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Dezembro | 2008

Antigos Criadores II, Milton Lodi
11/12/2008 - 13h18min

Um dos mais significativos nomes do turfe brasileiro é o de Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior. Era um homem culto, brilhante advogado, que veio dedicar–se com extraordinário sucesso na área empresarial. Figura carismática, fascinante, tinha grande prestígio nas áreas sociais, financeiras, empresariais e políticas. O pai dele tinha uma fazenda de gado chamada Mon Desir, o que em francês quer dizer Meu Desejo.

Quando o Dr. Peixoto iniciou–se na criação de cavalos de corrida, por volta de 1928, comprou uma propriedade no Município de Lorena, SP, situada aproximadamente no meio do trajeto rodoviário Rio–São Paulo, e com o posterior traçado e asfaltamento da rodovia, ficou à beira do asfalto. Deu ao haras o nome de Mondesir, uma clara referência à fazenda do pai. A primeira geração nasceu em 1930, e foi dela que saiu o primeiro tríplice–coroado do turfe carioca, instituição criada em 1933. O Mondesir criou três dos quatro primeiros tríplices–coroados cariocas. O sucesso veio desde o princípio e permanece até hoje.

Com a clarividência dos muito inteligentes, poucos anos após o início de atividades do Mondesir, o Dr. Peixoto comprou terras no extremo sul do país, cerca de 70 Km adiante de Uruguaiana, RS. Ele era domiciliado no Rio de Janeiro, o Mondesir ficava aproximadamente a 250 Km, e o segundo haras, que recebeu o nome de Itaiassú (em Indígena Pedra Grande) a cerca de 2.300 Km.

Ir ao Mondesir não era difícil, mesmo levando–se em conta a estrada de terra, mas chegar ao Itaiassú era complicado, com estradas precárias e sem pontos de apoio que garantissem gasolina, alimentação e conforto. Uma vez por ano, o Dr. Peixoto, com a sua querida e inseparável D. Zélia, a filha, o genro e netos, esses com menos de 10 anos de idade, pegavam um navio no Rio de Janeiro, que no trajeto para Buenos Aires ia parando em portos como Santos e Paranaguá, e em Porto Alegre, após 3 ou 4 dias por mar, pegava com a família uma litorina. Essa litorina era um veículo que havia à época, parecido com a configuração de um pequeno ônibus, movido a diesel, e que trafegava na linha dos trens, e era alugada, o Dr. Peixoto e a família chegavam a Uruguaiana após mais de 12 horas de viajem pelas linhas férreas. De lá percorriam de carro os últimos 60 ou 70 Km até a propriedade, que tinha acomodações satisfatórias construídas pelo antigo proprietário, Joaquim Francisco de Assis Brasil. Após uns 10 dias de visita, voltavam todos pelos mesmos meios de transporte. Era uma boa e bonita fazenda, cuidada por um administrador conhecido como Maestro Pablo.

O pioneirismo do Dr. Peixoto tinha por finalidade testar o que lhe parecia lógico. Nas melhores terras do Brasil para a criação de cavalos de corrida, terra, água, clima, tudo naturalmente adequado. No pampa gaúcho, extensão das melhores terras da Argentina e do Uruguai, criação com maior liberdade, mais espaços, a perspectiva era boa. Para lá foram enviados os animais menos categorizados, menos valiosos, os excedentes, os experimentais. Éguas e cavalos menos competentes eram mandados para lá, e de lá vinham os que eventualmente se destacavam. Os potros vinham com boa ossatura, boa saúde, e de criação bem mais barata.

Certa época, de política conturbada, com João Goulart na Presidência da República e Leonel Brizola como Governador do Rio Grande do Sul, grupos pregavam invasão de terras, a insegurança crescia. Foi quando o Dr. Peixoto recebeu excelente proposta para vender o Itaiassú. Ele levou para o Mondesir uns tantos animais, e aceitou a proposta de João Chaves Barcelos, que lá implantou o Haras Cinamomo. Naturalmente antes de ser Ministro da Agricultura, sem sombra de dúvidas o melhor de todos o zootecnista que trabalhava com gado e cavalos no Cinamomo era Luiz Fernando Cirne Lima.

O Dr. Peixoto comprava sistematicamente na Europa, basicamente na Inglaterra e Irlanda, o que havia de melhor em pedigrees. Construiu a grandeza do Mondesir com muita inteligência e muito investimento. Possivelmente a melhor importação já feita pelo Brasil, em função de qualidade, de representatividade, de sucesso, foi King Salmon, um dos grandes marcos da criação nacional. E isso levando–se em conta que os grandes importados, só para falar daqueles que vieram para o Mondesir, estavam Royal Dancer, Sayani, Swallow Tail e Waldmeister. King Salmon foi extraordinário.

Com a morte do Dr. Peixoto em 1976, o Mondesir tomou novo rumo, em mãos dos netos Antonio Joaquim e Paulo Cezar, indo para Bagé, RS. Não seria necessário falar no que aconteceu e continua acontecendo. Se na fase paulista o Mondesir teve King Salmon, na gaúcha fulgurou Ghadeer, que como King Salmon notabilizou–se principalmente como avô materno. O atual Mondesir é um dos principais exportadores de cavalos de corrida do país.

Se por um lado o Mondesir iniciou–se em São Paulo (Lorena) e foi para o Rio Grande do Sul (Bagé), em contrapartida o Itaiassú começou no Rio Grande do Sul (Uruguaiana) e foi para São Paulo (Bananal), onde está desde 1972 ou 1973, pois o Dr. Peixoto e a D. Zélia tiveram, poucos anos antes de suas mortes respectivamente em 1976 e 1977, o prazer de conhecer o novo Itaiassú, em mãos do neto Sérgio, que comprou o então em extinção Haras Santa Annita, e após uma ampla reforma transformou–o no novo Haras Itaiassú.

Essa história da trajetória do Mondesir e do Itaiassú, inicialmente com o Dr. Peixoto e depois com os netos, é uma das mais importantes e interessantes da evolução da criação brasileira de cavalos de corrida, no momento, 2008, já com mais de 80 anos de grande brilho.

Não é só diretamente que o Mondesir e o Itaiassú são credores de importância e sucesso, através os produtos por eles criados, mas o grande número de cavalos clássicos não cabia na organização, e os muitos outros haras brasileiros lá iam buscar excelentes cavalos para servir de garanhões, e éguas de finíssimos pedigrees que não tinham espaço nas cocheiras e nos piquetes do Mondesir. Muitos haras floresceram à sombra.

Um dos principais pontos de sucesso do empreendimento Mondesir–Itaiassú estava no fato do comparecimento semanal do Dr. Peixoto e da D. Zélia às corridas. O detalhe era o acompanhamento físico, ocular, do que se passava nas corridas.

O Dr. Peixoto não era um criador que corria, mas um proprietário que criava. Assim como ele, o mesmo faziam grandes nomes da criação brasileira, notadamente de criadores paulistas domiciliados no Rio de Janeiro, como Linneo de Paula Machado, Carlos Telles e Carlos Gilberto da Rocha Faria, Roberto Grimaldi Seabra, Euvaldo Lodi.



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