O artigo do brilhante Sergio
Barcellos que, entre outros temas muito oportunos, sugere uma imediata profissionalização da
atividade de turfe, não pode servir de desculpa para alguns e nem tampouco confundir–se, como
sendo uma justificativa pela derrocada do Jockey Club Brasileiro, que só pode ser observada a
partir das ineficientes administrações a que tem sido submetido – e não pelo modelo –,
algumas das quais integradas por esse importante turfista, que, naturalmente, jamais dispôs,
em quaisquer delas, do poder necessário de alterar decisões, ou implantar benefícios oriundos
de sua larga experiência.
O texto de “Esse estranho turfe no Brasil” pode, sem
querer – mesmo não sendo essa a intenção –, deslocar a explicação da falta de apetite no
turfe, verificada nos últimos mandatos, para o alegado formato institucional “ultrapassado”,
e a culpa adviesse, exclusivamente, do pretenso fato de ser o JCB um Clube de estrutura
“amadora”, composto de amadores, ao invés de uma Empresa com modelo “profissional”, integrada
apenas por funcionários competentes.
A experiência haurida dos últimos mandatos
demonstra, contudo, que a culpa pela obsolescência da atividade turfística, em todos os
aspectos apontados, deveria ser atribuída e endereçada, isto sim, ao modelo – unilateral e
inoperante – de gestão que vem sendo empregado. Por outro lado, contratar pessoas inaptas, a
preço alto, na ânsia de “profissionalizar” um clube, não constitui ato meritorio ou salvador
em qualquer modelo que se adote.
Clubes prosperando ainda existem, em vários
paises do mundo, inclusive na Inglaterra, onde a propalada “estrutura amadora” ainda perdura,
em determinados segmentos, com muito sucesso (até no futebol), bastando, para isso, que sigam
estabelecendo planos de ações inteligentes, delegando poderes (contratando e escalando
pessoas certas) e cobrando resultados, independentemente do fato de como se encontra
representado o “Capital Social”, se por Títulos ou por Ações.
Determinados clubes
hípicos, nos principais centros do mundo, já, há muito tempo, passaram a ser “alvo” de
empresários (muitos deles criadores da própria raça) interessados em explorar seu potencial.
Nesse contexto, Quadros Sociais de alguns clubes promotores de Corridas de Cavalo se
“renderam” à investida dessas sociedades que passaram a “dominar” a atividade, principalmente
nos EUA, apesar de ainda existirem estruturas comunitárias, “sem” fins lucrativos, por
lá.
Até “comunidades” indígenas (sociedades fechadas), que foram autorizadas a
operar JOGO, vem obtendo expressivos resultados nos EUA. Na Argentina um grande “stud” cuida
de Palermo.
Na verdade, essa premissa de “não lucratividade” pode ser uma ficção
jurídica, pois ao próprio JCB é permitido, perfeitamente, reunir recursos e “distribuir
dividendos” em forma de melhorias em diversos setores, sejam prêmios, alienações ou outros
valores (como no passado), o que contribuiria para valorizar o título, constituindo–se em
patrimônio real para seus associados.
De qualquer modo, não existe, em nenhuma
estrutura de corrida de cavalos pelo mundo todo, um suporte eminentemente profissional, que,
por sua vez, não disponha, em tempo integral, das “Associações de Criadores e Proprietários”.
Como, aliás, dependentes sempre serão, essas empresas, dos apostadores para a formulação dos
jogos. Esses “sócios contribuintes” e ocultos nas assembléias, mas que são (junto aos
cavalos) os verdadeiros “donos” do espetáculo.
Uma instituição dessas, que queira
ser bem sucedida, precisa observar apenas dois “mandamentos”, formados de um binômio muito
singular: 1– os apostadores e os cavalos 2– os cavalos e os apostadores; o resto, vem por
gravidade.
O “enigma”, para mim, talvez esteja no “afastamento” dos sócios
comprometidos com essas premissas – como Sergio Barcellos e tantos outros – e não em sua
possível “amadora” interferência.
No artigo ainda, Sergio define acertadamente
como “sui generis”, no nosso pequeno “mundo” do turfe, o contraste entre a competência de
criadores e proprietários, “que atingiram níveis internacionais de excelência” e o estado em
que os hipódromos se encontram: “caindo aos pedaços, dilapidados, imundos, sem a menor
condição de receber publico”.
É fácil comprovar, seguindo o raciocínio do autor,
que esse único segmento a performar por aqui, “que hoje não é sequer convidado para almoçar
no dia do Derby”, quando esteve de posse das chaves do hipódromo – por lindos e proveitosos
anos – sempre o fez com muito profissionalismo e dedicação, como foi há cerca de 16 anos
(entre outras oportunidades no passado), com a revelação de um status até então não
experimentado pelo clube, como a liderança nacional na atividade de turfe e na reedição
acertada de promoções cinqüentenárias como o sweepstake, e etc.
Para isso, sempre
convidou para sentar à mesa, não só os turfistas em geral, como dezenas de patrocinadores, à
luz dos nossos refletores, gerando “lucros” para pagar as contas e ainda fazer publicidade,
coisa que hoje, pelo visto, virou parte de um folclore distante, tanto a propaganda quanto o
último protagonista – “o recordista mundial de vitórias” –, um desses personagens que vivem
distante do nosso “palco”, mas que o artigo do Sérgio não perdeu de vista, por ser egresso de
uma Escola, a que hoje se nega, sob triste referência, “os investimentos que ela necessita
para ampliar suas atividades e seu trabalho”.
Tem sido impossível fazer
retorná–los aos “escritórios” do turfe, por incrível que possa parecer.
Não
consigo, a propósito, reconhecer, nas últimas diretorias, salvo raras e afastadas exceções,
esses tais importantes “proprietários entusiasmados”, que prestigiam as corridas e que ainda
adquirem os potros, citados por Sérgio. Essa gente tão importante pro turfe, matéria prima
rara, “tomadora” do PSI, não tem freqüentado, em necessário número, as últimas “chapas”
eleitas, e os poucos, como Sergio, jamais conseguiram, por algum momento, estarem de posse do
tal “molho” de chaves, sobretudo a do cofre, sem a qual as outras todas perdem o
sentido.
Não podemos também transformar esse importante depoimento para o turfe
brasileiro – que sei não ter sido o propósito – em um instrumento injusto, pois considerar
que os sócios criadores e proprietários, cuja postura é enaltecida no texto, são “excelentes”
apenas durante a semana, não faria nenhuma justiça com o próprio artigo.
Certamente, nos “finais de semana”, esses sócios “entusiasmados” poderiam
continuar exercendo as suas competências para “sensibilizar mídias, limpar os hipódromos”,
restaurar as “Escolas de Profissionais”, recolher do lixo o “veículo de marketing”, preservar
seu Patrimônio e, principalmente, fazer crescer a atividade, como já conseguiram quando
comandaram o espetáculo.
Obviamente que urge cumprir um plano de admissões
plausíveis, sem grandes discrepâncias salariais, contratando, para setores determinados,
“profissionais” de caráter ilibado, sem vícios conhecidos e com humildade razoável para não
achar, em rápido espaço de tempo, que já possuem conhecimento suficiente sobre o turfe, a
ponto de dispensar as lições que poderiam lhes ser transmitidas, em longo prazo, por alguém
como o próprio autor do texto a que me refiro.
Inútil a contratação de um
Chefe de Cozinha por quem não entenda de culinária.
Gostaria de concluir pedindo a
Sergio Barcellos que não condene ao “afastamento eterno do comando do JCB” a totalidade dos
quase seis mil sócios “amadores”, que compõem o Quadro Social, e que não os venha a culpar em
caso de “falência” da nossa instituição. Pois muitos deles sequer tiveram a oportunidade de
emprestar suas “fardas” para vestir o clube, e outros, que já o fizeram com sucesso, hoje se
veem “impedidos”, como ele próprio, de estarem à frente do TURFE, uma espécie de “carma”, tão
“enigmático” quanto surpreendente.
Sendo CLUBE ou sendo EMPRESA (ou ambos) o JCB
não pode ser “pensado” apenas com a “cabeça” de uma pessoa, a partir de suas “imaginações”
isoladas, como visivelmente vem ocorrendo, e os sócios, a que me refiro, também não podem ser
“usados”, caso sejam convidados a sentar à mesa, tão–somente com a intenção de “concordarem”
com tudo o que foi individualmente “imaginado”, como algumas “alucinações” que me são claras
nos dias de hoje.
Prestando também reverência a Gibbon, é preciso atenção quando
este também adverte que “uma causa imaginária é capaz de produzir os efeitos mais sérios e
danosos”.
Seja que modelo for, a ser empregado para evitar o “abismo”, esse
deve passar obrigatoriamente pelo trabalho conjunto de muita gente boa que esse clube ainda
dispõe. Melhor seria que fossem utilizados muitos daqueles turfistas de “prêmios defasados”,
mas de valorosos predicados, que habitam o indispensável manifesto de Sergio, como ele
próprio, em prol dessa raça de que tanto aprendemos a gostar e que ele tão bem denominou como
sendo “a mais rápida máquina aeróbica do mundo animal”.
Muito embora eu já não
mais acredite que isso seja possível no JCB. Sinceramente.
Luiz Fernando
Dannemann
Prezadíssimo Sergio,
Antes de tudo meus parabéns pela
coragem do seu texto. Conheço perfeitamente os “endereços” para onde foi remetida a sua
“parcela” de Gibbon.
Constato, com total perplexidade, uma corrente “amadora” e
desprovida de conhecimento, administrando (e imaginando) o espetáculo de turfe no
Brasil, em especial na cidade do Rio de Janeiro. Veja com quais pessoas estamos sendo
obrigados a “andar”, receosos e indesejosos de que alguém nos flagre ao lado e tente “nos
interpretar” como sendo uma delas.
O “derby winner” Negro da gaita, que se encontra em
solo brasileiro, após fazer subir ao podium, honrosamente, a bandeira do Brasil em pistas
internacionais, participou de uma dura “classificatória” (que impôs uma viagem desgastante),
a partir da qual foram feitas algumas propostas “milionárias”, recusadas sob um ultrapassado
e pretenso “amor” ao turfe brasileiro.
Contudo, amigo Sérgio, esse cavalo, nascido no
Brasil, ganhador do último Derby e segundo colocado no Pellegrini, sequer foi “premiado” com
um convite para ser um dos representantes desse País (pelo Rio de Janeiro) no GP
Latino–americano, conforme os outros paises que compõem a prova já fizeram com alguns dos
seus (como sempre foi), a partir de recentes e meritórias performances
apresentadas.
Pois esses países, alguns com turfe muito pequenino como o Uruguai, que
também pré–selecionou um dos representantes, com muita justiça, sabem que, quando as
“estrelas” não sobem ao palco por vontade própria, o público sai pelos portões, alheio ao
nosso desejo.
O “espetáculo” por aqui, pra tristeza da gente, não está mais sendo
realizado nas pistas, transferido que foi, repentinamente, à nossa revelia, para as tribunas
de honra, com aparições sorridentes, enquanto o resto do hipódromo falece de uma morte
anunciada.
Temia, como sócio, pela falência do meu clube; como criador e proprietário,
pelo esvaziamento da atividade, como antigo turfista, pelo futuro de muitos profissionais;
temo agora, como cidadão, pelo “arquivamento” impublicável do Cartão Postal consagrado dessa
Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, capital da nossa vida.
O Rio de São Sebastião,
da Bossa Nova, do Mané Garrincha, do Corcovado, do calçadão de Copacabana e do Dr. Roberto
Marinho.
O Rio dos Carnavais em fevereiro, do Tom Jobim no “Plataforma”, do GP Brasil
em agosto e do Cristo Redentor que abraça o Jockey, para onde eram “encaminhadas” as preces
dirigidas a Deus, por todos os amantes do turfe, para que nos Sábados e Domingos jamais
faltassem Cavalos correndo no Hipódromo da Gávea.
Obrigado e um forte abraço!