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Janeiro | 2009

Caso fosse ainda possível, por L. F. Dannemann
19/01/2009 - 19h33min

O artigo do brilhante Sergio Barcellos que, entre outros temas muito oportunos, sugere uma imediata profissionalização da atividade de turfe, não pode servir de desculpa para alguns e nem tampouco confundir–se, como sendo uma justificativa pela derrocada do Jockey Club Brasileiro, que só pode ser observada a partir das ineficientes administrações a que tem sido submetido – e não pelo modelo –, algumas das quais integradas por esse importante turfista, que, naturalmente, jamais dispôs, em quaisquer delas, do poder necessário de alterar decisões, ou implantar benefícios oriundos de sua larga experiência.

O texto de “Esse estranho turfe no Brasil” pode, sem querer – mesmo não sendo essa a intenção –, deslocar a explicação da falta de apetite no turfe, verificada nos últimos mandatos, para o alegado formato institucional “ultrapassado”, e a culpa adviesse, exclusivamente, do pretenso fato de ser o JCB um Clube de estrutura “amadora”, composto de amadores, ao invés de uma Empresa com modelo “profissional”, integrada apenas por funcionários competentes.

A experiência haurida dos últimos mandatos demonstra, contudo, que a culpa pela obsolescência da atividade turfística, em todos os aspectos apontados, deveria ser atribuída e endereçada, isto sim, ao modelo – unilateral e inoperante – de gestão que vem sendo empregado. Por outro lado, contratar pessoas inaptas, a preço alto, na ânsia de “profissionalizar” um clube, não constitui ato meritorio ou salvador em qualquer modelo que se adote.

Clubes prosperando ainda existem, em vários paises do mundo, inclusive na Inglaterra, onde a propalada “estrutura amadora” ainda perdura, em determinados segmentos, com muito sucesso (até no futebol), bastando, para isso, que sigam estabelecendo planos de ações inteligentes, delegando poderes (contratando e escalando pessoas certas) e cobrando resultados, independentemente do fato de como se encontra representado o “Capital Social”, se por Títulos ou por Ações.

Determinados clubes hípicos, nos principais centros do mundo, já, há muito tempo, passaram a ser “alvo” de empresários (muitos deles criadores da própria raça) interessados em explorar seu potencial. Nesse contexto, Quadros Sociais de alguns clubes promotores de Corridas de Cavalo se “renderam” à investida dessas sociedades que passaram a “dominar” a atividade, principalmente nos EUA, apesar de ainda existirem estruturas comunitárias, “sem” fins lucrativos, por lá.

Até “comunidades” indígenas (sociedades fechadas), que foram autorizadas a operar JOGO, vem obtendo expressivos resultados nos EUA. Na Argentina um grande “stud” cuida de Palermo.

Na verdade, essa premissa de “não lucratividade” pode ser uma ficção jurídica, pois ao próprio JCB é permitido, perfeitamente, reunir recursos e “distribuir dividendos” em forma de melhorias em diversos setores, sejam prêmios, alienações ou outros valores (como no passado), o que contribuiria para valorizar o título, constituindo–se em patrimônio real para seus associados.

De qualquer modo, não existe, em nenhuma estrutura de corrida de cavalos pelo mundo todo, um suporte eminentemente profissional, que, por sua vez, não disponha, em tempo integral, das “Associações de Criadores e Proprietários”. Como, aliás, dependentes sempre serão, essas empresas, dos apostadores para a formulação dos jogos. Esses “sócios contribuintes” e ocultos nas assembléias, mas que são (junto aos cavalos) os verdadeiros “donos” do espetáculo.

Uma instituição dessas, que queira ser bem sucedida, precisa observar apenas dois “mandamentos”, formados de um binômio muito singular: 1– os apostadores e os cavalos 2– os cavalos e os apostadores; o resto, vem por gravidade.

O “enigma”, para mim, talvez esteja no “afastamento” dos sócios comprometidos com essas premissas – como Sergio Barcellos e tantos outros – e não em sua possível “amadora” interferência.

No artigo ainda, Sergio define acertadamente como “sui generis”, no nosso pequeno “mundo” do turfe, o contraste entre a competência de criadores e proprietários, “que atingiram níveis internacionais de excelência” e o estado em que os hipódromos se encontram: “caindo aos pedaços, dilapidados, imundos, sem a menor condição de receber publico”.

É fácil comprovar, seguindo o raciocínio do autor, que esse único segmento a performar por aqui, “que hoje não é sequer convidado para almoçar no dia do Derby”, quando esteve de posse das chaves do hipódromo – por lindos e proveitosos anos – sempre o fez com muito profissionalismo e dedicação, como foi há cerca de 16 anos (entre outras oportunidades no passado), com a revelação de um status até então não experimentado pelo clube, como a liderança nacional na atividade de turfe e na reedição acertada de promoções cinqüentenárias como o sweepstake, e etc.

Para isso, sempre convidou para sentar à mesa, não só os turfistas em geral, como dezenas de patrocinadores, à luz dos nossos refletores, gerando “lucros” para pagar as contas e ainda fazer publicidade, coisa que hoje, pelo visto, virou parte de um folclore distante, tanto a propaganda quanto o último protagonista – “o recordista mundial de vitórias” –, um desses personagens que vivem distante do nosso “palco”, mas que o artigo do Sérgio não perdeu de vista, por ser egresso de uma Escola, a que hoje se nega, sob triste referência, “os investimentos que ela necessita para ampliar suas atividades e seu trabalho”.

Tem sido impossível fazer retorná–los aos “escritórios” do turfe, por incrível que possa parecer.
 
Não consigo, a propósito, reconhecer, nas últimas diretorias, salvo raras e afastadas exceções, esses tais importantes “proprietários entusiasmados”, que prestigiam as corridas e que ainda adquirem os potros, citados por Sérgio. Essa gente tão importante pro turfe, matéria prima rara, “tomadora” do PSI, não tem freqüentado, em necessário número, as últimas “chapas” eleitas, e os poucos, como Sergio, jamais conseguiram, por algum momento, estarem de posse do tal “molho” de chaves, sobretudo a do cofre, sem a qual as outras todas perdem o sentido.

Não podemos também transformar esse importante depoimento para o turfe brasileiro – que sei não ter sido o propósito – em um instrumento injusto, pois considerar que os sócios criadores e proprietários, cuja postura é enaltecida no texto, são “excelentes” apenas durante a semana, não faria nenhuma justiça com o próprio artigo.

Certamente, nos “finais de semana”, esses sócios “entusiasmados” poderiam continuar exercendo as suas competências para “sensibilizar mídias, limpar os hipódromos”, restaurar as “Escolas de Profissionais”, recolher do lixo o “veículo de marketing”, preservar seu Patrimônio e, principalmente, fazer crescer a atividade, como já conseguiram quando comandaram o espetáculo.

Obviamente que urge cumprir um plano de admissões plausíveis, sem grandes discrepâncias salariais, contratando, para setores determinados, “profissionais” de caráter ilibado, sem vícios conhecidos e com humildade razoável para não achar, em rápido espaço de tempo, que já possuem conhecimento suficiente sobre o turfe, a ponto de dispensar as lições que poderiam lhes ser transmitidas, em longo prazo, por alguém como o próprio autor do texto a que me refiro. 

Inútil a contratação de um Chefe de Cozinha por quem não entenda de culinária.

Gostaria de concluir pedindo a Sergio Barcellos que não condene ao “afastamento eterno do comando do JCB” a totalidade dos quase seis mil sócios “amadores”, que compõem o Quadro Social, e que não os venha a culpar em caso de “falência” da nossa instituição. Pois muitos deles sequer tiveram a oportunidade de emprestar suas “fardas” para vestir o clube, e outros, que já o fizeram com sucesso, hoje se veem “impedidos”, como ele próprio, de estarem à frente do TURFE, uma espécie de “carma”, tão “enigmático” quanto surpreendente.

Sendo CLUBE ou sendo EMPRESA (ou ambos) o JCB não pode ser “pensado” apenas com a “cabeça” de uma pessoa, a partir de suas “imaginações” isoladas, como visivelmente vem ocorrendo, e os sócios, a que me refiro, também não podem ser “usados”, caso sejam convidados a sentar à mesa, tão–somente com a intenção de “concordarem” com tudo o que foi individualmente “imaginado”, como algumas “alucinações” que me são claras nos dias de hoje.

Prestando também reverência a Gibbon, é preciso atenção quando este também adverte que “uma causa imaginária é capaz de produzir os efeitos mais sérios e danosos”. 

Seja que modelo for, a ser empregado para evitar o “abismo”, esse deve passar obrigatoriamente pelo trabalho conjunto de muita gente boa que esse clube ainda dispõe. Melhor seria que fossem utilizados muitos daqueles turfistas de “prêmios defasados”, mas de valorosos predicados, que habitam o indispensável manifesto de Sergio, como ele próprio, em prol dessa raça de que tanto aprendemos a gostar e que ele tão bem denominou como sendo “a mais rápida máquina aeróbica do mundo animal”.

Muito embora eu já não mais acredite que isso seja possível no JCB. Sinceramente.

Luiz Fernando Dannemann

Prezadíssimo Sergio,

Antes de tudo meus parabéns pela coragem do seu texto. Conheço perfeitamente os “endereços” para onde foi remetida a sua “parcela” de Gibbon.

Constato, com total perplexidade, uma corrente “amadora” e desprovida de conhecimento,  administrando (e imaginando) o espetáculo de turfe no Brasil, em especial na cidade do Rio de Janeiro. Veja com quais pessoas estamos sendo obrigados a “andar”, receosos e indesejosos de que alguém nos flagre ao lado e tente “nos interpretar” como sendo uma delas.

O “derby winner” Negro da gaita, que se encontra em solo brasileiro, após fazer subir ao podium, honrosamente, a bandeira do Brasil em pistas internacionais, participou de uma dura “classificatória” (que impôs uma viagem desgastante), a partir da qual foram feitas algumas propostas “milionárias”, recusadas sob um ultrapassado e pretenso “amor” ao turfe brasileiro.

Contudo, amigo Sérgio, esse cavalo, nascido no Brasil, ganhador do último Derby e segundo colocado no Pellegrini, sequer foi “premiado” com um convite para ser um dos representantes desse País (pelo Rio de Janeiro) no GP Latino–americano, conforme os outros paises que compõem a prova já fizeram com alguns dos seus (como sempre foi), a partir de recentes e meritórias performances apresentadas.

Pois esses países, alguns com turfe muito pequenino como o Uruguai, que também pré–selecionou um dos representantes, com muita justiça, sabem que, quando as “estrelas” não sobem ao palco por vontade própria, o público sai pelos portões, alheio ao nosso desejo.

O “espetáculo” por aqui, pra tristeza da gente, não está mais sendo realizado nas pistas, transferido que foi, repentinamente, à nossa revelia, para as tribunas de honra, com aparições sorridentes, enquanto o resto do hipódromo falece de uma morte anunciada.

Temia, como sócio, pela falência do meu clube; como criador e proprietário, pelo esvaziamento da atividade, como antigo turfista, pelo futuro de muitos profissionais; temo agora, como cidadão, pelo “arquivamento” impublicável do Cartão Postal consagrado dessa Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, capital da nossa vida.

O Rio de São Sebastião, da Bossa Nova, do Mané Garrincha, do Corcovado, do calçadão de Copacabana e do Dr. Roberto Marinho.

O Rio dos Carnavais em fevereiro, do Tom Jobim no “Plataforma”, do GP Brasil em agosto e do Cristo Redentor que abraça o Jockey, para onde eram “encaminhadas” as preces dirigidas a Deus, por todos os amantes do turfe, para que nos Sábados e Domingos jamais faltassem Cavalos correndo no Hipódromo da Gávea.

Obrigado e um forte abraço!



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