se a chamada dos páreos) que ampare, sirva de apoio e não conflite com a programação clássica – esta sim, a essência de tudo; bem assim, significa a defesa implacável da imagem do esporte, que se consubstancia na obediência aos pressupostos do código nacional de corridas (apenas para dar um exemplo, que os jóqueis montem no peso do programa, não lesem os apostadores e proprietários, ou, então, que deixem de ser jóqueis); que os horários da programação sejam respeitados; que as regras de interferência na pista sejam conhecidas e seus conceitos fundamentais perfeitamente entendidos e uniformizados por todos aqueles que têm a suprema responsabilidade de aplicá–los; que as pistas sejam impecavelmente mantidas e conservadas, oferecendo oportunidades iguais a todos os concorrentes.
Mas é possível querer mais. Muito mais.
É possível querer uma administração atualizada e moderna do sistema de controle anti–dopagem, onde os índices de tolerância da medicação proibida sejam amplamente divulgados e conhecidos por todos, e não uma caixa preta acessível somente por alguns ungidos com o poder de vida e morte sobre a reputação dos profissionais.
É possível querer muito mais, sim. Querer uma Comissão de Corridas que passe a colocar no papel, e a demonstrar porque desclassificou, ou não, determinado animal por eventuais prejuízos de raia, acabando com interpretações e dubiedades a respeito.
É possível desejar que se combata sem trégua o jogo clandestino, que vulnera a essência mesma do movimento geral de apostas; é possível manter um diálogo permanente com os agentes credenciados (em última análise, nossos representantes junto ao público apostador) que os incentive a colaborar no crescimento do MGA, ou deixar que enfrentem o risco de serem sumariamente alijados do processo; de promover a plena interação da casa de apostas (falar nisso, há diretor de apostas no Jockey Club Brasileiro?) com os apostadores, para saber que tipos de jogos eles preferem dispor, ao invés de lhe impormos aqueles que nossa amadora “imaginação” acredita serem os melhores.
É possível e é justo, claro, querer prêmios de corrida mais compensadores – e eles começarão a se tornar realidade, não há a menor dúvida quanto a isso – no dia em que simplesmente administrarmos melhor o turfe, sem ter que aguardar pela eternidade da perspectiva de introdução de jogos alternativos nas dependências do hipódromo.
E não só é possível, como desejável, aproximar cada vez mais os proprietários e criadores (não importa seu tamanho, não importa sua afluência econômica) da Comissão de Corridas, e tratá–los com a distinção e simpatia que merecem, pois na luta para reerguer o turfe carioca serão sempre eles os nossos melhores e mais leais aliados. Aqueles que apostam sua paixão e seu dinheiro no futuro da instituição que nós dirigimos. Os nossos principais clientes.
É possível, sim, perceber que o clube pode admitir conflito de interesses e de opiniões no que respeita aos seus outros vários segmentos – o contraditório faz parte da vida –, mas não admite dispersão de esforços quando se trata da boa gerência do turfe.
No turfe, o barco é um só. Irrelevante, pois, saber quem venceu, ou quem perdeu as últimas eleições, terminadas há quase um ano. Irrelevante, ademais de profundamente ridículo.
Se é para continuar alimentando o narcisismo das pequenas diferenças, se é para permanecer ruminando agravos reais ou imaginários perdidos na poeira do tempo, se é para teimar por teimar, e teimando imaginar que nada pode ser melhorado no turfe, que tudo está em seu lugar e funciona perfeitamente – quando sabemos que não está, e decididamente não funciona – então, o melhor que podemos fazer é ir para casa e entregar o Jockey Club Brasileiro à sua própria sorte.
Na certeza de que um dia entraremos para os anais da instituição como uma das mais tumultuadas e erráticas – senão das mais infelizes – administrações de sua longa e impecável história.